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O homem de Deus e o profeta III

O homem de Deus e Jeroboão, Fragonard (1732-1806)

Amadeus
Ainda há um terceiro aspecto fundamental na Palavra de Deus: Ela não é proferida para ser compreendida e sim para ser obedecida. O homem de Deus havia entendido perfeitamente que não deveria aceitar oferta alguma pela sua João 3:16-19
missão e que não deveria voltar pelo caminho que viera. Sem a pretensão de querer contradizer o fundamento do aspecto citado, algumas conclusões podemos tirar daí. Não voltar pelo mesmo caminho, tem o significado de tirar do enviado de Deus qualquer mérito ou orgulho pelo sucesso da missão. Voltar pelo mesmo caminho significaria ser reconhecido nos lugares por onde havia passado, e, consequentemente, ser saudado com honras e glórias pelas pessoas que o reconhecessem. O novo caminho significa o anonimato e a renúncia total a qualquer tipo de crédito. Já o fato de não aceitar ofertas tem a ver com o ineditismo da missão. Não são cotidianos esses milagres. O que normalmente ocorre, é o braço do poder tentando a todo custo imobilizar a ação dos profetas de Deus, e os altares pagãos constantemente rachando a unidade do seu povo. A função do homem de Deus é lutar com todas as suas forças para evitar que isso aconteça. Muito raramente o profeta vai rachar estes altares e imobilizar o braço do poder com algo além da fidelidade e persistência no seu ministério. Mas esta era uma missão muito particular e específica, estava em jogo a sobrevivência da sua nação. Não caberia a ele qualquer forma de remuneração ou recompensa. O autor da narrativa deixou bem claro que a participação humana nos fatos extraordinários que a Palavra de Deus vem realizar é apenas figurativa, e que o portador desta Palavra nada deve receber por isso.

Talvez seja por isso que a Bíblia não lhe confere o título de profeta, embora ele reconhecidamente o seja. Ao preferir chamá-lo simplesmente de homem de Deus, faz questão de ressaltar o aspecto que faz essa missão ser única e específica. Ao chamá-lo de homem de Deus, retira dele os encargos naturais e consequentes do profetismo como profissão remunerada. O texto apresenta quais são os dois aspectos do profetismo através de dois profetas diferentes. O velho, que acomodado em sua casa, desfrutando dos bens que recebeu durante o transcurso do seu longo ministério. E que ministério é esse? É aquele ministério permanente, que é exercido pelo profeta de Deus à frente de sua igreja. Paulo quando escreveu aos coríntios definiu muito bem as funções deste ministério. Edificar, consolar e exortar. Estas são as funções que o profeta de Deus está comissionado a realizar constantemente. Para isso, tem direito ao seu salário como qualquer outro trabalhador. Mas para ser o portador da Palavra de Deus contra a injustiça e a iniquidade não tem que receber remuneração ou prêmios. Para ser canal da bênção quando Deus realiza os seus feitos extraordinários muito menos ainda.

O que estarrece a todos é que a igreja está pagando, e pagando caro, justamente pelo que não deveria pagar, e com isso, não está exigindo dos seus profetas o zelo, a atenção e o serviço que eles realmente deveriam prestar pelos salários que recebem. Alguém pode querer vida mais confortável do que este profeta? Ou não seria muito mais prazeroso montar uma parafernália, esperar que o povo venha a si, simular alguma humildade disfarçada de piedade, transvestir-se de uma santidade bem duvidosa para cobrar curas e milagres que nunca se materializam. Consolar a família que mesmo após sinceras orações perdeu o seu ente querido, não é coisa que se faça. Solidarizar-se com o membro que perdeu sua única fonte de renda, a despeito de ser um crente fiel, não é coisa que se cogite. Ir atrás da ovelha que durante anos foi presente e participante, mas que alguma circunstância está perdida, nem pensar.

Mas no final das contas, a igreja é a grande culpada. Dizia sempre o meu amigo Wesley, falecido recentemente: Quem acredita nesses falsos profetas, tem mais é que ser enganado mesmo. Sejamos sinceros, a igreja está repleta daqueles que visam exclusivamente a bênção, e não estão nem aí para os sinais dos tempos. Daqueles que buscam o caminho curto e fácil da retribuição, e não da sã doutrina. Daqueles que ignoram por completo a advertência de Paulo, quando ele diz: Se alguém ensina alguma outra doutrina e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com a doutrina que é segundo a piedade, é louco e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, suspeitas ruins, contendas de homens corruptos de entendimento e privados da verdade, cuidando para que a piedade seja fonte de lucro. Aparta-te dos tais.

Eu dizia no começo deste terceiro argumento antes de divagar pelo caminho da denúncia: A Palavra de Deus está diante de nós para ser obedecida e não entendida. Enquanto o homem de Deus insistiu nela sem hesitação ou questionamentos, ela fez por cumprir fielmente o seu propósito, e o episódio poderia ter o seu desfecho aí. Mas por que razão ele resistiu à oferta do banquete do rei e foi sucumbir ante a pequena ceia do seu colega profeta? Por que a necessidade do outro em desviá-lo do seu caminho? Porque ambos quiseram comprovar a sua veracidade? Este é um poderoso sinal de que as forças contrárias à palavra de Deus estão vivas e atuantes. Este é o sinal que devemos estar sempre alerta para cumpri-la sem procurarmos entendê-la. Contudo, se ainda assim insistirmos em buscar algum sentido, este poderá ser encontrado no texto de II Reis 23, que fala do sepulcro único onde estranhamente estão enterrados dois profetas anônimos. Coincidentemente ou não, o texto ressalta que em vez de buscarmos razões, deveríamos atentar para os mais estranhos sinais que esta Palavra tem produzido à nossa volta.

Iahweh lá, vírus cá

30.3.20
A praga dos gafanhotos, foto de Guilherme Henrique
Para que contes a teus filhos e aos filhos de teus filhos como zombei dos egípcios e quantos prodígios fiz no meio deles, e para que saibais que eu sou Iahweh. Êxodo 10.2

Tenho observado calado o burburio nas redes sociais sobre esse mal global que está nos afligindo, contudo, não posso mais me calar diante dos absurdos que têm vindo à tona nesse mar de desinformação que é a nossa imprensa. Já vos falei de um livro escrito por um amigo, infelizmente não editado, cujo título é A Cor da Imprensa. Onde ele cita a capacidade camaleonesca de mudança de cor que possui a maioria dos nossos jornalistas de plantão. O que faz desse fato interessante é que todas as agências governamentais, assim como muitos líderes religiosos não têm feito outra coisa senão tocar na mesma tecla o famoso Samba de uma nota só. Não bastasse a disseminação dessa cultura inculta, ainda buscam no texto sagrado respaldo para as suas baboseiras.

Gostaria que me respondessem onde foi que encontraram alguma mínima relação entre as dez pragas do Êxodo e a disseminação do Corona vírus na atual humanidade? Penso que para tanto, alguns dados relevantes da mais extraordinária história jamais contada, teriam que ser replicados ou pelo menos mostrado semelhanças pertinentes.

Em primeiro lugar nessa história não houve lugar para achismos e pseudociências. Os magos do Egito conheciam os limites da sua sabedoria e constataram que estavam lidando com algo muito além da sua compreensão e de tudo que já haviam imaginado. Então, disseram os magos a Faraó: Isto é o dedo de Deus. Êxodo 8.19. Os cientistas do Egito, não somente reconheceram a potência da ciência divina, como também sofreram as consequências da sua irresponsabilidade: De maneira que os magos não podiam permanecer diante de Moisés, por causa dos tumores; porque havia tumores nos magos e em todos os egípcios. Êxodo 9.11. Aqui o vírus já foi definido.

Em segundo lugar, as pragas enviadas por Deus não afligiram tão somente os egípcios, mas todos aqueles que se anunciavam como superiores ao povo de Deus escravo. Quando a Bíblia nos conta que algumas pragas não chegaram à região onde moravam os hebreus, quer nos dizer que os que tiveram esse livramento foram as pessoas da periferia, os excluídos da elite social egípcia. Todos os que moravam distante da região privilegiada das margens do rio Nilo. Isso em nada se assemelha a qualquer pandemia dos nossos tempos. Aqui todos pagamos o preço. Ricos e pobres, chineses e americanos, brancos e negros, petistas e bolsonaristas, ateus e cristãos. Notem que não existe uma seleção de fatores e de pessoas para denunciar uma injustiça, posto que hoje essa injustiça campeia por todos os lugares, classes sociais e ideologias políticas.

