Results for Amor de Deus

Tem mundo pra todo mundo

12.1.20
Crédito da imagem: Força Jovem Foz

Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. João 17.15

Algumas palavras que têm relevância na Bíblia precisam ser frequentemente revistas para que o sentido em que foram empregadas originalmente seja recuperado. Uma delas é a palavra mundo, pois esta assumiu no meio evangélico um sentido tão pejorativo que, quando pronunciada, imediatamente faz soar um sonoro sinal de alerta em virtude da sua alta periculosidade para a vida do cristão. Porém, advertida ou inadvertidamente nos esquecemos de que no texto sagrado a palavra mundo possui mais de um significado, sendo que a maioria deles são alvos diretos da atenção e do carinho de Deus e que mesmo aquele sentido de mundo que faz soar mais alto o alarme da nossa consciência de cristãos, não tem tanto do poder diabólico quanto pensamos.

Em primeiro lugar a Bíblia fala de mundo como criação de Deus. Muito embora haja no presente século um esforço consensual para transferir esse magnífico desempenho para algo chamado Mãe Natureza, expressão que no seu substantivo não é encontrada nas Escrituras, o cristão tem por obrigação entender que o evangelho não começa em Mateus 1.1, e sim em Gênesis 1.1: No princípio criou Deus os céus e a terra. Se não cremos que foi Deus quem nos criou, que motivos temos para acreditar que ele nos ama tanto? Esse breve e contestado relato descreve não somente o quanto Deus ama, mas também o quanto esse amor é antigo. Deus começa amando o mundo mesmo antes de criá-lo e essa criação perfeita e ordenada é a prova de que o mundo foi criado com amor, posto antes do ato criador o seu Espírito inconformado estava com a predominância do caos.

A Bíblia fala do mundo de gentes. Fala do mundo das pessoas a quem Deus tanto amou a ponto de entregar seu Filho para resgatá-las de toda e qualquer condenação das quais pudessem ser acusadas. Do mundo no qual o Filho de Deus veio para servir e não para ser servido. O mundo que Deus considerou tão precioso quanto um tesouro escondido num campo e que não mediu sacrifícios, pelo contrário, deu tudo o que possuía para comprá-lo para si. O curioso de tudo é que foi nas pessoas do mundo, as de fora da igreja que Deus encontrou as virtudes que esperava encontrar nos religiosos do seu povo, povo que já se considerava de outro mundo. A mulher samaritana, a sírio-fenícia, no centurião e até mesmo em um ladrão.

A Bíblia também faz considerações de um mundo a ser superado, não que ele seja exatamente ruim, mas que precisa ser sempre tornado novo pela renovação da nossa mente. Paulo em Romanos 12.2 deixa isso claro quando nos diz: não vos conformeis com esse mundo. As palavras gregas aion e aionos, que na maioria das vezes que aparecem no Segundo Testamento são traduzidas por eternidade, às vezes aparecem também como século, indicando que devemos fazer mudanças nas coisas concernentes ao nosso tempo e não em um local específico. Jesus já nos havia alertado sobre a imprudência de se colocar remendo novo em roupa velha. O evangelho é para um novo tempo desse nosso mundo que pode e precisa ser renovado e não para outro mundo.

A Bíblia diz que o mundo que Deus vai salvar é esse mundo aqui. Muitos ficam esperando um arrebatamento que os tire desse mundo e os leve para outro mundo que nem sabem bem qual é. Porém, João do Apocalipse, seguindo a sua última visão, a visão da cidade eterna, relata a Jerusalém celeste descendo do céu, mas não fala nada de gente subindo ao seu encontro. Fala sim que Deus virá montar o seu tabernáculo entre homens e que neste nosso mundo fará novas as coisas que são próprias desse mundo. As coisas que estão fazendo esse mundo ser diferente do mundo que Deus se propõe a transformar.

Outro fator que corrobora com a ideia de preservação que Deus tem planejado para esse mundo é a ênfase eufórica que o mesmo João faz a narrativa da queda da grande meretriz, a Babilônia. Podemos ler em Apocalipse 17 que João conclui que na realidade Deus está falando de Roma: A mulher que você viu é a grande cidade que domina os reis do mundo inteiro. No capítulo 18 ele profetiza não somente a sua destruição, como ordena que seu povo saia dela: Saia dela povo meu. Fora da cidade o povo de Deus irá contemplar a destruição total de Roma, mas o seu povo não estará sozinho. Os outros moradores da cidade estarão também de fora, em outro lugar do mundo e, de fora, também contemplarão o seu fim: Os negociantes dessas coisas, que enriqueceram à custa dela, ficarão de longe, amedrontados com o tormento dela, e chorarão e se lamentarão... ao verem a fumaça do incêndio dela, exclamarão. Ou seja, a cidade queimara vazia e o mundo será preservado dessa destruição. As pessoas assistirão a sua queda.

Depois de tudo que foi exposto, vale lembrar que foi a própria igreja que ao longo dos anos permitiu que se perpetuasse entre seus membros a ideia de que o mundo ruim, o mundo mau ou o mundo contra Deus foi dotado por Satanás, pelo Diabo ou por qualquer outro ser maligno de um poder de atração muito forte. Os cristãos de hoje pensam que as coisas do mundo são os motivos que os levam a pecar porque elas têm um poder de atração muito grande e que por isso delas devemos nos afastar o máximo possível, ideia que a Bíblia nega peremptoriamente. A Bíblia é enfática, tanto em Romanos 7 como em Tiago 1, em afirmar que a tentação que nos faz pecar está dentro de nós mesmos e não nas coisas do mundo lá fora. O que a Bíblia nos diz é que não existe poder algum no mundo que seja maior ou que possa minimamente ofuscar o poder que foi dado à igreja por Jesus Cristo. O poder de investir contra as fortalezas do inferno, o poder de transformar o mal em bem e até mesmo o poder de definir o que vem a ser bom e o que, no seu entender, passa a ser mau nesse nosso mundo, pois foi dado somente a ela o poder de ligar e de desligar as coisas da terra com as do céu.

Pedro, tu me amas? II

Jesus no Mar da Galiléia, Lucas Gassel (1490-1568)
E perguntou pela segunda vez: — Simão, filho de João, você me ama? Pedro respondeu: — Sim, o senhor sabe que eu o amo, Senhor! E Jesus lhe disse outra vez: — Tome conta das minhas ovelhas! Leia João 21.1-17

Este texto é um dos mais traumáticos e ao mesmo tempo um dos mais ternos da Bíblia toda. Não conheço outro tão emocionante. É o drama da reintegração de Simão Pedro. O que aconteceu àquele homem precisa acontecer a cada um de nós. É o evangelho em miniatura. Revela a fonte de poder, de amor e de gozo na vida cristã. Revela o quanto Jesus ressurreto deseja nos libertar das culpas e das frustrações que acumulamos ao longo das nossas vidas.

A mensagem central do texto é a seguinte: O amor de Deus nunca falha, por mais que nós falhemos. Pedro tinha construído o seu relacionamento com Cristo baseado na sua própria capacidade, na sua própria competência. Foi exatamente por isso que ele sofreu mais o impacto desse diálogo do que a sua negação no Getsêmani.

