A Bênção Aarônica III

O rosto resplandecente de Moisés, autor não identificado
O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; o Senhor levante sobre ti o seu rosto, e te dê a paz. Números 6.24-26

O Hino 460 do Hinário Evangélico tem um estribilho interessante: Metade da glória celeste jamais se contou ao mortal. Como o autor conseguiu quantificar algo que nem ele mesmo declara conhecer a grandeza? Logicamente que ele faz uso de uma licença poética para cantar o que é reconhecidamente indizível. Pois é precisamente neste sentido que irá caminhar qualquer reflexão que se faça pelo terceiro grupo de bênçãos das petições de Aarão.

A bênção leva o nome do primeiro levita autêntico, que coincidentemente também é irmão de Moisés, alguém que, segundo a Bíblia, foi a única pessoa que passou pela experiência de ter a glória de Deus refletida em seu rosto: Ex 24.29-30 - Ao descer do monte Sinai com as duas tábuas da aliança nas mãos, Moisés não sabia que o seu rosto resplandecia por ter conversado com o Senhor. Quando Arão e todos os israelitas viram Moisés com o rosto resplandecente, tiveram medo de aproximar-se dele.

Mesmo sabendo que a experiência de Moisés jamais será repetida com igual intensidade, muito se tem para aprender com este texto. Em primeiro lugar que a glória de Deus não é uma sensação para ser percebida por aquele que a reflete, e sim pelas pessoas à volta de quem a reflete. A pessoa que Deus escolhe para resplandecer os seu rosto não experimenta manifestações extáticas e muito menos sensação de poder. Não há como saber quando e nem onde somos escolhidos para que as pessoas vejam o nosso rosto refletindo o rosto de Deus. Por isso é uma bênção que traz consigo o maior comprometimento e a mais plena responsabilidade, pois temos que estar sempre conscientes de que Deus pode nos usar para refletir o seu rosto de amor, justiça e verdade, bem como estarmos atentos para reconhecê-la quando refletida em outro rosto qualquer.

Outro dado importante é sabermos que a medida exata do resplandecer da glória de Deus está situada entre o espanto e o medo. É algo que deixa perplexo qualquer e que vai fazer com que muitos desviem o olhar por medo da sua grandiosidade.

Mas a bênção que encerra a oração é uma palavra das mais mal usadas e mais mal interpretadas da nossa língua: a palavra paz: e dê a paz. A maioria de nós não faz ideia da complexidade de conceitos que esta palavra de três letrinhas encerra, pois a mantém relacionada estritamente à palavra guerra, como se paz fosse apenas a ausência de guerra. Mas paz fala muito mais de salvação do que de sossego ou tranquilidade. Não dá para enumerar a variedade de sentidos que o shalom hebraico quer transmitir, mas com toda a certeza, aquilo que consideramos ser a verdadeira paz tem significado secundário nesta língua, e, obviamente, nesta oração.

Para que se tenha uma noção básica do termo paz é preciso recorrer a Paulo nas saudações que ela faz às igrejas que pastoreou, pois nela está contida toda a Bênção Aarônica: graça e paz. A palavra graça, no Primeiro Testamento, vem da expressão hebraica eleos, que engloba toda a misericórdia e cuidado, muito embora Paulo tenha usado a palavra grega charis, a qual se refere muitas vezes como a gloriosa riqueza com que Deus dispensa a sua graça. Tudo isso mostra que a saudação de Paulo tem profundas raízes na Bênção Aarônica. Por isso Paulo a usa como abertura de quase todas as suas cartas.

Imaginem a razão pela qual o apóstolo dos gentios prefira se dirigir ao povo que não conhecia as tradições hebraicas e muito menos a Bênção Aarônica começando a conversa justamente com esta saudação. Imaginem agora a alegria dos gentios ao saberem que estão debaixo da mesma bênção que foi dispensada por Deus desde os primórdios do Plano de Salvação. Depois tentem imaginar o quanto essa bênção pode anular doutrinas enganosas, o quanto pode ensinar sobre petições erradas e como pode reverter pecados inconscientes se voltar a ser proferida dominicalmente em nossos cultos.

0 comentários. Faça o seu:

 
Copyright 2012 Amós Boiadeiro. Powered by Blogger
Blogger by Blogger Templates and Images by Wpthemescreator
Personal Blogger Templates