Há outras dessemelhanças a serem descritas, mas eu vou terminar com essa. O que livro do Êxodo relata não é uma luta política-econômica entre EUA e China, muito menos entre os presidentes dos três poderes. Não é um cabo de guerra entre Moisés e Faraó. O Êxodo detalha a acachapante derrota que os deuses, a religião, a tecnologia e os exércitos do Egito padeceram diante do poder incomensurável do Deus de Israel. Isso que eu digo está lá em Êxodo 12.12: Porque, naquela noite, passarei pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até aos animais; executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou Iahweh.

A conclusão que se chega diante das notícias que nos chegam é que só existe ciência e fé de um lado, e esse lado é o lado da Teoria da Evolução, do aquecimento global, do aumento do nível dos mares, da histeria da pandemia, assim como esse microscópico vírus, que se tornou para a igreja o anúncio inequívoco do fim dos tempos. Contemplamos de um lado a falação inconsequente de especialistas a respeito de forças naturais que o conhecimento atual sequer arranhou a superfície e de outro a prepotência religiosa de quem pensa viver o pior de todos os tempos e que sua geração possui os atributos necessários para ser a última geração sobre o planeta Terra. Será que está próximo o dia em que iremos entender que o nosso problema é global e que é muito maior que as nossas desavenças no Facebook?

Agindo eu, que o impedirá? Quando Deus age não deixa dúvidas. Não temos como enxergar semelhanças entre as duas situações. Na verdade temos sim. Tanto lá quanto cá, existiram e pelo jeito sempre existirão: os cabeças dura dos faraós em comando; um povo rebelde que prefere as panelas de carne na opressão do que o pão minguado na liberdade; alguns cientistas querendo ser deuses; Deus cujo amor arde, mas não consome.

PS. àqueles (las) que notaram a minha ausência informo que estou empenhado em outro projeto que será exibido em breve. Obrigado.




Absurdo é Deus

2.2.20
Pedro e Simão, o mago. Avanzino Nucci
Quando um cristão lê na Bíblia, em I Coríntios 2.9, o que Paulo, seguindo a linha da profecia de Isaías 64.4, diz: Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam (NVI), imediatamente o seu pensamento começa a contabilizar os vários tipos de benesses que Deus tem para lhe dar. Este é o momento em que ele tenta imaginar o inimaginável, pensar o impensável e conceber o inconcebível. Em outras palavras, é o seu mergulho de cabeça naquilo que o restante da humanidade chamaria de absurdo. Mas ainda que não seja possível de se ter qualquer tipo de compreensão sobre esse assunto, para o cristão não há absurdo, não quando ele diz acreditar no Deus dos impossíveis ou no Deus dos absurdos, como dizem alguns, mas quando ele entende que absurdo é o seu Deus. Isso mesmo, absurdo é Deus.

Quando ele crê nisso, passa a crer também que todas as coisas, todos os fatos, todas as possibilidades e todas as expectativas passam a figurar abaixo da linha do absurdo. Essa é experiência deixada para nós por Tertuliano, um dos pais da igreja, que no final do século II, dizia: Creio porque é absurdo. Porque se não fosse absurdo, não haveria necessidade da fé. 

Mas de nada adiantaria citar Tertuliano, Paulo ou Isaías ou mesmo ficar falando que Deus é absurdo sem mostrar as diversas reações de pessoas que testemunharam esse absurdo nas suas vidas.

O absurdo pareceu estarrecedor para Israel (Jacó). Gênesis 48
Já fazia mais de muitos anos que Jacó amargava a notícia da morte de seu filho José. Suas esperanças há muito haviam se dissipado e só lhe restava o arrependimento de ter enviado José para aquela fatalidade. Foi quando no final de sua velhice, José, que aos olhos do pai havia ressuscitado, mostra-lhe seus dois netos. Jacó não cabendo em si diante de um absurdo jamais concebido e que, naquela hora, Deus estava lhe concedendo presenciar, exulta dizendo: Nunca pensei que veria a sua face novamente, e agora Deus me concede ver também os seus filhos! (NVI)

A incredulidade de Naamã na simplicidade do absurdo. II Reis 5
Naamã, general supremo dos exércitos da Síria, foi diagnosticado com hanseníase. Já havia sido tratado pelo expoente da medicina da sua época, sem obter qualquer resultado animador. Foi aí que uma escrava adolescente hebreia lhe disse: Se o meu senhor procurasse o profeta que está em Samaria, ele o curaria da lepra. Mesmo sem convicção foi ter com Eliseu, em Israel, que se dar a devida importância à sua autoridade, mandou dizer-lhe literalmente que fosse tomar banho. Agora é que o general sírio não iria acreditar mesmo, pois toda a sua expectativa se fundamentava em que somente um grandioso espetáculo pirotécnico de magia seria bastante para restaurar-lhe a saúde. Nunca, jamais, em tempo algum uma simples e desaforada sugestão. Se fosse apenas isso, ele o faria nas águas do seu país, mais abundantes e mais saudáveis. Não creu que um Deus absurdo pudesse se manifestar de maneira tão simplista, até ser persuadido por um dos seus servos, ser curado e expressar as sua nova condição de saúde física e mental com as seguintes palavras: Agora, reconheço que em toda a terra não há Deus, senão em Israel.

Simão e a sua frustrada tentativa de comprar o absurdo. Atos 8
Simão impressionava o povo de Samaria com a sua magia e obtinha altos lucros com ela. Ao ouvir a pregação libertadora de Filipe, converteu-se ao evangelho e abandonou as práticas pagãs, ao reconhecer que aquele diácono possuía o verdadeiro poder. Contudo, mais estupefato ficou quando viu o poder absurdo que Pedro e João liberavam quando impunham suas as mãos sobre as pessoas em nome de Deus. O mago, que conhecia o poder de manipulação que lhe conferia ganhos, estava agora intencionado a gastar o que tinha para possuir esse poder excepcional. Que Deus mande você e o seu dinheiro para o inferno! Você pensa que pode conseguir com dinheiro o dom de Deus? Fez Pedro àquele desavisado essa pergunta oportuníssima para os dias de hoje.

Há em muitas igrejas todo um aparato de pessoas munidas de literatura conveniente para provar a existência e Deus e contra-argumentar as alegações do ateísmo. Todo esse esforço concorre no sentido de que Deus entre na vida das pessoas pelo entendimento e pela lógica. Tudo isso é vão diante do que nos ensinaram os pais da igreja. Não havia e ainda não há maneira melhor de mostrar que Deus existe senão por meio daquilo que não se podia de forma alguma ser explicado e entendido: o testemunho de fé que deixa a toda ciência de joelhos. Santo Agostinho foi o mais incisivo deles, quando afirmou. Se você entender, não é Deus.

Guiará meus passos, não traçará meu caminho

5.1.20
Fundamento do karma, autor não identificado

Pois o nosso Deus é misericordioso e bondoso. Ele fará brilhar sobre nós a sua luz e do céu iluminará todos os que vivem na escuridão da sombra da morte, para guiar os nossos passos no caminho da paz. Lucas 1.78

Um caminho para mim traçou, diz a letra do hino Deus tem um plano, que é muito cantado em nossas igrejas. Esse é o resultado prático da pouca atenção que os cristãos de hoje têm dado ao sentido das palavras com que são usadas nas músicas que compõem a hinologia atual.  Por alguma lógica contida nas Escrituras não poderia ser que a ideia de um caminho traçado esteja mais para Tetê Espínola em Estava escrito nas estrelas do que propriamente para Sarah Poulton Kalley em Direção Divina (350 HE)? Não estaria esse verso mais afeito ao carma budista do que ao conceito de Iahweh yireh , Deus proverá? Já paramos para pensar que o fatalismo proposto por esse hino entra em reta de colisão com a disposição de um Deus, cujas misericórdias se renovam a cada manhã?