Com o que ainda restava de suas forças ele poderia viver, mesmo com a consciência em frangalhos. O que lhe restou de orgulho, de fidelidade e de honra o sustentariam por mais alguns anos. Seu grande erro continuava sendo o de pensar que sua relação com Deus dependia do cultivo das qualidades que iriam ganhar a sua aprovação. Pedro, assim como nós, tropeçava constantemente no seu próprio ego. Se ser adequado é fundamental para ser amado por Deus, o que acontece quando com que é inadequado? Todos nós temos o mesmo problema. Nós projetamos em Deus o que nós conhecemos, e nós conhecemos, como todo mundo conhece bem: o jeito que fomos criados pelos nossos pais. Se fazemos o que é certo, recebemos o prêmio. Até criaram um Papai Noel para isso. Porém, se fazemos o que é errado, a coisa é diferente. Tem que ser desse jeito, eu não conheço outro.

Nosso problema é projetar em Deus o nosso próprio padrão de aceitação. Eu não conheço outro padrão de aceitação. Toda a nossa compreensão de Deus é baseada no amor negociado, no interesse próprio, na troca de referências. Neste padrão, Deus nos amará somente se formos corretos, se formos diligentes, se formos aceitáveis. Nós tentamos de todas as formas vivermos uma vida reta. Claro, por isso estamos na igreja. Tentamos viver uma vida reta para Deus nos amar, em vez de vivermos uma vida reta porque ele já nos tem amado. Diferença entre dia e noite. Por isso vamos ver três situações que podem nos ajudar nessa mudança de padrão de aceitação.

O melhor da mensagem de Jesus é que ele sabia que, por iniciativa própria, não conseguiríamos amar a Deus com todas as nossas forças, com toda a nossa alma e com todo o nosso entendimento, por isso ele veio anunciar que o amor de Deus é dado livremente a nós, antes mesmo de pedirmos. Se é assim, então por que Jesus perguntou a Pedro se ele o amava, se ele já sabia de antemão que Pedro jamais poderia amá-lo suficientemente? Não foi para expor em público a inadequação de Pedro, esse não foi o problema. O objetivo era conseguir que Pedro deixasse Jesus amá-lo. Pedro viveu amargurado aqueles dias por que não podia dizer a Jesus o que sentia. Porque não podia pedir perdão e começar de novo.

Tudo o que Pedro conhecia era o que havia aprendido do Primeiro Testamento: amarás o Senhor teu Deus, com todas as tuas forças, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento, e a teu próximo como a ti mesmo. E ele viu que se encontrava em falta com esses mandamentos. Ele assumiu a culpa básica. Pedro conhecia bem esses mandamentos, mas não sabia como vivê-los. Ele não havia entendido ainda que Jesus viera para prover a motivação necessária para se viver integralmente esses mandamentos. O ministério de Jesus, a sua vida, a sua mensagem, os seus milagres, a sua paixão, a sua morte e a sua ressurreição demonstravam um Deus amando o mundo de tal maneira, que as pessoas, como resultado desse amor, poderiam amar as outras como amam a si, e amar a Deus com todas as forças. Assim poderiam amar a Deus como resposta e não como uma tentativa de qualificação. (continua)

Símbolos do Natal

22.12.19
Manjedoura, fotógrafo não identificado
Encontrareis uma  criança envolta em faixas e deitada em uma manjedoura. Leiam Lucas 2.8-12

Para nós cristãos, principalmente aqueles que foram crianças na igreja, a cena dos anjos e pastores nos arredores de Belém é por demais significativa. Não foram poucas as oportunidades que nas celebrações do Natal, ora representávamos os anjos, ora os pastores e quando o elenco era muito grande, até mesmo as ovelhas. É que o povo de Deus, nesta época, quase que instintivamente procura trazer à memória um pouco dos simbolismos daquela que é, sob todos os aspectos, a mais maravilhosa história jamais contada. A história do Deus menino, do Deus que se fez carne e habitou entre nós. Curioso que essa palavra no hebraico é mais significativa do que pode expressar o noso verbo habitar. O texto diz que Deus tabernaculou, montou a sua tenta entre nós. Por conta disso, particularmente o episódio dos anjos e pastores têm lugar garantido como importantes símbolos do Natal.

O povo brasileiro levado de um lado pelo sincretismo religioso e por outro pela sua imensa criatividade, confundiu alguns destes símbolos e criou um rico folclore, com reisados, pastorinhas, bois-bumbás etc. Talvez seja a tentativa mais válida de contrapor à comemoração do Natal típica do hemisfério norte, onde os símbolos são neve nas árvores, pinheiros, nozes, avelãs, coisas próprias das regiões frias. Uma comemoração de Natal completamente imprópria para o nosso calor de 42º. Quem sabe, se não fôssemos tão intransigentes, não comemoraríamos um Natal tipicamente brasileiro, com marcas e símbolos próprios de um país tropical? Mas nós somos colonizados, trazemos dentro de nós uma forte herança do protestantismo americano que impôs os seus próprios símbolos como os símbolos genuínos do Natal. Como por exemplo: Papai Noel, renas puxando trenós, perus de Natal etc. Mas independentemente de qualquer tradição ou região, o Natal, em si, possui sinais próprios. Sinais autênticos, que não foram forjados por nenhuma cultura. Sinais como aquele que foi dado aos pastores, naquela noite fria de Belém: Encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em uma manjedoura. Este é um dos sinais que não devemos somente reviver ou mantê-los vivos em nossa memória, mas devemos, acima de tudo, estimular as nossas crianças, para que elas, por sua vez, tenham também a oportunidade de fazer parte, através das asas dos anjos ou do cajado dos pastores, da memória do Natal, que é todo um universo de marcas, símbolos e lembranças daquela humilde manjedoura. E esta é a oportunidade para meditar sobre alguns desses símbolos autênticos do Natal.

Uma das marcas imutáveis do Natal é o censo. O censo que César Augusto mandou levantar em todo o Império Romano. O imperador queria saber quantos eram os seus súditos, onde e como viviam e o que produziam. Era um dado importante para o governo romano esta estatística. Importante para Roma, é claro, porque o censo não tinha o intuito de promover o povo socialmente. Não visava conhecer as reais necessidades do povo ou como supri-las. O censo tinha o caráter exclusivamente opressor. O imperador queria saber quem eram e onde moravam aqueles que poderiam ser mais explorados, o quanto mais de impostos poderia ser cobrado e de onde o Império Romano poderia extrair e concentrar mais riqueza.

É neste contexto que nasce Jesus. O filho de Deus anunciado pelos profetas, prometido desde a fundação do mundo, mas neste censo ele não é merecedor de qualquer distinção. É contado como qualquer um de nós. Nivelado aos explorados e aos oprimidos. Recebe como identificação um X no papel, apenas um número. Passa a ser mais um descaracterizado a viver naquilo que os pensadores chamam de zoológicos humanos. Esse é o Natal do censo. Um Natal sem rosto e sem identidade. Não é o Natal de alegria e de paz. Não é o Natal do Espírito. É sim um Natal de miséria e opressão. Um Natal de carne e osso e, sobretudo, de muito sangue.

Outra marca perpétua do nosso Natal é a manjedoura. Olhamos as réplicas atuais com admiração, e até com certo sentimento poético. Jesus ali, deitado na manjedoura, cercado pelo boizinho, pelo galinho, pelo porquinho e pelo burrinho. Uma típica cena que retrata a calma e a tranquilidade pastoril. Mas essa ideia de paz harmoniosa nos desvia da mensagem real do manjedoura. Que Jesus ao nascer foi colocado junto aos animais, em um coxo, esse é o nome certo, infectado de cheio de excrementos. Ambiente absurdamente impróprio para um frágil recém-nascido. É na manjedoura que Jesus perde aquele pouco da humanidade que o censo do imperador romano lhe havia conferido e agora passa a não ser mais contado entre os homens e mulheres. Jesus agora é achado entre os animais. Este é o verdadeiro sentido da manjedoura. Esta é mensagem do Natal contida naquela manjedoura. Ali está Jesus, completamente despojado de sua divindade e realeza, despojado até mesmo da sua condição humana. Uma cena radicalmente antagônica à do consumismo que a data passou a representar. É bom que se fale em meio à opulência das comemorações, que na manjedoura Deus não está fazendo um elogio à pobreza. Deus não se faz presente para enaltecer a miséria como virtude. Deus está denunciando em alta voz que, assim como o seu filho unigênito, muitos dos seus filhos estão nascendo e vivendo em condições sub-humanas. Este é o Natal do manjedoura. O Natal que não contempla a harmonia, que não se anuncia pela paz, mas pela total degradação do ser humano desde o seu nascimento.

