Respostas e estímulos

Ser ou não ser, autor não identificado
Eu não entendo o que faço, pois não faço o que gostaria de fazer. Pelo contrário, faço justamente aquilo que odeio. Romanos 7.15

 Ainda sob o impacto do filme Experimentos de 2015, me vi inclinado a contestar mais uma vez a forma de pensamento que já se tornou cláusula pétrea em qualquer análise que se faça sobre todo tipo de assunto relacionado à fé: Nada matou mais pessoas até hoje no mundo do que a religião.

O primeiro ponto a ser observado é que a religião, por si só, não tem poder algum para executar qualquer tipo de ação, seja ela boa ou má. Uma observação lógica, segundo os profetas bíblicos, quando diziam que os ídolos têm boca, mas não falam; tem olhos, mas não veem; tem pernas, mas precisam ser carregados. E o experimento mostrado no filme nos dá um bom fundamento para esta conclusão. Trata-se do seguinte: duas pessoas concordam em participar de uma experiência recebendo uma remuneração antecipada. Uma delas seria o professor que faria de uma sala fechada perguntas à outra, aqui denominada o aluno, e que estaria em outra sala também fechada. Para cada resposta errada o professor teria a ordem de aplicar uma punição por meio de um choque elétrico que iria aumentando gradativamente de intensidade, até chegar a uma descarga letal. Sem ter o conhecimento de que o aluno é um ator que finge receber o choque, pois é da equipe que executa o experimento, o professor segue as instruções até o fim, ainda que imaginasse que a partir de determinada voltagem o aluno pudesse estar desmaiado ou morto.

Foram testadas pessoas de várias classes sociais, de várias nacionalidades, de várias religiões e de “ambos” os sexos. Nenhum desses elementos foi relevante para que o executor da sentença tomasse consciência do mal que estava praticando. Todas as pessoas que passaram pelo experimento obedeceram a ordem mesmo que essa lhe parecesse absurda. Qualquer uma delas poderia ter se recusado a continuar sem sofrer punição, uma vez que já havia sido remunerado pela sua participação. Não havia qualquer outra imposição, a não ser uma ordem verbal, e mesmo assim a tortura seguiu seu curso.

É justamente aqui que contesto a afirmação de que é a religião que mata, por mais que as regras que compõem o seu credo sejam explícitas nesse sentido. O que mata mesmo é a pré-disposição da pessoa em executar o mal. O que mata é a hostilidade incontida que cada ser humano carrega dentro de si. Quase dois mil anos antes desse ou de qualquer outro experimento da psicologia, da sociologia ou da antropologia o apóstolo Paulo detectou essa compulsão para o mal dentro de si mesmo. É o que ele revela em Romanos 7. Paulo dizia que queria fazer o bem, mas não fazia. Não queria fazer o mal, mas fazia. Ele se sentia uma pessoa dividida entre a sua vontade consciente e a sua vontade real. O curioso é que ele não creditou essa compulsão a qualquer estímulo externo. Ele não disse que era uma tentação de demônios, de espíritos obsessores, de influência do que aprendera na escola rabínica ou conclusão tirada da sua experiência cristã. Ele a chamou simplesmente de pecado. Observem que estamos falando de Paulo, e não de Saulo, como era conhecido antes da sua conversão, quando caçava, prendia e matava pessoas que apostatam da fé judaica para seguir a nova religião cristã.

O pecado, mesmo que seja uma concepção do pensamento judaico-cristão, é algo que se define na Bíblia por separação, e separação é um fato universal, pois faz parte da vida de todo mundo. E o pecado, longe do que habitualmente se pensa, não é um ato isolado e sim um estado de coisas que leva o individuo a pecar, ou, na linguagem mais popular, a praticar o delito.

A fé cristã tem um antídoto para essa compulsão, e é algo que não está ligado diretamente a esta ou aquela religião, pois não se trata de regulamentos pré-estabelecidos de fazer ou não fazer, e sim de uma tomada de consciência. Aquilo que Paulo chamou de A Mente de Cristo. (continua) 

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