Porém, se as misericórdias que se fazem novas, que são inéditas a cada manhã e que são nos dadas gratuitamente para suprir cada necessidade, para alentar cada esperança e perdoar cada pecado não sirvam de argumento suficiente, vamos nos lembrar de que Deus não entra e interfere na nossa vida de supetão. Ele não arromba, mas bate à porta. O Salmo 115.6 diz: Os céus pertencem somente ao Senhor, mas a terra ele deu aos seres humanos. Até mesmo para fazer valer o seu plano de salvação, Deus não veio ao mundo dos homens como Deus, mas esvaziou-se da sua divindade e assumiu a forma de servo para habitar entre nós. O verbo habitar foi traduzido do grego ékenosen, que significa tabernáculo. Melhor seria dizer que Deus “tabernaculou”, armou a sua tenta tenda entre nós. Paulo na narrativa mais centrada do nascimento de Jesus, diz em Gálatas 4.4: veio como filho de mãe humana e viveu debaixo da lei.

Todos esses elementos apontam para Deus que não tem na mão uma agenda que consulte para decretar a sequência dos acontecimentos, mas que, do nada, chama à existência uma perspectiva inédita que vai se descortinando a cada nova situação, a cada novo desafio, para nos dar um novo recomeço, para nos tornar uma nova criatura. No texto sagrado, mais abundantemente no livro de Jó, encontramos todo um processo de desconstrução da doutrina da causa e efeito, muito comum no Budismo, no Hinduísmo e no Espiritismo. Muito embora algumas doutrinas protestantes se fundamentem na predestinação, mesmo essas não podem considerar que a presciência de Deus seja a causadora do fato, pois seria atribuir a Deus toda e qualquer origem do ato pecaminoso.

Deus tem um plano em cada criatura? Sim, porque assim determinou para a criação suas leis eternas e imutáveis; Deus enumera cada grão de areia? Sim, porque o universo foi criado com inteligência para que nada transgrida a sua harmonia; Para cada rio ele dá um leito? Sim, mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.

Nada que esteja escrito nas estrelas ou em qualquer outro lugar pode minimamente ofuscar a mensagem da novidade que a Palavra de Deus nos traz. Portanto, absolutamente nada em nossa vida está fatalizado ou determinado, mesmo que seja assim cantado por muitos com a melhor das intenções.

Que esteja plenamente convicta a igreja que o caminho, para aqueles que querem se valer das Escrituras para orientar as suas vidas, é sempre o caminho do novo, do nunca visto, do jamais imaginado e do sequer cogitado. Pois, o que ninguém nunca viu nem ouviu, e o que jamais alguém pensou que podia acontecer, foi isso o que Deus preparou para aqueles que o amam.

Discutir ou não discutir?

15.12.19
Micaías, Josafá Zedequias e Acabe, autor não identificado

Quem dá uma resposta séria a uma pergunta tola é tão tolo como quem a fez. Responda ao tolo de acordo com a tolice dele para que ele não fique pensando que é sábio. Provérbios 26.4-5

Tenho ouvido sermões há muito tempo. Se John Wesley pregou mais de quarenta mil vezes, penso que já ouvi uma quantidade sermões em torno desse número. Mas o fato é que até o dia de hoje ainda não tenho opinião formada sobre como se deve proceder nas discussões com ateus, agnósticos e simpatizantes. Discuto ou não? Respondo ou não? Formulo uma teoria séria e me torno um tolo, como assim deduz Salomão, ou entro na tolice dele para que ele pense que eu sou tão inteligente quanto ele pensa que é, como também recomenda o mesmo pensador?

Para elucidar boa parte dessa questão contamos com um exemplo espetacularmente esclarecedor em II Crônicas 18, que narra a profecia de Micaías contra o rei Acabe de Israel. Micaías, profeta do reino do Norte é mais um desses profetas quase anônimos da Bíblia que mereceriam, da parte dos escritores sacros não apenas um breve capítulo,  dada não somente à contundência, também um livro, devido à pertinência da sua mensagem. Sobre seu grandewza do ministério profético, testemunha o prfóprio Acabe: Eu não disse que para mim ele nunca profetiza coisas boas? Ele sempre diz alguma coisa ruim! 

Dá-se que Micaías foi envolvido involuntariamente em uma questão atestada e sacramentada por pelo menos outras quatrocentas e duas pessoas, onde somente ele tem opinião contrária. Mas não pensem que, dada a sua convicção de profeta do Deus Altíssimo, ele deixou de ser contraditório, expondo com clareza a verdadeira Palavra dion Altíssimo. Mesmo que a verdade lhe fosse revelada, a princípio fez coro com os demais profetas, surpreendendo Acabe e colocando-lhe, ao mesmo tempo, uma pulga atrás da sua orelha.

O rei Acabe conhecia bem a figura chamada Micaías e tentou, de todas as formas, omitir a sua pregação, mesmo porque ele já tinha consultado quatrocentos profetas, os quais foram unânimes em confirmar a sua vitória na batalha contra o rei assírio. Mas Josafá, rei de Judá, a exemplo do dramaturgo Nelson Rodrigues, também avaliava que toda unanimidade é burra, aí resolveu perguntar se não havia mais algum profeta naquele país. Tenho pra mim que as palavras de Acabe venham a ser a consagração máxima que um profeta pode receber em vida. Ter a rejeição sumária de um rei iníquo e sanguinário lhe pesando nas costas é mais do que suficiente para colocar qualquer um diretamente na galeria dos heróis da fé, o que já seria suficiente para considerá-lo mais um dos grandes profetas de Deus.

Micaías não somente não calou sua voz em face das ameaças contra sua vida e profetizou, em nome de Deus, a derrota acachapante do rei. Esse profeta foi muito mais além e fez o inimaginável. Após ouvir Acabe proferir a sua condenação sumária: Prenda Micaías e o joguem na cadeia e o ponham a pão e água até que eu volte são e salvo, disse ainda: Não dei por termionada a minha profecia. Acabe, nessa batalha você vai morrer e os cães lamberão o seu sangue.

Vejamos o que podemos aprender com Micaías. Primeiramente a não discutir com tolos. Na primeira consulta ele disse para o rei: Por que você está me perguntando isso se já tem a opinião de quatrocentos profetas? Assim devemos responder aos questionadores da nossa fé. Eles já têm a opinião de Freud, de Nietzsche, de Marx e de Darwin, por que querem saber o que disse Jesus Cristo? Para esse tipo de gente o evangelho é suficiente. Já que o  rev. Spurgeon: evangelho é um leão enjaulado, é preciso apenas que abramos a porta da jaula.

Contudo, a questão se torna mais séria quando os nossos oponentes passam a deduzir que a nossa fé é ignorante que não pem como apresentar respostas que possam negar com razoabilidade tudo aquilo que eles consideram verdadeiro e definitivo. Ou seja, tudo aquilo que já tenha se tornado consensual. Nancy Pearce, em seu livro Verdade Absoluta, diz: Ainda temos de nos esforçar para desenvolver um caráter de tamanha qualidade que as pessoas vejam a diferença entre os remidos e os não-remidos. Nossa vida deve mostrar uma dimensão sobrenatural que os não-crentes não possam explicar ou imitar por seus métodos naturais e pragmáticos. Foi exatamente isso que Micaías fez. Apostou a própria vida na sua profecia, mas não sem ridicularizar dz o rei Acabe antes da sua partida para a batalha: Deixe uma ordem para que se você não voltar que me soltem, caso contrário passarei o resto da minha vida preso. Simples assim: Se você sobreviver minha profecia não é a palavra do Senhor.

A exemplo do que ocorreu com Micaías, sabemos bem que nada é simples e fácil. A fé em Jesus Cristo não é uma questão de crer e sim de ser. Nada está garantido e nem tudo acaba bem, como foi observado nesse breve ensaio. Por conta disso, vamos refletir no que disse o rev. Cherteston: Há duas verdades: a do mundo sobrenatural e a do mundo natural, que se contradizem. Na qualidade de naturalistas, podemos supor que o cristianismo é um contra-senso; quando nos lembramos de que somos cristãos, temos de admitir que o cristianismo é a verdade mesmo que seja um absurdo.


