A Prática Homilética de John Wesley II

Wesley pregando ao ar livre
Conselho aos pregadores, 1º de agosto de 1786 (Minutes, 193-34)
1. Sempre conclua o culto em cerca de uma hora.
2. Nunca grite.
3. Nunca se apoie ou bata na Bíblia.
4. Onde quer que você pregue, reúna a Sociedade.
[…]
7. Nunca pregue um sermão fúnebre a não ser por uma pessoa eminentemente santa; nem, ainda, sem consultar o Assistente. Não pregue por dinheiro. Cuidado com panegíricos, particularmente em Londres.
[…].

À luz dessas regras, procuraremos abordar a própria prática de Wesley.
1. Quem deve pregar?
Vejamos quem, no entendimento de Wesley, estaria apto para pregar.

Os pregadores
Segundo consta, Charles Wesley era muito mais exigente e severo na seleção de pregadores do que seu irmão John. Conta-se que certa vez, aborrecido com o fato de alguém, “sem o auxílio de Deus”, ter feito de um alfaiate pregador, ele teria dito que estava pronto, “com o auxílio de Deus”, a fazer do pregador novamente um alfaiate. John, entretanto, estava preocupado em ter pregadores em número suficiente para atender às demandas das sociedades metodistas e, portanto, era mais tolerante. Ele chegou a recomendar a Charles que “não reprovasse os jovens sem muita necessidade” e dizia: “entre os dois [a graça ou os dons], eu prefiro mais a graça do que os dons”.
Não obstante, John estaria longe de admitir qualquer pessoa, pois sabe-se que teria ordenado a “expulsão de todos os que andavam desordenadamente, efeminados, intrometidos e levianos”, mas advertira Charles de que “eles precisavam de pelo menos quarenta pregadores ou ‘deveriam deixar algumas das sociedades’”.

Os pregadores, portanto, eram examinados criteriosamente antes de serem admitidos como tais. Eles também deveriam permanecer coerentes em seu comportamento e convicções teológicas, de acordo com os princípios estabelecidos pelos irmãos Wesley. Portanto, além do exame inicial, eram examinados frequentemente, para averiguação de sua constância e fidelidade. John e Charles se reuniram em conferência com os pregadores em várias ocasiões (somente em 1751, foram três encontros) para examiná-los a respeito da “graça, dons e frutos de cada um deles”.

Os pregadores leigos
O surgimento de pregadores leigos no metodismo se deu mais pela necessidade do que por planejamento. Na confederação das sociedades em desenvolvimento, os Wesley dependiam dos líderes locais dentre os grupos para manter as sociedades funcionando na sua ausência. Devido à controvérsia entre o movimento das sociedades e a tradição religiosa na Inglaterra – dividida entre os segmentos calvinistas, morávios e wesleyanos –, os Wesley estavam perdendo os clérigos aliados. Enquanto isso, iam ganhando assistência leiga. A carência de obreiros clérigos levou à admissão dos pregadores leigos.

Wesley ficava irritado com o fato dos bispos anglicanos se recusarem a ordenar os pregadores da sua conexão, porque os considerava melhores preparados do que os ministros clérigos. Não obstante, Wesley advertiu os metodistas quanto a não chamarem os pregadores leigos de ministros.

As mulheres
Segundo Heitzenrater, “nenhum dos pregadores itinerantes ou locais era mulher, entretanto, algumas mulheres estavam pregando e às vezes fora das reuniões de suas sociedades locais”. Embora [Wesley] tenha dito não achar “errado que as mulheres falassem em público desde que falem pelo Espírito de Deus”, aconselha a Sra. Grace Walton, em 1761, a restringir suas falas a “pequenas exortações”, procurando “manter isso o mais longe possível do que é chamado de pregação. Portanto, nunca tome um texto; nunca fale em um discurso contínuo sem alguma parada, cerca de quatro ou cinco minutos”. E, em 1761, Wesley teria dito especificamente a Sarah Crosby que “os metodistas não permitem que as mulheres preguem”. Entretanto, Wesley estava disposto a fazer concessões às regras comuns da disciplina. Contestado por Mary Bosanquet, na primavera de 1771, Wesley aceitou os argumentos que defendiam o metodismo como um “chamado extraordinário”, reconhecendo que não apenas a pregação leiga, mas também que algumas mulheres “têm um chamado extraordinário para isso [falar em público], e ai daquela que não o obedece” (Documents, 4:171). Em 1787, Sarah Mallet recebeu de Joseph Harper, Assistente de Norwish, autorização para pregar naquela área. Wesley a aconselhava e encorajava frequentemente em sua tarefa.

Notamos, portanto, que Wesley estava disposto a superar suas próprias regras, na medida em que iam crescendo sua compreensão e experiência no serviço do Evangelho.