Outro símbolo do Natal, e talvez este seja o mais trágico, diz respeito ao banho de sangue ocorrido em Belém e em seus arredores que ficou conhecido na história como a matança dos inocentes. O edital de Herodes que promove o assassinato de todas as crianças com menos de dois anos, com o objetivo único de exterminar, ainda no seu berço, o Messias prometido. E agora, Jesus não é nem mais contado. Sua presença, antes ignorada, a partir daquele decreto passa a ser indesejada. Passa a ser caçado como um elemento nocivo à sociedade, como alguém que deve ser eliminado a qualquer preço. Tão nocivo que até mesmo a chacina de inocentes seria justificável. Contra o Príncipe da Paz se levanta todo um exército exterminador. Esta escalada de tragédias, além de fazer com que Jesus e sua família tenham que se refugiar no Egito, torna-o, como dizia o rev. Jonas Rezende, o exilado político mais novo da história.

Somente os mais inspirados profetas puderam antever cena tão absurda. Que lembranças os habitantes de Belém, principalmente aqueles que perderam seus amados filhinhos, passaram a ter do primeiro Natal? A divina música do coro de anjos foi abafada pelos gritos de horror e de dor. Um Natal sem esperança. Mas, infelizmente, este é um poderoso símbolo do nosso Natal.

As aflições de Maria também marcam de maneira muito forte o nosso Natal. Aquela jovem mulher que por ser justa e por achar graça diante de Deus, teve a sua vida virada de cabeça para baixo. Uma gravidez não programada ou mesmo desejada, o repúdio inicial de José, seu futuro marido, o parto longe de casa e sem qualquer condição de higiene, as ameaças que pairavam sobre o seu filho, são motivos mais do que suficientes para tornar o seu Natal bastante diferente do que é comemorado hoje. Mas faça-se em mim a vontade do Senhor. Tenho para mim que mais do que uma profissão de fé este é um grito desesperado de quem não encontra mais nenhum sentido nas coisas e sem esperança se entrega incondicionalmente nas mãos de Deus. O Natal de Maria sinaliza a renúncia e não a troca. Sinaliza a irrestrita doação de si mesma contradizendo as garantias e tomada de posse das bênçãos tão propagadas em nosso meio. No Natal de Maria, Deus desce ao mais profundo abismo da miséria humana e de lá faz a sua opção preferencial.

O Natal na visão de São Francisco de Assis é um símbolo que vai muito além do nosso Ecumenismo e faz do Natal o símbolo máximo da confraternização universal e do diálogo inter-religioso. No presépio de Francisco de Assis podemos detectar na mesma cena: anjos e homens; homens e animais; judeus e magos do Zoroastrismo, ricos e pobres, pastores e reis; céus e terra. A mistura de tudo aquilo que se conhece e até mesmo do que se imagina. O que poderíamos chamar de ecumenismo total e irrestrito. Todos a uma voz cantando “Glória a Deus nas alturas”. Mas até mesmo os símbolos positivos nós conseguimos esculhanbar. Se algum desavisado contemplasse tal cena afirmaria: O Reino de Deus está implantado definitivamente. Mas bastaria esta pessoa desviar um pouco o olhar para os nossos dias, e veria que no mesmo lugar onde os anjos cantavam o Gloria in Excelcio anunciando paz na Terra, hoje se trava uma guerra absurda, isto é um tremendo tapa na boca dos anjos do coro celestial.

Mas não nos iludamos que este símbolo ficou gravado apena nas barbáries da antiguidade ou na história de nossos ancestrais. Não nos enganemos, posto que aqui no Brasil as coisas sejam diferentes. Autênticas guerras são travadas diariamente em nossas cidades, mesmos nas mais interioranas. O índice de mortalidade infantil em nosso país é de fazer Herodes se sentir humilhado por promover uma chacinazinha tão restrita. Nossas crianças não são mais colocadas em estábulos, mas sim abandonadas em depósitos de lixo. Alguma coisa está muito errada: ou os anjos não cantaram a música certa ou nós não somos homens e mulheres de boa vontade, porque a paz na Terra não existiu um único dia sequer ao longo destes milhares de anos de história.

Queria acrescentar ainda mais um símbolo, aquele que ficou definitivamente esquecido por todos os cristãos, independentemente de sua cultura ou do seu local de nascimento. Um símbolo que foi por nós designado a ser apenas mais um adorno em uma árvore que sequer é símbolo próprio do Natal, mas o que é a força de um misticismo? Torna uma árvore mais evidente e mais relevante do que o símbolo que o próprio Deus usou para mostrar aos povos distantes que chegara a hora e onde seria local do nascimento do seu Filho: a estrela de Belém.

Enganam-se aqueles que pensam que significado da estrela de Belém seria um simples guia para os magos que foram inadvertidamente atrás dela. Sua presença no céu significava o fim da magia, o fim do poder mágico sobre a humanidade. Para entender esse poder mágico precisamos conhecer as religiões que dominavam o mundo naquela época. Pois todas elas lançavam uma mortalha de fatalismo sobre a vida humana. Elas diziam que tudo estava previsto e que ao ser humano restava apenas cumprir a sina para a qual estava fadado. A crença dominante rezava que o destino de todas as pessoas era escrito nas estrelas na hora do seu nascimento. Bom, isso não mudou tanto, porque ainda existem hoje católicos e protestantes que não saem de casa sem consultar os astros.

Foi num mundo assim que a estrela de Belém brilhou. Ela não estava lá por acaso. Ela não era uma estrela qualquer que cumpria a sua trajetória no universo. Ela estava lá para fazer o que o Deus Eterno lhe mandou fazer. Estava lá guiada pela inteligência divina. Justamente aquilo que representava o símbolo máximo da dependência humana é convocado por Deus para revelar ao mundo e principalmente aos que conheciam bem o movimento previsível das estrelas, que existe um Deus que governa todas elas, que as enumera e as chama pelo nome, que pode fazer com que elas executem a sua vontade, mudando radicalmente todo o entendimento que os magos, astrólogos e observadores dos céus acumularam até então.

Como consequência disso, nós fomos libertados dessa sina fatalista pela ação do nosso Deus. Foi ele quem nos libertou. Nessa liberdade ele tem nos lembrado que, uma vez livres do destino, somos guiados à responsabilidade. Agora somos chamados a ir aonde não queremos ir. A amar quem não queremos amar. A servir a quem não queremos servir. Alguém imagina que Maria e José empreenderam a penosa viagem de Nazaré a Belém por vontade própria? Acham que ela supôs que daria à luz numa estrebaria? Alguém imagina que os magos viajaram tanto para adorar um rei que não nasceria num palácio? Esta é a lição mais difícil do Natal: a estrela vai nos guiar por caminhos que não queremos trilhar. A estrela brilha para nos mostrar a realidade deste mundo e para mostrar que o nosso caminho é outro, muito diferente do que aquele que gostaríamos que fosse. A mensagem da estrela nos diz que somos livres, está certo, mas que esta liberdade tem o preço e o tamanho da nossa responsabilidade.