Duas cidades, três homens

1.12.19
Agostinho de Hipona, auor autor não identificado

E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo. Mas, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses. Gálatas 4:6-8

Santo Agostinho, em sua preciosa obra Cidade de Deus escrita no quinto século, nos oferece uma pista bem concreta de como funciona a mente ocidental em contra partida a cidade dos homens. Ele a expõe da seguinte forma: dois amores fizeram as duas cidades: o amor de si até o desprezo de Deus – a terrestre; o amor de Deus até o desprezo de si – a celeste. Por mais divergentes que essas cidades possam parecer, Agostinho nos mostra que elas estão sempre se cruzando, pois ambas não se referem a locais geográficos distintos, porém, buscam retratar a postura do homem diante das realidades do amor a Deus o do amor a si mesmo.

Mas aí vem Paul Tillich, no século XX, e eleva esse pensamento ao estremo ao dividir a postura humana diante dessa mesma realidade em três estágios definidos.

O primeiro estágio ele chamou de autônomo. O estágio em que o homem se imagina senhor da sua própria existência. Para este homem tudo começa e termina nele. Ele é o único provedor, o único mantenedor e o único cuidador de si e de sua família. Nesse estágio, quando não admite a existência de Deus, questiona todas as situações onde o divino possa ter alguma participação. Sua lei se fundamenta exclusivamente na sua razão e por ela pauta toda suas decisões, condutas e justiça.

Mas há um segundo estágio, o que Tillich vai chamar de heterônomo, hetero nomos, lei estranha, ou lei fora de si. O estagio em que o homem é regido por uma consciência que está além de si mesmo, mas que não consegue definir bem qual é essa consciência. Seu estado emocional é sempre receoso em tudo que faz. Por não ter segurança em suas decisões transfere para algo fora de si, por mais supersticioso que possa parecer. Seu temor é constante e sua vida não passa de uma eterna suspeição de si e dos outros. É do tipo que acende uma vela para um santo ajudar e outra vela para o outro santo não atrapalhar.

Mas Tilich fala de ume terceiro estágio da consciência humana, o teônomo (Teo, Deus; nomos, lei). Esse é o homem que não sabe bem se faz o que faz por sua própria vontade ou se atende a uma vontade de Deus, posto que em sua cabeça ambas a situações se confundem. Esses não têm preocupação alguma com o fato de estarem certos ou errados em suas decisões, pois se veem guiados pelo Espírito Santo de Deus. Homens a quem Paulo, em Romanos 8.14, chamou de Filhos do Espírito.

Por mais estranho que possa parecer aos conceitos do evangelho pregado na maioria dos nossos púlpitos e altares, é o terceiro estágio que, tanto Agostinho quanto Paulo e Tillich, consideram primordial, muito embora não contemplem qualquer dos ditames exigidos pelas igrejas na recepção dos seus membros. Não fala em dízimo, em testemunho, em abstinência, muito menos de assiduidade aos cultos. Fala de uma consciência tão livre que nem mesmo o mais eloquente dos pregadores pode fazê-la escrava dos seus conceitos.

O profano e o sagrado no mundo de Deus

20.10.19
Wesley no 4º Encontro Confessantes - IEAB - Maio de 2011
Leia Salmos 20

Uma leitura mais atenciosa do Salmo 20 vai nos mostrar diferenças fundamentais de como funciona o sagrado e de como funciona o profano no nosso mundo. Diferenças essas que precisam ser consideradas, pois são, como dissemos, fundamentais para o nosso relacionamento com Deus e nos ensinam como viver no seu Reino. Mostra-nos também como é diferente a realidade a partir desses dois aspectos da vida humana, pois vamos descobrir que temos coisas e vivemos situações que podem ser corriqueiras no mundo natural, mas que são impensáveis e inexequíveis no mundo espiritual.

Pedido X Súplica – Existem coisas que podemos e até devemos pedir encarecidamente ou como favor, mas de antemão já estamos sabendo que é uma obrigação do outro ou direito nosso. Já a súplica não preconiza qualquer direito ou obrigação. O salmista faz uma invocação a Deus em favor do rei para que o Todo Poderoso responda favoravelmente à sua súplica no tempo da angústia, não fazendo qualquer referência ao mérito.

Comemoração X Celebração – Na raiz da palavra vemos que celebração é tornar alguém ou algo célebre valorizando seus atributos, atitudes e consequência dos seus atos. Já comemorar é um ato que exprime a nossa alegria pelo fato de termos uma satisfação realizada. Na tristeza ou na adversidade até podemos celebrar, mas comemorar jamais. O poeta da Bíblia celebra antecipadamente a vitória em meio à tribulação e desde então já preconiza gritos e hasteamento de bandeiras sem que nada ainda tenha acontecido.

Confiança X Fé – A confiança resulta da confirmação da realização de um ou mais fatos previamente esperados. Exige uma prova concreta que passa antes pela racionalidade e pela possibilidade. Já fé não nos permite vislumbrar o esperado. Ter fé é não enxergar qualquer possibilidade e mesmo assim continuar esperando. O salmo relata a ilusão das pessoas que confiam nos carros e cavalos do seu exército, mesmo que estes se apresentem como possibilidades reais e que se mostram diante dele como factíveis. Em contrapartida, enaltece a fé de Israel em Deus, mesmo que reste ao povo tão somente descansar no santo nome do seu Deus, enquanto espera em suas promessas.

Generosidade X Contribuição – O salmista, na sua oração, não pede que Deus se lembre de que o rei fez contribuições para o templo, mas almeja que Deus se lembre do quanto ele foi generoso.

Notícia X Boa nova – É muito comum se traduzir evangelho por boa notícia, mas evangelho no grego antigo era uma gorjeta que se dava ao portador da notícia. Lembro-me de que meu pai me fez correr atrás do carteiro quando trouxe o telegrama da CTB que seríamos contemplados com uma linha telefônica. Este é um salmo que anuncia, não como uma notícia, mas previamente traz uma boa nova, que é a vitória inconteste do rei, mas que esta somente se dará caso aconteça uma intervenção direta de Deus. Aqui se trata apenas de Deus lutar ao lado do rei, mas de Deus lutar no lugar do rei.

Participação X Comprometimento. Este salmo me fez lembrar do insubstituível João Wesley Dornellas. As suas aulas na E.D. ele exemplificava essas duas atitudes com o sanduiche de bacon com ovos. Dizia ele: Neste sanduiche dois animais estão presentes: A galinha e o porco. Porém, a galinha fornece os ovos e segue a sua vida normalmente. Isso é participação. Já o porco tem que morrer, tem que dar a sua vida para que o sanduiche seja preparado. Isso é comprometimento. Não sei se encaixa diretamente na mensagem deste salmo, mas que é uma diferença importante, lá isso é.

O governo do justo II

2.9.18
Paulo pregando em Atenas, Raffaello

E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, seus filhos se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. E brincará a criança de peito sobre a toca da áspide, e a desmamada colocará a sua mão na cova do basilisco. Isaías 11:6-8

Os gregos, há dois mil e quatrocentos anos, entenderam que a democracia nunca poderia ser exercida pelo sistema eleitoral, posto que a autoridade por ele constituída seria passível de ser corrompida em toda a sua trajetória. Desde a filiação ao partido, passando pela influência política ou social, pela projeção midiática, o voto de cabresto, o coronelismo ou a compra descarada de votos, observa-se a corrupção chegar com todo o seu aparato. Na Grécia antiga, democracia tinha mais a ver com sorteio do que com eleição.

Não existia campanha política, horário eleitoral ou panfletagem de santinhos. Não havia escrutínio nem eleição por aclamação. As pessoas, ao colocarem seus nomes numa espécie de máquina de sorteio chamada por eles de kleritorion, se apresentavam para exercer os cargos públicos em vacância sem saber previamente qual seria esse cargo. O período em que ocupava o cargo não excederia a um ano e o escolhido pela máquina nunca mais poderia se candidatar novamente a qualquer cargo público. O kleritorion lançava sorte, os elegia e determinava naquele exato momento o cargo que iriam ocupar. Para eles esse sistema era tão sério que até seus deuses foram sujeitos a ele. Foi o kleritorion que determinou que Júpiter governaria o céu, Netuno os mares e Hades o submundo. O klerirtorion é a máquina que mais amedronta a ordem mundial em que vivemos, pois ele coloca termo a todo tipo de influência externa no governo.