Onde pregar e para quem?
Wesley recomendava que o pregador somente deveria apresentar um sermão se houvesse pelo menos 20 pessoas presentes ao culto, ou à reunião – isso, dizia ele, para não baratear o Evangelho.

Os destinatários
Nas Large Minutes, lemos: “Você não deve fazer nada a não ser salvar almas. Portanto, gaste e seja gasto nesse trabalho; e vá sempre não apenas àqueles que querem, mas àqueles que mais necessitam de você.”

Esse parecer a respeito dos destinatários, segundo o qual os preferenciais não são os que querem, mas os que precisam, fez com que o metodismo alcançasse uma multidão de pessoas até então desprezadas pela Igreja da Inglaterra: os pobres, os prisioneiros, os operários, os trabalhadores das minas, as crianças, as viúvas, os desempregados, os enfermos, os famintos, os endividados, os sem-teto, os mendigos, enfim, o povo que vagava pelas ruas, e pelas catacumbas de um mundo grosseiro, sujo e violento.

Wesley assim se expressou na carta escrita nos anos 1770 a seu irmão Charles: ­“Sua tarefa, bem como a minha, é salvar almas. Quando assumimos a ordem sacerdotal, nos comprometemos a fazer disso nossa única ocupação. Penso em cada dia perdido que não foi empregado (principalmente) nesse mister. Sum totus in illo [a isto me comprometo completamente]”.

Entretanto, pela resistência da parte da igreja oficial em relação a seu movimento, Wesley não somente não foi comissionado para uma paróquia, como muitas vezes impedido de exercer seu ministério dentro das fronteiras da própria Igreja Anglicana. Desde muito cedo, John Wesley tomou consciência de que sua missão não poderia ser completa se estivesse limitada pelas convenções típicas do sistema clerical inglês.
Isto forçou Wesley a buscar novos campos “paroquiais”, o que o levou à grande descoberta da pregação ao ar livre. Em 1739, quando foi criticado por pregar fora dos templos nos limites de uma das paróquias de Bristol, dirigiu-se ao bispo Joseph Butler dizendo que ele não tinha um comissionamento específico para uma paróquia em particular, mas: “uma dispensação do evangelho me foi confiada [I Co 9.17], e ‘ai de mim se eu não pregar o evangelho’ [I Co 9.16], onde quer que esteja no mundo habitado”.

Esta é a base do seu princípio, “eu considero todo o mundo como minha paróquia”. E, nas palavras de Heitzenrater, Wesley não se considerava limitado pelas fronteiras e métodos da paróquia convencional.

Os locais de pregação
Assim, pregar além das fronteiras paroquiais e eclesiásticas, se tornaria uma característica primária do reavivamento metodista. Ele mesmo explicou que não tinha intenção de pregar ao ar livre até que os púlpitos se foram fechando para ele. As grandes massas de gente também não gozavam de bom conceito para os irmãos Wesley. Charles se referia às pessoas da multidão como “bestas selvagens”. Em sua Short History of the People Called Methodists, Wesley assim expôs tal processo: “Sendo assim excluído das igrejas e inconformado com o silêncio, restou-me somente pregar a céu aberto; o que fiz a princípio não por escolha, mas por necessidade; desde então, não obstante, eu tenho encontrado razões abundantes para glorificar a sábia providência de Deus pela criação de um meio para que miríades [sic] de pessoas que nunca entraram em nenhuma igreja, nem sequer gostariam de fazê-lo, pudessem ouvir aquela palavra na qual encontrariam o poder de Deus para a salvação.

O incentivador de Wesley para a pregação a céu aberto foi George Whitefield. A princípio, Wesley achou aquele um “estranho modo de pregar”. John e Charles chegavam a considerar um sacrilégio alguém converter-se fora do contexto de um culto realizado dentro de uma igreja.

Embora continuasse a pregar em algumas igrejas paroquiais, assim como na capela da prisão de Newgate e no asilo de Lawford’s Gate, Wesley passou a empenhar-se no exercício da pregação ao ar livre. “Qualquer lugar aberto era adequado, desde que o povo pudesse se reunir e o pregador pudesse ser ouvido.” Sua intenção era ir aonde o povo estivesse. Assim, logo descobriu os cemitérios, ao lado de igrejas que serviam de concha acústica; as praças do mercado que funcionavam como anfiteatros rodeados de prédios; e mesmo algumas árvores cuja forma servia para amplificar o som; também as escavações de minas, muito apropriadas para acomodar grandes auditórios. Como explicara a John Smith, ele fez mais em três dias pregando junto à tumba do seu pai em Epworth do que pregando por três anos em seu púlpito.

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