Talvez seja a hora de perguntar: O Natal e realmente uma coisa boa de se comemorar? Devemos continuar inculcando em nossas crianças a sua lembrança? O Natal é ou não é uma festa alegre? É claro que é. Apesar de tudo que foi dito, apesar de sentirmos na pele, em maior ou menor intensidade, estas tragédias, a despeito de toda a maldade que tem imperado ao longo da nossa história, o Natal é a nossa maior garantia de que é Deus, e não as tragédias, que tem a última palavra. O Natal é certeza de todas essas mazelas, por pior que possam nos parecer, podem e devem ser evitadas. O Natal é a firme convicção de que o Deus que se encarnou em Belém, continua vivo, presente e atuante em nosso meio. O Natal é uma garantia sólida, não baseada em hipóteses ou promessas vazias, pois quem nos garante é mesmo Jesus que sofreu todas as aflições e angústias que se transcorreram durante o primeiro Natal. E em meio a toda essa apreensão ele nos desafia dizendo: Se o mundo vos aborrece, sabei que antes do que a vós aborreceu a mim primeiro... mas tende bom ânimo. Eu venci o mundo.

Todas aquelas aflições não detiveram o Salvador do Mundo, apenas serviram para tornar a sua vitória ainda mais incontestável. Mas nós sabemos que o mal, embora vencido, ainda respira. E que a vitória de Cristo sobre esse mal se dá a cada dia, com o seu nascimento em nossas vidas. Devemos comemorar o Natal não somente com os seus símbolos próprios ou com aqueles que acrescentamos, ou ainda em uma determinada data do calendário litúrgico. Devemos comemorar o Natal sempre e de todas as formas. Celebrar sem cessar a vitória de Jesus sobre as forças do mal no mundo, como também sobre o mal que habita no mais profundo recanto do nosso coração, porque cada dia que nos esquecemos de comemorar esta vitória é mais um dia que o mal triunfa. E se insistirmos no esquecimento, é possível que venhamos a sucumbir na profecia secular do místico Angelus Silesius, monge católico convertido do luteranismo:

Nasça Jesus mil vezes em Belém
E não em teu coração.
Estás perdido para o além.
Nasceste em vão.

Os 3 pródigos

11.8.19
A volta do filho pródigo de Rembrandt

Adaptação do sermão do Rev. Garrison com o mesmo nome.

Estamos celebrando o Dia dos Pais, uma data que apesar de não ter o mesmo apelo do que o Dia das Mães provoca intenso movimento no comércio, no ensino pré-escolar, nas igrejas evangélicas e nas famílias tradicionais. Nessas últimas acontecem verdadeiros banquetes com a família reunida em alegre celebração. Jesus para traduzir a experiência da plenitude do Reino de Deus o fez comparando-o a um banquete com magnitude infinitamente maior.  O que ficou conhecido como banquete messiânico. O que significa participar desse banquete senão conhecer a graça de Deus e se deixar envolver por ela? Significa viver constantemente na presença do Pai eterno.

Nos evangelhos não existe nada mais apropriado para nos inteirarmos dessa realidade do que a parábola dos três pródigos relatada em Lucas 15. Por que três e não um, que é a parábola do filho rebelde? Pela própria definição da palavra pródigo, que quer dizer esbanjamento, e dela podemos extrair três exemplos de esbanjamento.

A primeira, representada pelo filho mais moço, que desperdiçou a sua herança em uma vida dissoluta. O esbanjamento de tempo, de recursos financeiros e de energia caracteriza uma vida pródiga em gastar. Uma dissipação de uso.

A segunda, protagonizada pelo filho mais velho, que havia ficado em casa, sinaliza o esbanjamento do desuso. Se existe o pródigo em gastar tudo, existe também o pródigo em reter tudo. Existe nele toda a vontade latente de ir para a terra distante, como fez seu irmão, mas a sua vontade de ajuntar para si foi maior.

A terceira definição de pródigo, aqui representada pelo pai, caracteriza o esbanjamento da generosidade. Aquele que está pronto a oferecer tudo, inclusive a si mesmo, sem esperar nada em troca.

Jesus quis dizer que seu Pai é como aquele pai da parábola, correndo para encontrar com os seus filhos perdidos em suas prodigalidades nefastas. Esse perfil de Deus contraria radicalmente o pensamento do Primeiro Testamento, onde é o homem que corre desesperadamente atrás de Deus. Essa é a revolução que Jesus Cristo veio anunciar. Deus não está no céu, longe e para além dos esforços humanos. Deus está à espreita para receber de volta qualquer filho que manifeste o desejo de voltar para a casa paterna.

Deus está correndo atrás de cada um de nós, cujas vidas têm sido dissipadas em usos e desusos, em desperdício e usura, em rebeldia e em obediência interesseira. Mas Jesus nos lembra também que Deus quer abraçar pessoas pelos braços daqueles que já foram e que se sentem abraçados.

Deus está dizendo para os filhos pródigos: venham para o meu banquete. A mesa está posta. Venham celebrar com alegria e sem constrangimento esse dia, que é o dia do abraço do pai que é prodigo em amar e aceitar sem restrições ou condicionamentos todos aqueles que simplesmente anseiam voltar para casa.

Um sumário de condenações

O cerco de Jerusalém por Nabucodonosor, pintor belga do XVI século
É bem certo que a Bíblia nos apresenta alguns textos que falam sobre condenação sumária. Fala em pecado imperdoável, em lançar fora onde há choro e ranger de dentes. Porém, todo o Segundo Testamento confirma que a pré-disposição de Deus em perdoar e abençoar é sempre maior. Em um dos textos em que a condenação extrema é mais evidente diz que Deus visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração dos que o aborrecem. Não são palavras aleatórias, mas estão contidas nos Mandamentos. Contudo, temos que considerar também a mensagem profética que coloca termos nesse Mandamento. Ezequiel assim profetizou: Aquele que peca é que morre. O filho não sofrerá por causa dos pecados do pai, nem o pai, por causa dos pecados do filho. A pessoa boa será recompensada por fazer o bem, e a pessoa má sofrerá pelo mal que praticar. Sobre a condenação sumária o profeta foi mais objetivo ainda: Por que será que na terra de Israel o povo vive repetindo o ditado que diz: “Os pais comeram uvas verdes, mas foram os dentes dos filhos que ficaram ásperos”? Juro pela minha vida — diz o Senhor Deus — que vocês nunca mais repetirão esse ditado em Israel. Pois a vida de todas as pessoas pertence a mim. Tanto a vida do pai quanto a vida do filho são minhas. A pessoa que pecar é que morrerá.
Houve um apóstolo que dizia que Jesus veio para salvar os pecadores dos quais ele era o maior. Este homem foi um homicida frio e um implacável perseguidor da igreja, ou seja, não podia haver alguém mais talhado para sofrer eternamente no inferno do que ele. Porém, Deus na sua infinita misericórdia aprouve resgatá-lo para si superando a barreira do seu enorme pecado.
Para os que ainda não ficaram convencidos, existe um princípio na ciência chamado a Navalha de Occan que diz o seguinte: Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a mais correta. Seria possível que qualquer postulado já escrito sobre a doutrina da condenação sumária se arvore a ter explicação mais simples do que esta: Onde aumentou o pecado, a graça de Deus aumentou muito mais ainda? (Rm 5.20)