Embora fosse eficiente no tocante à imparcialidade, a máquina não tinha poder de persuasão e nem de uma análise ética, conquanto as autoridades escolhidas por ele não dispunham de todos os atributos necessários para a função. Os gregos criaram a palavra exousia para que nela fossem resumidos todos esses atributos, que seriam: poder, direito, legitimidade, autenticidade, idoneidade, competência e credibilidade. Se na Grécia antiga, mesmo com o seu incorruptível sistema de eleição, o eleito não reunia grande parte desses atributos, o que se poderia esperar de um sistema corrompido como o nosso? É justamente aí que os atributos do governo do justo citados no nosso texto base irão fazer toda diferença.

Eu tenho particular apreço pela criatividade com que são elaborados os presépios de Natal, mas não devemos nos esquecer de que a ideia inicial nasceu na cabeça de um grande herói da fé chamado Francisco de Assis. Seu projeto era muito mais ambicioso do que os vãos esforços que hoje fazemos em prol do ecumenismo. Francisco de Assis juntou numa mesma cena reis e pastores, anjos e homens, seres humanos e animais, céus e terra. Tudo isso em torno daquele que veio para salvar o mundo, numa proposta clara de mostrar qual seria, de antemão, a amplitude do seu governo. Mas eu aprecio também o presépio que Isaías 11.6-9 detalha e que é o nosso texto base. Seu presépio profetiza a extinção total e irrestrita que o regime darwiniano predatório instaurou em nosso mundo. Na visão de Isaías fica extinguido qualquer tipo de dominação, seja do mais capaz pelo menos capaz, do mais forte sobre o mais fraco, do mais rico sobre o mais pobre e, principalmente daquele que se adaptou mais ao sistema sobre aquele que está excluído dele. Isaías enxerga, a partir de um governo injusto, cruel e predador o governo do justo, que é o único governo capaz de levar a cabo o ideal representado em seu presépio.

João, em seu evangelho, emprega a mesma palavra grega, exousia, para dizer que somente Jesus tem poder, direito, legitimidade, autenticidade, idoneidade, competência e credibilidade para exercer autoridade. Jesus é o justo profetizado por Isaías e qualquer governo que propõe se fundamentar na justiça deve se aproximar o máximo possível do seu ideal. Um governo que se envolve e se compromete com as causas do povo. Um governo que compra sua briga. Um governo que, mais do que ao lado do povo, lute pelo povo, no lugar do povo. Pode muito bem ser uma ideia nova para nós hoje, mas é antiga na Bíblia. Em Neemias 4.20, lemos: No lugar em que ouvirdes o som da trombeta, para ali acorrei a ter conosco; o nosso Deus pelejará por nós. Isso é o que dizem os hinos não mais cantados por nós, mais vai aqui uma pequena mostra de um deles:

Já refulge a glória eterna de Jesus, o rei dos reis
Breve os reinos deste mundo seguirão as suas leis
Os sinais da sua vinda mais se mostram cada vez
Vencendo vem Jesus. (anterior)

O governo do justo

31.8.18
Klelitorion, a máquina da democracia

E ele se inspirará no temor do Senhor. Não julgará pela aparência, nem decidirá com base no que ouviu; mas com retidão julgará os necessitados, com justiça tomará decisões em favor dos pobres. Com suas palavras, como se fossem um cajado, ferirá a terra; com o sopro de sua boca matará os ímpios. Isaías 11.3-4 (NVI)

Antes de entrarmos propriamente no texto precisamos fazer algumas considerações a respeito do contexto em que viveu o profeta Isaías. A diversidade do Espírito de Deus não encontra barreiras. Se um dia se valeu de um boia-fria, como Amós, de alguém da pura linhagem sacerdotal, como Jeremias, de um amante inveterado, como Oséias, também repousou sobre um príncipe de Israel, como é o caso de Isaías. Sua vivência nos palácios o tornou ciente da podridão do governo, por conta disso, o seu messias jamais poderia surgir de um ambiente com tamanha contaminação. Por isso o idealiza na figura de um servo desprovido de qualquer autoridade, prestígio ou beleza. Para ele, o reinado do todo prometido de Deus também não poderia ter seu início com Davi, pois esse havia falhado, e muito, como rei, daí o seu retorno à raiz de Jessé, como sugerido no versículo primeiro desse nosso texto base. Ele volta com Samuel à casa de Jessé que é de onde a profecia o anuncia.

Para falar deste que vem da parte de Deus para julgar e governar o mundo, Isaías acentua características marcantes. Ele diz que o enviado tem sabedoria, conhecimento e entendimento. Curiosa esta observação em três níveis, porque ela encerra a base primordial das relações humanas. O Messias não apenas sabe, ou seja, tem uma vaga ideia. Ele também conhece, isto é, tem intimidade com a causa. E não somente isso, ele também entende. Por ser provido de todos esses atributos seu julgamento não se dá pelo que as circunstâncias apresentam e muito menos pelo censo comum. Todos sabemos da importância desses fatores em julgamento. Em Israel no tempo do profeta, muito mais era levado em conta o que a tradição oral transmitida através das gerações e o que a lei de Moisés determinava no proferimento de uma sentença do que essa inusitada e insana maneira de julgar que Isaías profetizava. Como não levar em consideração o direito adquirido? Como não priorizar a justiça encerrada na lei? Esse Messias de Isaías seria algum sem noção, por acaso? Como emplacará em juízo a partir do mais fraco. Eu penso que esse dado em particular venha ser o maior entrave que o Cristianismo impõe a Teoria da Evolução. Não é o homem descender do macaco, mas a relevância quer tem, na fé cristã o menos dotado, o menos prestigiado, o menos capacitado, que inviabiliza de uma vez para sempre a predatória teoria Darwiniana em que se estabelece sobre argumentos justamente opostos. No governo do Messias a inclusão dos excluídos não é apenas um programa, é um establishment, ou seja: a ordem ideológica, econômica, política e legal que constitui a sociedade ou o Estado.

Tomar decisões a partir do necessitado é algo que os governos ditos mais democráticos do mundo têm conhecimento, posto que a própria essência da democracia inviabiliza por completo. Por falar em democracia, o que me motivou a escrever depois de um longo período de silêncio, foi a noção equivocada com que esse termo é empregado. É do conhecimento de todos que a democracia surgiu na Grécia, porém durou pelo menos quatro séculos. Muito diferente da nossa, que não se sustenta por cinquenta anos. Saímos da ditadura de Getúlio Vargas para a democracia de Juscelino em um piscar de olhos. Mais rapidamente ainda caímos em uma nova ditadura, dessa vez imposta pelo militarismo. Mal acendemos à democracia das Diretas Já, já, de novo, tem, gente almejando a volta do totalitarismo do coturno. (continua)

É para confundir mesmo

Jesus e os doutores do Templo, Paolo Varonese

Pois a mente deste povo está fechada: Eles taparam os ouvidos e fecharam os olhos. Se eles não tivessem feito isso, os seus olhos poderiam ver, e os seus ouvidos poderiam ouvir; a sua mente poderia entender, e eles voltariam para mim, e eu os curaria! — disse Deus. Leiam Mateus 13.1-15.

Não conheço um cristão que não cite de cor alguns bons versículos do capítulo 6 de Isaías. Aquele que diz: A quem enviarei? Envia-me a mim, então, é o mais conhecido e apreciado, embora muito outros sejam também merecedores de apreciação por parte dos leitores da Bíblia. Contudo, um fato causa estranheza. Os versículos deste texto das Escrituras citados por Jesus são justamente aqueles aos quais não fazemos referência. Nós temos por hábito encerrar a leitura exatamente no versículo anterior ao que Jesus enfatiza. Por que isso é assim?

Penso que o próprio texto responde para nós hoje essa pergunta, posto que ele nos revela a face nua e crua da parte mais indigesta da pregação profética: a denúncia contra aquele que não crê e contra aquele que pensa que crê. Exatamente aquela parte da mensagem de Jesus que fazia com que seus inimigos rangessem os dentes contra ele e alguns dos que se diziam amigos, não por poucas vezes, o abandonassem.

O que texto de Isaías evoca é justamente o contraste que existe entre a boa vontade e a eficiência. Entre a verdadeira e a falsa mensagem profética. Ao ser perdoado do seu pecado e se ver livre da ameaça de morte diante da teofania mais significativa da sua vida, o profeta aceita o desafio do ir em nome de Deus. Sem qualquer hesitação ao chamado “A quem enviarei?”, reponde de pronto: Envia-me a mim. E não é isso o que normalmente fazemos em nossos cultos? Não é isso que tem se tornado regra de fé em comunidades, a pronta aceitação do convite para ir ao altar todas as vezes em que o pastor faz um apelo, seja para o que for esse apelo? Nosso povo está bastante consonância com o profeta, não somente com a suas palavras, como também pelo seu ímpeto, não atentando para o fato de que o problema começa justamente aí, quando Deus diz aquilo que quer que seja anunciado em seu nome: a confrontação da sua Palavra com a incredulidade do povo.

O reverendíssimo bispo Almir dos Santos dizia sempre: Sermão não é para ser apreciado. Sermão é para converter ou se indignar. Após a pregação ou você cai em profunda contrição e arrependimento ou faz o que os escribas e fariseus hipócritas faziam de melhor: Levantavam-se e iam para suas casas amaldiçoando tudo que ouviram naquela hora e planejar a morte de Jesus.

Mas eu havia dito que o texto explicava-se por si só. O texto é o divisor de águas entre os que de boa mente aceitam a mensagem da salvação, e aí Deus pode operar livremente em seus corações acrescentado o entendimento que faltava ao fiel, e aqueles cujas mentes são abestalhadas para não ver, não ouvir e não entender. Ou seja, para que sejam mais firmes e convictos na sua ignorância. Ignorância essa que eles atribuem àqueles que creem, justamente por estes creem naquilo que para eles é impossível crer. Não tenham receio em afirmar que o evangelho está aí para confundir mesmo. Paulo não se acanhou em chamar o evangelho de escândalo e loucura.

Porém Jesus vai além da confrontação com os incrédulos. Quando questionado pelos seus próprios discípulos pela parábola obscura que acabara de pregar, a parábola do semeador, ele elimina imediatamente o clima de dúvida com uma esperança: A vocês Deus mostra os segredos do Reino do Céu, mas, a elas, não. Mas não para por aí, em seguida profere uma sentença: Pois quem tem receberá mais, para que tenha mais ainda. Mas quem não tem, até o pouco que tem lhe será tirado (Mateus 13.12-13).

Jesus está querendo nos dizer que, em meio a tanta pregação equivocada que existe por aí, o evangelho deve ser pregado com sabedoria e fidelidade, pois ele serve pra isso mesmo: aumentar a fé daqueles que se dispõem a crer e anular qualquer possibilidade daquele que não crê entender pela metade o que só pode ser considerado por inteiro. O evangelho pela metade serve apenas para agradar os bodes, aqueles que se sentam nas primeiras filas para exibirem sua prosperidade suspeita como produto da sua fé. Somente a mensagem íntegra do evangelho pode nos revelar as coisas que os sábios do passado quiseram entender a não entenderam e nos fazer ver as coisas que profetas e reis quiseram ver e não viram.

Limites do ministério cristão

Paraísos diferentes, Fausto
Nós não vamos nos orgulhar além de certos limites. Deus é quem põe os limites no nosso campo de trabalho, e ele nos deixou chegar até vocês em Corinto. Desde que vocês estão dentro desses limites, não fomos além deles quando chegamos até aí levando o evangelho de Cristo. II Coríntios 10.13-14

Com estas palavras o apóstolo Paulo, no seu tempo, já demonstrava a sua preocupação com alguns líderes cristãos que se esmeravam em ultrapassar os limites próprios do ministério pastoral? Ele dizia: Mas respeitamos o limite da esfera de ação que Deus nos demarcou e que se estende até vós. (segundo a versão de Almeida Revista e Atualizada). Ou seja, essa coisa de pastor fazer a sua opinião prevalecer em todos os segmentos da vida e, em particular, fazer críticas ofensivas à fé e à maneira de se conduzir de pessoas que não pertencem ao seu rebanho, não é coisa de agora. Vem de longas datas. Eu tenho testemunhado a falácia de que “o pastor ou o padre sabem tudo” em várias denominações, como também em vários lugares. Também vi esse mesmo devaneio incorrer em situações e assuntos, principalmente o financeiro, pois sempre que o fazem, fazem em benefício próprio ou em nome da igreja para a qual foram designados.

Sujeitar por meio da ameaça de excomunhão a decisão sobre o montante da contribuição do membro ingênuo já é feito em quase todas as igrejas que conheço, quer seja em menor ou maior escala. Mas a liderança em questão não está mais se limitando apenas intimidar ou a “profetizar” falsas conquistas e declarar bênçãos sobre a vida dos membros fundamentados em promessas que não estão contidas nas Escrituras. Esses agora resolveram dar pitaco em assuntos que extrapolam totalmente o seu conhecimento. Matérias que de forma alguma têm a ver com o seu chamado ao ministério. Esse dado é o que me faz imaginar que venha a ser esse é o principal motivo pelo qual um grande número de pastores, ditos vocacionados, ao final do seu curso de bacharel não optarem por estender os seus currículos nas graduações mais elevadas da Teologia, confirmando assim a sua vocação. O que eles pensam em fazer de melhor é se enveredarem por formações não afins, como o curso de Direito, por exemplo.

Eu entendo bem que no nosso texto de hoje Paulo estava se referindo ao limite territorial do seu campo missionário, isso porque ele estava ciente de que havia uma liderança séria que, paralelamente ao seu trabalho, estava desempenhando um papel fundamental na propagação do evangelho. Paulo estava dizendo para os coríntios que se limitava a colher única e tão somente na seara que, por vontade de Deus, havia semeado. Porém, se formos verificar a sua conduta, veremos que o que ele chamou de espinho na carne foi algum tipo de cerceamento que lhe foi imposto por Deus. Um limite para que ele transitasse apenas no ministério que lhe foi confiado, e o tal espinho constantemente o fazia se lembrar disso. O próprio Jesus se esquivou a dar opinião sobre temas que não lhe eram próprios quando foi conclamado a dar o seu parecer sobre uma divisão de herança.

Conheço apenas o refrão da música que diz: Cada um no seu quadrado, mas, sem ratificar o restante da letra, digo que o caminho é esse mesmo, pois em uma gama extensa de assuntos quem faria bem procurar orientação são os próprios pastores. Não se dão conta de quanto isso é prejudicial ao evangelho. Não se dão conta do quanto o nome de Jesus fica comprometido nessas circunstâncias. Não se dão conta de quanto isso é negativo para o conceito que o mundo faz do ministério pastoral. Aconselhar mal, dar opiniões equivocadas, interferir em questões para as quais não tem preparo adequado é transgredir flagrantemente os limites do ministério.

Paulo termina a sua advertência com um lembrete que deveria servir de frontal na testa de todo aquele que se sente comissionado a anunciar o evangelho; seja leigo ou clérigo: Pois a pessoa só é aprovada quando o Senhor a aprova e não quando é aprovada por si mesma. Não existe outra maneira de qualificarmos essas palavras, senão como cláusula pétrea. Pensemos nas muitas vezes que dissemos: Sou um humilde servo do Senhor, pois aqui incorremos em um erro grave. Essas palavras têm servido para confessar a nossa humildade, mas elas, em si, são um grande paradoxo. Em primeiro lugar, aquele que arroga humildade própria, já mostra de cara o seu orgulho camuflado. Em segundo lugar, servo do Senhor não é qualquer um que se dispõe a ser. Servir a Deus não nos confere de antemão o honorário título de servo. Servo de Deus é aquele quem ele escolhe e esta comissão não é vitalícia, pois só é válida durante o período da necessidade da missão. Como bem disse Paulo: Pois a pessoa só é aprovada quando o Senhor a aprova e não quando é aprovada por si mesma.