O caos sob controle

Nos rios da Babilônia por Gebhard Fugel
Existe uma narrativa onde a nossa fé na inspiração divina na Bíblia é testada. O salmo cento e trinta e sete, no verso um, pergunta: Como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha? Este primeiro verso é apenas o início de uma sequência de juras de amor e maldições que incitam o ódio e a vingança como única postura diante da situação a qual o salmista e seu povo se viam forçados a viver. Em uma das linhas, mais precisamente no verso nove, o salmista chega a dizer: Bendito é aquele que pegar a cabeça das tuas criancinhas e esmagá-las com pedras. O que começou com um simples pedido de uma canção, resultou na mais bárbara expressão de ressentimento e ódio de toda a Bíblia.
Por mais que estas palavras nos incomodem, e por mais que a mensagem central do Cristianismo as desaprove, somos forçados a concluir que em certas situações realmente fica quase impossível cantar o cântico do Senhor. Como cantar as maravilhas de Deus em meio à mortalidade e o abandono de crianças que não morrem esmagadas por pedras porque a fome dá cabo delas? Como exaltar a soberania de Deus com músicas que enaltecem a criação, quando nós mesmos nos incumbimos de condicioná-la à nossa vontade? Como cantar o cântico do Senhor numa terra tão estranha?
Em vez de me perguntar como posso cantar que os céus proclamam a glória de Deus nesta terra tão indiferente ao seu amor? Passo a perguntar qual é a razão da primavera florida para um mundo que caminha a passos largos para a degradação ambiental? Por que será que nos lugares mais inóspitos, como os lixões, onde não vemos qualquer possibilidade da regeneração da natureza, Deus faz brotar uma flor? É complicado entender como, por mais crueldade que se instale no mundo, Deus continua a nos enviar crianças. Por que será que ele ainda insiste em investir nós, em mandar as suas joias mais preciosas, as criaturas que lhe são mais caras, a este mundo no qual nós mesmos não depositamos qualquer confiança. Mas o desabafo do salmista ainda reflete a sua confiança. Mesmo que sinta na pele a mesma dor do afligido ele crê fielmente que nenhum mal, por maior que seja, tem em si o controle deste ou de qualquer outro universo. Só que ama é capaz de entender nas entrelinhas que o reino deste mundo já passou a ser de nosso Senhor e de seu Cristo, e ele reinará para sempre.

Leitura: Salmo 137

A declaração dos céus

Pescador, foto de Saravut Whanset

O salmo dezenove afirma com indubitável vocação poética que a universalidade da ação de Deus e o seu cuidado para com a criação podem ser percebidos apenas pela simples observação do universo. O poeta brasileiro Olavo Bilac, em minha opinião, inspirado pelo salmista, consegue acrescentar ainda mais poesia à beleza do Salmo quando diz que o dom de reconhecer Deus na criação é dado preferencialmente às pessoas que tem capacidade de amar: Pois só quem ama tem ouvidos capaz de ouvir e de entender estrelas. 

Contrapondo-se ao salmo existe uma corrente de pensamento na igreja que se orienta por um desabafo do apóstolo João, quando este vê a si e a sua igreja sendo perseguida e morta pelas forças imperiais romanas. Diante de tamanha mazela João expressa mais o seu sentimento repentino do que propriamente uma declaração de fé: O mundo jaz no maligno.

Em face do exposto, ficam no ar as perguntas: Então onde está firmada a nossa fé: Na teologia que diz que Deus criou o mundo em seis dias e depois descansou? Onde ele organizou o universo, deu bastante corda, ou falando modernamente, colocou uma bateria inesgotável e o abandonou à própria sorte? No tempo que Deus permite que o mal se supere e venha a tomar as suas rédeas da sua criação? Como são tão diversas as respostas a esta pergunta, quem sabe devêssemos reunir um concílio mundial de igrejas cristãs para termos consenso pelo menos no que diz respeito a esta questão. Precisamos decidir urgentemente quem é o chefe. No final das contas, de quem é a mão que segura o controle do universo neste exato momento?

Leitura: Salmo 19.

Elementos da ressurreição

A ressurreição do filho da viúva de Naim por Pierre Bouillon

Todas as narrativas de ressurreições na Bíblia têm pelo menos dois elementos comuns: compaixão e solidariedade. Quando encontra a viúva de Naim que perdera o filho Jesus se move de íntima compaixão e diz para ela: não chore. Ao passo que quando recebe a notícia da morte de seu amigo Lázaro é o próprio Jesus quem chora. Essa é a verdadeira compaixão, a paixão de que sofre junto.

Mas é na solidariedade que as narrativas encontram o seu senso comum. Uma cidade inconformada pela morte de Dorcas; a vizinhança aflita pela morte da filha de Jairo; uma família dilacerada pela dor da perda do seu irmão que era como um pai; um povo inteiro manifestando o seu pesar pela morte de um rapaz que era o arrimo da família.

Podemos perceber nestas passagens que a solidariedade está não somente presente, mas consolidando decisivamente o milagre da ressurreição. É na solidariedade das pessoas que a ressurreição encontra o terreno fértil que necessita para se fazer realidade. Uma das cenas mais chocantes dos últimos tempos para mim foi o sepultamento do assassino das crianças de Realengo. As fotos nos jornais mostravam um caixão abandonado no meio do pátio vazio do cemitério. Um enterro que os amigos não estiveram presentes, que não foi lamentado, não foi pranteado e que não contou com a solidariedade de ninguém. O típico exemplo de morte sem qualquer possibilidade de ressurreição. Pelo menos do tipo de ressurreição da qual estamos falando.

Não é à toa que os textos que falam da ressurreição de pessoas são os de maior apelo na Bíblia. Neles que descobrimos o quanto a vida é de fato preciosa. Uma das marcas mais expressivas da plenitude do Reino de Deus é justamente a morte da própria morte. A única morte que ansiosamente devemos esperar. Enquanto esta não acontece e enquanto não pudermos fazer absolutamente nada para evitá-la é nosso dever minimizar os seus efeitos. Ainda que não consigamos realizá-la de forma concreta estamos obrigados a promover os símbolos da ressurreição através dos gestos de compaixão e de solidariedade. Assim fazendo estaremos trazendo para o mundo real uma das mais estranhas promessas que fez Jesus Cristo: Em verdade, em verdade vos digo: se alguém guardar a minha palavra, não provará a morte, eternamente.

Quem deve viver e quem deve morrer?

Ressurreição de Dorcas por Guercino

O que entendemos ser a volta de um morto à vida? Além do texto de Atos 9 que descreve a ressurreição de Dorcas o Segundo Testamento traz mais três narrativas sobre o mesmo assunto: A ressurreição da filha de Jairo, a do filho da viúva de Naim, e a mais conhecida das quatro, a ressurreição de Lázaro. A minha mente científica não consegue alcançar os detalhes desses milagres em si, e há muito já desisti de tentar entender o processo. Mas o que ainda me incomoda é a situação daquele que volta à vida. Como alguém que transpôs a barreira da morte se sente ao estar de volta entre os vivos? Como as pessoas à sua volta lidam com isso? Como seria para ele encarar a sua segunda morte, uma vez que todas estas pessoas, logicamente, voltaram a morrer?
Mesmo que não entendamos, que lições podemos tirar de cada um destes textos? Uma delas Deus valoriza a vida em cada um dos seus estágios. Ao contrário de nós, que nos indignamos mais com a morte de uma criança do que de uma pessoa de idade, na Bíblia, a ressurreição se dá em qualquer idade. Vemos a ressurreição de uma criança, como é o caso da filha de Jairo, do jovem filho da viúva de Naim, de Dorcas, uma mulher de meia idade, e de um homem de idade avançada, Lázaro. Isso mostra o quanto para Deus toda a duração da vida é importante e o quanto cada uma de suas fases deve ser valorizada. Uma infância feliz que leve à boa capacitação na juventude, que por sua vez forme um adulto ativo e produtivo, tudo isso para coroar aquilo que Jesus chamou de vida abundante. Uma vida plena em dias e realizações. Diante de tão grandes evidências não há porque imaginarmos que a ressurreição da menina Talita tenha sido de maior valor que a de Lázaro, já idoso. A verdade é que, como todo pai e toda mãe, para Deus não passamos de um grande bando de crianças, pelas quais possui uma paixão tão grande que beira os limites da loucura.