Pensando certo III

21.6.17
Na mão de Deus por  Lorenzo Quinn
E a paz? A paz se origina na graça. Paz é a reunificação daquilo que foi fragmentado. Para Paulo a paz era inseparável da cruz. Nós temos paz com Deus hoje por meio da morte de Jesus Cristo na cruz. Não existe paz até reconhecermos que somos amados por Deus por meio da morte de Jesus na cruz, não existe paz até nos sentirmos perdoados por meio da morte de Jesus na cruz. Não existe paz até reconhecermos que somos aceitos por Deus porque Jesus morreu na cruz.

Essa paz nos torna aptos a aceitarmos a nós mesmos e aos outros. Aquele conflito danado dentro de nossa consciência acabou. Agora estamos prontos a nos tornar pacificadores no mundo cheio de conflito. A condenação e a rejeição própria são redimidas quando nós aceitamos a morte de Jesus na cruz como nossa derradeira esperança. A paz é a confirmação incontestável de que nós temos experimentado a graça de Deus. Paulo entendeu o quanto a igreja de Colossos precisava disso. O quanto eles precisavam de pensamentos certos.

Vamos analisar o restante do texto para vermos o que ele diz para nós hoje. Observem o que diz o verso 15: Cristo é a adequação suprema de Deus. A centralidade instituída de Cristo é o que Paulo queria anunciar para contestar os gnósticos que se recusavam a crer que a encarnação era a revelação verdadeira de Deus. Paulo queria estabelecer que Cristo foi Deus encarnado num ser humano. Isso anulava qualquer suposição gnóstica de Cristo ser um ser celestial imaterial. Também desmascara a simplicidade enganadora dos que dizem que são muitos os caminhos que levam a Deus. Os gnósticos estavam numa procura infindável para encontrar o verbo eterno, a sabedoria, a razão. Por isso Paulo apresentou tão claramente o evangelho. Cristo é a revelação visível do Deus invisível. É nele que reconhecemos a natureza perfeita da Deus. (continua)

Pensando certo II

19.6.17
Cidade de Colossos

Os cristãos de Colossos criam que Deus tinha vindo ao mundo na pessoa de Jesus Cristo para amar, para perdoar e reconciliar o mundo. Por isso a encarnação de Jesus Cristo virou o centro do conflito. Os gnósticos tinham um pensamento bem elaborado. Eles começaram com uma suposição e elevaram o seu raciocínio para uma verdade absoluta. Começando com a suposição de que a matéria é má, concluíram que a carne humana é má. Se Jesus fosse realmente Filho de Deus ele não poderia ter vivido na carne, como os cristãos anunciavam. Quando lemos no Credo de Niceia: Gerado, não criado, de uma só substância com o Pai, vemos o quanto os teólogos da época foram precisos em combater a ideia de que Jesus não encarnado. Eles argumentavam que Jesus não tinha morrido na cruz e muito menos ressuscitado porque ele nunca teria vivido num corpo humano mau como o nosso.

Os cristãos de Colossos estavam sendo ameaçados pela sua fé no que dizia o verdadeiro evangelho. Paulo escreve para consolá-los em suas tribulações afirmando que eles estavam debaixo da graça de Deus, que Deus não os tinha abandonado e o que Deus em Cristo havia feito por eles. Paulo queria transmitir-lhes o que o evangelho tinha a dizer sobre as questões do bem e do mal em seus dias. O tema que ele apresenta é esse: A resposta de Deus ao mal do mundo é Jesus Cristo. Deus está levantado um novo povo no meio da raça humana: a igreja. A igreja que deve ser a prova definitiva da intenção de Deus para com todos os seres humanos.

Que a graça e a paz de Deus, o nosso Pai, estejam com vocês! (Cl 1.1) Graça é palavra chave para nos explicar a natureza e a atitude de Deus para conosco. Paz é o que acontece quando aceitamos e recebemos o seu amor por meio de seu Filho. Vamos analisar essas palavras.

Graça é aquilo que nos é dado livremente em amor. Cristo e a sua cruz testificam esse amor não merecido de Deus. Nunca poderemos conquistá-lo, nunca poderemos merecê-lo e nunca poderemos ser suficientemente bons para sermos dignos dele. Graça é o amor não determinado por nós. Não há nada que possamos ter e não há nada que possamos fazer para obrigarmos Deus a nos amar. Deus nos ama porque ele é amor.

Se a vida cristã não começa pela experiência com a graça de Deus ela não tem início. Porém, se ela começa com essa experiência, o seu crescimento e amplitude não têm fim. A graça desfaz o orgulho da nossa autossuficiência e nos surpreende com o reconhecimento de que somos amados por Deus apesar de tudo que temos sido e de tudo que temos feito. Paulo queria que o povo de Colossos soubesse disso. Deus não estava longe. Deus não estava indiferente à sua criação. Deus não tinha abandonado o mundo à sua sorte.

Graça é a instigação da encarnação. Graça absoluta foi revelada na vida, paixão e morte de Jesus Cristo. A graça estava acessível ao povo de Colossos para enfrentar as frustrações, conflitos, tribulações e desafios lançados pela tirania gnóstica. A vitória de Cristo sobre as forças do mal era a vitória deles também. Eles não eram mais as vítimas desamparadas de poderes além do controle. Todos esses poderes estavam, em Cristo, debaixo do controle de Deus. (continua)

Pensando certo

18.6.17
A guerra mais sangrenta que tem sido a história da humanidade

Eu digo isso a vocês para que não deixem que ninguém os engane com explicações falsas, mesmo que pareçam muito boas. Colossenses 2.4. Leiam Colossenses 1 

As perguntas sobre nós desaparecem dentro de nós mesmos. Elas se refugiam nos labirintos das nossas mentes implorando para emergir. Na hora da crise pessoal ou de um transtorno social estas questões rompem cadeias e tomam os nossos pensamentos de assalto. As tragédias, o sofrimento, o enigma da existência humana tudo exige resposta. Nunca poderá haver paz até que estas questões sejam resolvidas. Elas trucidam o nosso intelecto com problemas encalacrados. Quais são, então, essas perguntas? Eu tenho algumas e vocês, com certeza, devem ter outras. Contudo, os incrédulos têm as mais objetivas e contundentes.

Passo a apresentar algumas delas: Como podemos crer num Deus bondoso em um mundo tão mal? Como explicar o mal se Deus é todo poderoso, sabe todas as coisas e é todo amor? Será que ele sabe da existência do mal e não liga, ou será que liga, mas é impotente para dominá-lo? Se Deus é todo poderoso, então por que não faz alguma coisa? Por que não se revela para banir o mal de uma vez para sempre? Por que simplesmente não acaba com o sofrimento humano? Se Jesus Cristo morreu para redimir o ser humano, por que ainda existe pecado nesse mundo? Se depois de dois mil anos o mundo ainda está do jeito que está, o que nos assegura de Jesus Cristo é o único caminho para Deus? Seria ele é apenas um caminho entre tantos outros?

Perguntas como estas podem desestabilizar a fé de alguns? Elas exigem de você respostas corretas? É certo que as pressões da vida, as dificuldades de relacionamento e as questões pessoais nos encurralam tanto que temos que parar para pensar. É certo também que um pensamento confuso resulta em uma vida atrapalhada. A atribulação dos nossos corações é o produto do conflito em nossas mentes. Um pensador da aniguidade disse o seguinte: Não existe nada em meu coração que não tenha existido antes na minha mente. A minha hostilidade não nasceu comigo, é fruto dos traumas da infância que estão encravados no meu subconsciente. E eu penso que é assim com você também. Não há nada em nosso coração que não tenha povoado a nossa mente, então temos que nos esforçar para pensar certo. Temos que ter a cabeça no lugar.

Emoções turbulentas, desejos interrompidos, corpos contaminados pela tensão são o resultado de um pensar erradamente. Sei que toda geração fala isso, mas nunca houve antes de nós uma necessidade tão urgente de termos pensamentos claros sobre Jesus Cristo, sobre a cruz e sobre a implicação do evangelho em todas as questões dessa vida.