Leitura: Atos dos Apóstolos 9.36-42

Circunstâncias e evidências

Moisés e os magos do Egito por Robert Leinweber
Ainda que intransigente, a vontade de Deus vai ao encontro da vontade do homem, não de modo a querer suplantá-la, mas para torná-la perfeita. Em pelo menos duas circunstâncias podemos percebê-la.
No curso da História, através de situações inexplicáveis até hoje.
Como de um único homem nascido no mais ferrenho politeísmo deu-se início a mais fantástica experiência de libertação vivida por um povo inteiro?
Como os escravos hebreus saíram caminhando livres do Egito, a maior potência mundial da época, sem qualquer resistência?
Como é que a fé em um judeu nascido em um obscuro recanto da Galileia propagou a maior revolução de todos os tempos?
Como homens e mulheres escondidos em fétidas catacumbas fizeram ruir o poderoso império acima deles?
Poderíamos ficar perguntando indefinidamente os como e os porquês, mas o fundamento seria um só: nenhum dos desígnios de Deus pode ser frustrado.
A segunda circunstância é a reflexão inspirada.
A aceitação submissa da vontade de Deus não exige a anulação do intelecto, mas uma fé inquestionável na sua justiça. Sabemos que nenhuma mente humana pode compreender por inteiro esta vontade, daí a necessidade da inspiração divina. Curiosamente a primeira coisa que a mente inspirada percebe é a grande distância entre a sabedoria humana e a divina. Em suma: A inteligência do homem não é suficiente para entender a vontade de Deus, mas a inspiração divina lhe abre os olhos para este desafio. Para Wesley, agir conforme a mente de Cristo era ter uma palavra apropriada ao momento, e não a repetição de cansativos chavões. Não deixar-se levar pela opinião pública nem pelas evidências. Para esse elemento em especial, Paulo tem o fundamento definitivo: Tenham cuidado para que ninguém os torne escravos por meio de argumentos sem valor, que vêm da sabedoria humana. Essas coisas vêm dos ensinamentos de criaturas humanas e dos espíritos que dominam o Universo e não de Cristo. Pois em Cristo, como ser humano, está presente toda a natureza de Deus. Colossenses 2.8-9


Que o mundo seja salvo

Paulo e Timóteo, autor não identificado
A diversificação denominacional do cristianismo faz com que a vontade de Deus se apresente de várias formas e ênfases. Uma coisa, porém, nenhum conceito sobre essa doutrina pode alterar: a vontade de Deus coincide com o seu plano. E foi analisando a mensagem dos profetas, a vida e o ministério de Jesus que Paulo chegou a essa conclusão: Deus realmente não quer que nenhum dos seus filhos se perca. Tudo o que Deus fez desde a criação está coordenado por um plano, mas não por meio de tentativas, erros e acertos. Einstein dizia: Deus não joga dados. Isso quer dizer que Deus não arriscou a sorte em alguns patriarcas, não apostou em reis e nem levou fé na capacidade de alguns profetas com o intuito de nos salvar de qualquer forma. Indistintamente todos os enviados faziam parte de um plano que culminou com o envio de seu Filho ao mundo.
Eu sei que Deus quer que todas as pessoas sejam salvas, mas onde me encaixo nesse plano? Além dos mandamentos temos uma Bíblia inteira a nos falar qual é a vontade de Deus para o indivíduo nas diversas situações que se apresentam. Mas Deus também quer que, sem negarmos esse ensino, nos empenhemos para conhecer a sua vontade em situações inusitadas, que não somente exige respostas constantes, como também abre um diálogo permanente. Paulo dizia que embora tivesse conseguido algum progresso em favor desta vontade, ainda estava longe do que deveria alcançar, deixando claro que o alvo é sempre a superação de si mesmo: É claro, irmãos, que eu não penso que já consegui isso. Porém uma coisa eu faço: esqueço aquilo que fica para trás e avanço para o que está na minha frente. Corro direto para a linha de chegada a fim de conseguir o prêmio da vitória. Esse prêmio é a nova vida para a qual Deus me chamou por meio de Cristo Jesus. Fp 3.13-14

Leitura:  I Timóteo 2 

A vitória da cruz

A descida da cruz, Rembrandt
O quarto e último cântico do servo sofredor de Isaías começa com versos bem otimistas, levando-se em consideração, é claro, os três anteriores. Ele canta antecipadamente uma vitória, enaltece o trabalho do servo e até antevê que a vitória final do servo será reconhecida por todos. 
Este cântico consegue antecipar que estes acontecimentos chegariam a tocar a sublimidade. No entanto, parece que são somente olhos que estão abertos para Deus, como estavam os de Isaías, podiam enxergar a vitória do servo dessa maneira. Para todos os demais, a sua aparência era tão desfigurada que ele nem parecia um ser humano. Era uma aberração tão grande que assustava a muitos. E aqui se estabeleceu um contraste entre o que Isaías sentia, os que foram tomados pela comoção pelo estado do servo e os que sentiram repulsa diante de tal visão.
A pior impressão que se pode ter do servo é a condolência. O sentimento de pessoas que se dispõem a sofrer no lugar de Jesus. Pessoas que através de flagelos e sacrifícios empenham-se inutilmente em amenizar a dor da paixão de Cristo. Este é um sentimento a nutrir um sentimento de ódio por Deus Pai, pelo fato de permitir que seu Filho passasse por todas essas agruras.
Para aqueles que imaginam que Deus o abandonou na cruz, porque naquela hora Jesus trazia sobre si os pecados do mundo, e Deus não pode relação com o pecado, Paulo responde: a saber, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados, e pôs em nós a palavra da reconciliação.
O segundo menos pior sentimento é o asco pelo acontecido, mesmo seja através da indiferença. Pessoas que acham que a vida e obra do servo não passaram de um completo absurdo. Não é de agora que a religião tenta calçar a via crucis de romantismo e poesia. São muitos os que ainda pensam que Jesus, por ser Deus, nada sofreu com as humilhações, os açoites e com a crucificação, e que tudo não passou da mais perfeita encenação da paixão realizada até hoje. Se por um lado a compaixão pelo sacrifício de Cristo nos induz a atos de fé sem propósito, subestimá-lo nos leva à omissão.
Mas ainda nos resta o sentimento apropriado, daquele que se rejubila com radicalidade do amor de Deus quando sofre junto com seu Filho a dor do Calvário. A manifestação de alegria daquele que tem orgulho do sangue derramado, e que faz dele a razão da sua vida. Ainda existem aqueles que honesta e sinceramente cantam: Mas eu amo essa cruz, porque nela Jesus deu a vida por mim pecador.

Leitura Isaías 52.13-16.