O curioso disso tudo, é que os cristãos do primeiro século, esses a quem Paulo escreveu a carta, enfrentaram essas mesmas questões. Passaram-se dois mil anos, mas as perguntas são as mesmas. Contudo, a Bíblia não omite o fato de que respostas certas quase que os trucidaram. A carta do apóstolo Paulo aos Colossenses foi um esforço para encorajá-los a por em ordem os seus pensamentos, e como eles precisavam disso. Eles estavam em dificuldades enormes. Um demônio virulento tinha infestado a igreja e esse demônio de chamava gnosticismo.

Essa corrente de pensamento se instalou na cidade de Colossos. Gnosis é a palavra grega que significa conhecimento. Os gnósticos se apresentam como pessoas acima dessas questões. Eles sabem tudo: como o mundo foi criado; sabem explicar o mal; para uns deles, Deus criou o mundo e o deixou à sua própria sorte e para outros foi Deus que criou o mal. É um ou outro. Eles tinham construído uma escola filosófica de pensamento para responder essas questões. Seu pensamento era mais ou menos assim: a matéria é má; o espírito é bom; Deus é espírito, portanto, bom; o mundo é material, portanto, mau. Por isso esse mundo mau não teria como ter contato algum com um Deus bom. Era uma teoria que, embora simplista, teve uma influência grave na igreja primitiva.

Nós vemos hoje coisa parecida quando nos deparamos com o que domina o pensamento secular e religioso brasileiro que tem os seus fundamentos no Espiritismo. Dificilmente vemos uma pessoa afirmar que crê na ressurreição. A maioria, mesmo entre os cristãos, crê mesmo é na reencarnação. Dificilmente você ouve alguém dizer que Jesus Cristo é o único caminho que leva a Deus. Normalmente o que se ouve é que há outros caminhos. Isso nos dá uma ideia que como era a situação da igreja naquela época. Muito parecida com a nossa igreja de hoje. (continua)

Bandeira por bandeira

30.5.17
Quando um povo troca a bandeira de seu país pela bandeira de um partido político
Parem de fazer o que é mau e aprendam a fazer o que é bom. Tratem os outros com justiça; socorram os que são explorados, defendam os direitos dos órfãos e protejam as viúvas. Isaías 1.17

Edmund Burk, não Che Guevara, assim afirmou: O povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la. Se o termo condenado já deveria causar séria apreensão no meio secular, o que diríamos, então, se aplicado dentro dos limites do arraial de Deus? Como nos credenciaríamos a responder os novos desafios do Espírito Santo, quando sequer conseguimos aprender com a nossa própria história?

A emblemática mensagem da ilustração desta postagem é poderosa demais para ser tão somente apreciada. Ela tem um conteúdo que deveria deixar em estado de alerta todas as gerações, mas de um modo muito particular a nossa geração, sobretudo àqueles que viveram o período do nazifacismo e ao nascimento e florescer da comunismo no mundo. São as pedras clamando. É a história nos mostrando com incrível clareza o que acontece quando um povo troca a bandeira de seu país pela bandeira de um partido político, quer seja de que tendência for.

Esse modelo me traz uma inquietação muito maior quando o vejo fazer pleno sentido dentro da igreja de Jesus Cristo. As perguntas são: o que está destinado à igreja quando ela troca acintosamente a bandeira do evangelho pela bandeira de uma ideologia? O que está reservado ao povo que se chama pelo nome de Deus quando este teima em repetir períodos críticos da história que estão enfadonhamente denunciados na Bíblia, na tradição e na memória de muitos de seus membros?

É para isso que frequentamos a Escola Dominical? É nesse sentido que participamos dos eventos que promovem a educação cristã na igreja? Foi para esse fim que nos formamos nos seminários? É esta a nossa vocação: ficar nas redes sociais postando frases e ilustrações que visam enfatizar a nossa tendência política com a mais relevante dentre as demais? Que se danem PT, PMDB, PSDB e outros “Pês” que não devem, por decoro, serem aqui citados. A bandeira do evangelho foi, é e continuará sendo a nossa única e verdadeira tendência, porque quando isso não acontece, o mais trágico de nossa história jaz à nossa porta. Quando o ardor da mensagem de Jesus não é o único comprometimento de uma igreja, as portas do inferno prevaleceram faz tempo. Quando a graça de Deus não é a nossa única esperança, como disse Paulo: somos os mais infelizes de todos os homens.


Muita água ou pouca água?

7.5.17
Batismo de Jesus por João, Pietro Perugino
Aquela água representava o batismo, que agora salva vocês. Esse batismo não é lavar a sujeira do corpo, mas é o compromisso feito com Deus, o qual vem de uma consciência limpa. Essa salvação vem por meio da ressurreição de Jesus Cristo.  I Pedro 3.21

Não faz muito tempo fui alijado de uma reunião que tratava de estratégias de evangelização em uma irmandade religiosa, tal como se denominam, simplesmente por não ter sido batizado por imersão. Confesso que já fui alijado por vários outros motivos de várias outras reuniões de cunho religioso, mas desta vez doeu, porque não foi, como das outras tantas vezes, por algo que tenha dito ou por me mostrado indevidamente favorável a uma doutrina ou a um pensador.
Nunca iria imaginar que num tempo em que as igrejas estão voltadas para o seu crescimento, que algo já não tão relevante nas diferenças denominacionais, como a forma de batismo, pudesse ainda ser fator discriminatório, ainda mais em uma reunião que visava angariar pessoas para o Reino. Foi aí que me deparei com este enigmático texto da primeira carta de Pedro, que trata especificamente da finalidade da água do batismo.
Argumentos em favor do batismo por aspersão nunca me faltaram. Para mim, o mais impactante deles vem de John Wesley, quando diz que se não precisamos nos encharcar de vinho e nem nos empanturrarmos de pão durante a ceia para esta venha a ter validade. Portanto, não é a quantidade de água que sustentará a eficácia de outro sacramento, no caso o batismo. Mas vejo que aqui Pedro desça mais fundo nessa questão, tão fundo que chega ao quinto de inferno para nos expor o seu pensamento.
Embora nunca tenha sido favorável a ideia de que o batizando deve escolher a forma como que quer se batizado, pois deveria considerar a prática comum na igreja da qual deseja ser membro, nunca considerei inválida ou menos eficiente qualquer uma das duas outras formas que a igreja utiliza: aspersão e derramamento. Para mim se alguém foi batizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo sacramentou o seu batismo, não importando o local e nem quem serviu de oficiante.
De volta ao enigmático texto de Pedro vou me atrever a fazer algumas considerações.
Pedro vem falando sobre a descida de Jesus ao mundo dos mortos antes da sua ressurreição. Segundo a teologia herdada dos Judaísmo, o homem morre e vai para o Xeol, o mundo tenebroso dos mortos que ficava abaixo do plano conhecido como terra dos viventes. Lá podem ser encontrados os contemporâneos de Noé, a quem o patriarca anunciara a mensagem de Deus, mas que não lhe deram ouvidos e por isso morreram. Porém, Noé e sua família ficaram a salvo das águas, isto é o antítipo da imersão batismal, pois prefigura sim a passagem deles pelas águas, mas por meio da arca. O dilúvio simboliza a economia da antiga aliança, em que se exigia complicados rituais de purificação exterior.
Entrando agora no nosso texto base, verificamos que Pedro nega qualquer ligação do batismo com as parcas limitações banho físico que utilizamos para eliminação da sujeira exterior acumulada. A eficácia do batismo, independente da quantidade de água utilizada, se dá na regeneração total do corpo e da alma, propiciando ao batizando abertura a uma nova consciência voltada para Deus.
Deixando de lado o modismo gospel, daqueles que fazer questão de serem batizados ou mesmo rebatizados por imersão nas águas, e de alguns mais exacerbados que fazem questão de que o sacramento se dê nas águas do rio Jordão, não encontrei nas Escrituras motivo algum para a exigência dessa prática. Quero ressalvar, no entanto, a tradição da igreja. Esta sim deve ser o parâmetro para que um tipo de batismo seja aplicado, e não porque seja mais eficaz do que qualquer outro. 

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