Bacon com ovos

Descida da cruz, Rembrandt
O servo sofredor de Deus, na concepção de Isaías, não é um diplomata estrategista, nem mesmo um bem letrado guardião da fé de Israel. Mas alguém que se apresenta com dons bastante interessantes: um discurso culto, mas que o necessitado ignorante consegue entender; um ouvido apurado e atento, sensível ao clamor do aflito, inclusive das pessoas mais eruditas. Ingredientes de uma mente rebelde e inconformada. Mas fez uso dos dons para fins pacíficos, abrindo mão do inconformismo beligerante.Talvez seja esse o principal elemento na diferença entre a participação e o comprometimento.
O meu falecido amigo João Wesley, mais do que pós doutorado em marketing, se valia da mesma história para explicar quais são as implicações do compromisso e da participação. Ele dava como exemplo o sanduiche de bacon com ovos, no qual a contribuição dois animais se faz necessária. A galinha que colabora dando os ovos, e o porco que contribui com o bacon. Dizia ele: um apenas participa, mas o outro está inteiramente comprometido. Lembro-me bem da cara de bobo que fiquei por não ter entendido esta comparação quando a ouvi pela primeira vez. Foi quando ele disse: A galinha faz a sua necessária doação e depois volta feliz para casa. Isto é participação. Mas o porco não, ele precisa dar a própria vida. Isso é comprometimento.
Se Jesus viesse ao mundo participar do plano de Deus para a salvação do homem, libertando-o de todas as coisas que o escravizam, ele teria tido uma participação jamais emparelhada. Ninguém antes dele levou este projeto tão longe com tanta perfeição de detalhes. Ninguém depois dele foi tão incansável na construção das bases deste Reino. Ninguém, nem antes e nem depois dele foi tão habilidoso em expor os mistérios de Deus, e adequá-los ao limitado entendimento humano. Quando olhamos novamente o cântico do servo sofredor de Isaías, não podemos enxergar alguém mais perfeito para desempenhar a função que a figura do homem Jesus Cristo. Mas o desempenho de Jesus ficou tão acima da conta, que olhando mais uma vez o cântico, verificamos que nem mesmo Isaías penetrou tão fundo na sua concepção sobre esse servo de Deus. Contudo, Jesus veio ao mundo para participar e sim para se comprometer, não para morrer, como muitos dizem. Morrer por uma causa é extremismo terrorista. Ele veio sim, para assumir o seu compromisso até as últimas consequências, mesmo que elas o levassem à morte.
Diferentemente do livramento proposto por Isaías, Deus permitiu que o mal fizesse o seu melhor, que chegasse ao seu limiar crítico, que exaurisse todas as suas forças ao flagelar o servo. Se para a participação de Jesus na salvação nos faltam palavras, para o seu comprometimento nos resta apenas tentar de alguma forma ser gratos. Não há mais nada a ser feito. Tudo está consumado.

Leitura Isaías 50,4-9


A vitória do sofrimento

Cristo torturado (www.myloveisrael.com)
No primeiro dos quatro cânticos dedicados ao servo sofredor de Deus, Isaías faz uma apresentação muito sucinta do que realmente vem a ser este servo e do seu propósito. Mas uma coisa fica clara de antemão: Isaías não está falando de um servo qualquer, do tipo de pessoa que conhecemos bem. Aquele tipo que arroga para si uma postura piedosa, no mau sentido da palavra, e se anuncia como sendo apenas um humilde servo ou serva do Senhor.
Ele também não é apresentado como alguém que recebeu de Deus um chamado para ser seu profeta. Todos os profetas negaram o seu chamado, rebelaram-se contra Deus, acharam-se inadequados para a missão e tentaram esquivar-se de todas as formas, apresentando todas as justificativas cabíveis e imagináveis. Mesmo aqueles que a princípio, de forma corajosa, se apresentaram solícitos, como fez o próprio Isaías através do seu conhecido chavão: eis-me aqui, envia-me a mim, ao se inteirarem do peso e das consequências da missão, recuaram imediatamente: até quando Senhor.
A questão básica que não devemos omitir o fato de que os capítulos de 40 a 55 do livro que leva o nome do profeta Isaías foi escrito pelo que é conhecido pelos estudiosos como o dêutero Isaías ou segundo Isaías. Aquele que prega para uma nação dividida, oprimida e sem quaisquer perspectivas de liberdade dos calabouços do exílio babilônico. Povo para o qual a mínima esperança de intervenção de um Messias salvador se fazia urgente. O povo judeu todoque fazia para si repetidamente a mesma pergunta: Porque nós, que somos povo de Deus, chamados por ele, que clamamos pelo seu Nome, estamos sofrendo todas essas aflições? Aqueles que eram a terceira geração de exilados, que nunca tiveram qualquer participação ativa nas iniquidades e injustiças que seus pais e avós cometeram, estavam questionando o amor de Deus, e a aliança prometida por ele.
Quem conheceu a intervenção de Deus na escravidão egípcia não poderia se surpreender caso este servo não fosse mais do que Moisés: um velho gago e foragido. Muito embora ultrajado, o servo teria persistência para resistir aos opositores: Aqui está o meu servo, a quem eu fortaleço, o meu escolhido, que dá muita alegria ao meu coração. Pus nele o meu Espírito, e ele anunciará a minha vontade a todos os povos. Não gritará, não clamará, não fará discursos nas ruas. Não esmagará um galho que está quebrado, nem apagará a luz que já está fraca. Com toda a dedicação, ele anunciará a minha vontade. Não se cansará, nem desanimará, mas continuará firme até que todos aceitem a minha vontade. As nações distantes estão esperando para receber os seus ensinamentos (Is 42.1-4).
Não consigo distinguir nessas palavras qualquer referência a um credo específico, nem qualquer ênfase sobre uma denominação, muito menos que o seu foco esteja sobre qualquer religião. Onde muitos viam, e ainda veem o demônio do ecumenismo, Francisco de Assis via a bênção do diálogo interreligioso. O servo sofredor de Deus não pergunta qual era a religião dos magos, não distingue os pastores pela sua condição social, não averigua o status celestial dos anjos. Aquele que em torno de si há de reunir todas as religiões, todas as classe sociais, todos os títulos religiosos, homens e anjos, reis e pastores, pessoas e animais, céus e terra.

Leitura Is 42.1-9

Aquele que abençoa

Abraão nos Portais do Céu, escultura de Lorenzo Ghiberti
Se os cristãos de passado tivessem adotado o costume de agregar ao nome de Deus adjetivos, deveriam chamá-lo de o Deus da Bênção. Aquele que faz nascer o sol sobre bons e maus e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Alguns segmentos atuais, porém, lhe negariam por meio de atitudes este reconhecimento. Aqueles que querem monopolizar a bênção de Deus, fazendo dela uma conquista pessoal, algo que pode ser obtido através de fórmulas mágicas, de expressões recitadas entre dentes e de rituais e sacrifícios estranhos. Contudo, temos que reconhecer que alguns outros cristãos não compactuam com eles. Aqueles que não aceitam no seu linguajar de evangélico expressões do tipo, correr atrás da ou tomar posse da bênção. Aqueles que não entendem a bênção como prêmio que se pode conseguir pelos próprios esforços. Aqueles que creem, pela Bíblia, que a bênção não está na área de ter, mas na área do ser. Pelo menos foi assim quando Deus instituiu a bênção. Ele não chamou Abraão para ter uma bênção, não chamou para possuir uma bênção, não chamou para tomar posse de uma bênção, não entrou com ele em uma disputa, de modo que o patriarca conquistasse desse modo a sua bênção. Deus simplesmente chamou Abraão para ser uma bênção. E por meio de você eu abençoarei todos os povos do mundo (Gn 12.3).


Leitura: Genesis 12.

Um tempo depois de outro tempo

Cidades e templos, La Herrmandad Blanca
Quando a Bíblia fala da eternidade das promessas de Deus e da transitoriedade do ser humano dá a impressão de que está falando de dois conceitos de tempo diferentes. E aqui se fundamenta uma pergunta: Será que os conceitos de tempo que encontramos na Bíblia são válidos para hoje? Essa dúvida começa no Gênesis, quando o escritor atribui à criação a um dia específico: No dia em que o Senhor fez o céu e a terra (Gn 2.4). Mas logo em seguida ele faz com que entendamos que esse dia não é um dia do nosso calendário, e que é anterior ao calendário: ainda não havia árvores nem relva, porque o Javé não havia feito chover (Gn 2.5). Os seus colegas escritores, mais tardios, resolveram que fixar o tempo de Deus na história era importante, então passaram a ser precisos em suas narrativas. Para eles era importante que Israel vivera no Egito por 430 anos e que após exatos 3 meses de sua saída chegou ao Sinai. Somente a partir do deuteronomista é que encontramos a noção de passado e futuro na palavra hebraica hajjon. Mas é com Jesus que o tempo tem a sua importância determinada. Ele derruba uma das maiores instituições judaicas, que era a guarda o sábado, com um meia dúzia de palavras: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa da sábado (Mc 2.27). Pelo menos dois conceitos de eternidade podemos tirar de seu ensino. 1 - O conceito de eternidade que se expressa no amor que não teve um começo, meio e também não terá fim: tendo-os amado, amou-os até o fim (Jo 13.1). 2 – O conceito de amor incondicional, tendo-os amado, amou-os até até as últimas consequências. Então, uma vez que Deus guardou para o seu exclusivo conhecimento a dimensão quantidade do tempo, cabe a nós unicamente o desafio de cuidarmos da dimensão qualidade do tempo que ele nos concede.

Leitura: Genesis 4.

O melhor de si

Deus nos amou, www.daum,net
Ainda sobre o versículo João 3.16 teríamos que falar da sua contextualização, principalmente no que diz respeito a palavra filho. Logicamente que a citação se dirige a um filho em especial, ao que na cultura semítica seria o primogênito homem. Não se trata de um filho, mas sim de o filho, o sucessor, aquele que perpetuaria o nome da família, e por meio de quem, segundo pensamento da época, o pai se eternizaria. Por mais romântico que isso possa parecer, não reflete na nossa cultura o sentido exato do que João estava tentando transmitir. Pela própria Bíblia entendemos que o Cristo não nasceu em um dia específico, mas que ele é a encarnação de um ser que “estava no princípio com Deus e que todas as coisas foram feitas por intermédio dele”. Ou seja, que “ele era Deus”. Para o pensamento moderno, o termo filho não teria como ter estas características. Mas o termo “self”, criado por Jung para explicar o terceiro estado da consciência, sim. Para Jung o self é aquilo que há de melhor na pessoa, e o que o faz realizar as coisas mais excelentes. Coisas que por iniciativa própria não seriam capazes de fazer. Então, se este mesmo texto fosse escrito por Jung, ele ficaria assim: porque Deus amor tanto o mundo que deu o seu self, para que todo aquele que nele crê não pereça. Não pereça para que não aumente mais a dor de Deus. Na realidade, para João, Deus não designou alguém para sofrer em nosso lugar. Nada disso, entregou-se voluntariamente o melhor de si mesmo, tamanha era a sua dor pelas circunstâncias em que vivia o ser humano.

Leitura: João 3.1-16.

Deus estava em Cristo

Jesus no Getsêmani por Peter James
João 3.16 é de longe o versículo bíblico mais conhecido e tem sido chamado de O Evangelho Dentro do Evangelho. Porém, com toda certeza, ele não é suficientemente apreciado pelos cristãos. Nós ainda estamos sob a influência da questão crucial com a qual os não crentes sempre nos desafiaram: Porque Deus amaria mais a nós, filhos egoístas e insensíveis, fazendo com que o seu Filho bom e fiel fosse castigado em nosso lugar? Será que podemos lidar com esta instigante questão sem apelarmos para argumentos fundamentalistas de que Deus sabe tudo e pode tudo? Saindo pela tangente poderíamos pensar: Seria possível que imbuído deste sentimento de cumplicidade, ao confrontar o amor de Deus com a maldade humana Jesus se dispusesse fazer este sacrifício pelos pecados do mundo? Esta é uma boa resposta, mas não convence plenamente.Os teólogos mais consistentes já elucidaram boa parte dessa questão. Em seu livro o Deus Crucificado Moltamann afirma: Deus morreu na cruz, contrariando as doutrinas dos que pregam a passividade de Deus no Calvário. Paulo concorda integralmente quando afirma: Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo (II Co 5,19). Na teologia de Paulo, foi no momento da dor que Deus se aproximou mais de Jesus, quando esteve mais próximo que antes em qualquer situação. Ambos nos apresentam um Deus que é capaz de sofrer com o homem, pelo o homem e no lugar do homem. Um Deus que aceita abrir mão de sua divindade, ser contado como um de nós, ser humilhado como o mais humilde de nós. Tudo isso para pôr-se junto, ao lado da criatura a quem mais atributos concedeu.

Leitura: João 3.1-16


O Pai Nosso – Perdão

Jesus e a adúltera, autor não identificado
O terceiro pilar da oração de Jesus é o perdão, melhor dizendo, o ultimato do perdão. Perdoem porque vocês já foram perdoados. Perdoem em todas as instâncias. Perdoem porque se vocês, tanto como indivíduos, tanto como nação, vivem hoje em alguma estabilidade social e afetiva é porque foram perdoados das atrocidades que cometeram no passado. Perdoem sem ressentimento ou retaliação, porque esta é a única maneira de reverter o ciclo de violência no qual o seu inexpressivo planeta está mergulhado desde os primórdios da civilização. Atentem para a surpresa do olhar do filho pródigo, que embora fosse recebido com festa, ainda permanecia confuso com a capacidade de perdoar do Pai dessa oração. Mirem-se na indolência da prostituta que reconhece que a única postura diante do perdão é se jogar em pranto aos pés do Deus perdoador.

Leitura: Mateus 6.9-13

O Pai Nosso – Pão

Eu sou o pão da vida, Baha'u'llah's
O segundo pilar desta oração é o pão, que é visto como uma dádiva de Deus, não é aquela massa fermentada que tão bem conhecemos e sim fonte de boa vontade e energia para realizá-la. É um meio de subsistência tão essencial que a falta desse pão significa a falta de tudo: deixei de dentes limpos em todas as vossas cidades e com falta de pão em todos os vossos lugares (Am 4.6), por isso, na oração Jesus ensina aos seus discípulos a pedir somente o pão, porque este resume e reúne todos os dons que nos são necessários, e mais ainda, o sinal do maior dos dons (tomou Jesus um pão e, após haver dado graças, o partiu e deu aos seus discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é o meu corpo (Mc 14.22). A partir da experiência amarga do exílio, o povo descobre a necessidade de partilhar o próprio pão: generoso será abençoado, porque dá do seu pão ao pobre (Pv 22.9). Quando Paulo recomenda aos coríntios fazer uma coleta em favor dos santos, lembra-lhes que todo dom vem de Deus, a começar pelo pão. Na igreja, a fração do pão é parte do rito eucarístico e representa o pão que é partido em favor de todos, o Corpo do Senhor se torna a própria fonte de unidade da Igreja. Numa escala de valores do Reino Jesus coloca o pão da Palavra acima do pão alimento, quando diz que o homem pode viver sem pão, mas que não pode viver sem a Palavra de Deus: Também está escrito, não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus. (Lc 4.4), como também nos ensina a buscar o Deus de todas as coisas, não somente o Deus do pão.


Leitura: Mateus 6.9-13

ads 728x90 B
Tecnologia do Blogger.