A Prática Homilética de John Wesley III

Wesley e a religião do coração
Os detalhes tecnológicos
Wesley tornou-se fascinado pela técnica (e pela “tecnologia”) da pregação ao ar livre. Ele sempre se colocava acima da multidão, fosse subindo em uma cadeira ou em um túmulo. Ele geralmente usava um púlpito portátil feito de madeira. Ele procurava lugares nos quais pudesse falar para um grande número de pessoas e ser ouvido.

Com essa prática, Wesley conseguia pregar para um número admirável de pessoas (segundo seu registro, no primeiro mês de sua experiência de pregar no campo, ele havia atingido 47.500 pessoas – nos meses seguintes, esse número cresceu ainda mais). Entretanto, se compararmos o número de pessoas que realmente eram arroladas nas sociedades, podemos concluir que tal experiência homilética campal não produzia tantos resultados assim. De acordo com Heitzenrater, “na maioria das vezes em que as pessoas receberam a remissão dos pecados ou foram confortadas, isso aconteceu nas pequenas reuniões de grupos, não nos grandes cultos ao ar livre”.

Assim, em 1763, depois de ter se desiludido com a possibilidade de poder se dedicar exclusivamente à pregação ao ar livre sem a preocupação de formar sociedades, concluiu que “pregar como um apóstolo, sem reunir aqueles que foram despertados e treiná-los nos caminhos de Deus, é como entregar crianças nas mãos de assassinos”. A pregação sem formação de sociedades, sem disciplina nem ordem ou conexão resultou em que “nove em dez daqueles que haviam sido despertados estejam agora mais adormecidos do que nunca” (Journal and Diaries IV – Works, 21:424 – 25 de agosto, 1763).

3. Quando e com que frequência pregar?
As pregações diárias, semanais e itinerantes
A pregação metodista mais notável, por sua singularidade, era aquela que acontecia diariamente às 5 horas da manhã, antes do povo ir para o trabalho. Wesley dizia que a pregação da manhã fazia bem para o corpo e para a alma. Nisso Wesley foi rigorosamente pontual.

Quanto ao tempo da pregação, Wesley não foi tão fiel aos seus preceitos assim. A regra estabelecida nas Minutes era: “certifique-se de começar e terminar precisamente no tempo estipulado”, isto é, no intervalo de uma hora. Entretanto, em muitas ocasiões, Wesley quebrou suas próprias regras. Há vários relatos seus dando-nos conta de que algumas vezes ele ultrapassou o tempo em uma, duas ou mesmo três horas. Isto não nos deixa dúvidas de que, no coração de Wesley, as regras estavam em segundo plano em relação à “ação do Espírito”, pelo menos neste caso.

Também quanto à frequência com que se deve pregar, Wesley não se enquadra em seus próprios princípios. A regra determinava que os pregadores não deveriam pregar mais do que duas vezes por dia durante a semana e três vezes nos domingos. Ele chegou a criticar duramente aqueles que pregavam três vezes, porque estariam comprometendo o bem estar físico e mental, tanto do pregador quanto dos ouvintes. “Prega tanto quanto puderes, mas não mais do que puderes”, escreveu ele a Telford em 1775. Não obstante, por seus diários, sabemos que não foram raras as vezes em que ele mesmo pregou quatro ou cinco vezes num único dia. Segundo Charles W. Clay, na introdução aos Trechos do Diário de João Wesley, Wesley teria pregado mais de 42.000 sermões, tendo viajado mais de 400.000 quilômetros a pé, a cavalo, de carruagem e de navio. Felizmente, para Wesley, ele gozava de boa saúde e de um físico resistente, apto a enfrentar as intempéries próprias das suas árduas jornadas.

4. O que pregar?
Temas recorrentes
Em vários lugares Wesley define a missão do metodismo como sendo prioritariamente “espalhar santidade”. Ele sintetiza as principais doutrinas do movimento numa tríplice relação que considera conter todo o restante: arrependimento, fé, e santidade – o primeiro, arrependimento, é como o pórtico da religião; a segunda, a fé, é como a porta; e a terceira, a santidade, é a própria religião. A isto, John Wesley chama de “as grandes doutrinas bíblicas”.

Os chamados sermões evangelísticos (gospel sermons), muito populares no seu tempo, não eram bem vistos nem bem-vindos entre os metodistas. Wesley considerava esse tipo de pregação como sendo “uma rapsódia desconectada de palavras sem significado”.

Em seus “Pensamentos sobre os ministros do evangelho”, Wesley define quem são os verdadeiros pregadores do evangelho: Não basta falar dos decretos eternos – uma crítica aos calvinistas – para que alguém tenha o direito ao título de ministro do evangelho; também não basta falar apaixonadamente sobre a justiça e o sangue de Cristo, se não proclama o dever do crente ao mesmo tempo que os sofrimentos de Cristo; não é ministro verdadeiro qualquer que trate acerca das promessas de Deus sem referir-se ao terror da lei, à ira de Deus contra a impiedade e a injustiça dos homens – “estes são traficantes de promessas não são ministros do evangelho”; tampouco é ministro qualquer que pregue a justificação pela fé, se não for além e insistir também na santificação, sobretudo na produção dos frutos da fé, na santidade universal – se não declarar todo o conselho de Deus, não é um ministro do evangelho; então, quem é um ministro do evangelho em sentido completo e bíblico da palavra? Aquele, e unicamente aquele, de qualquer denominação, que anuncia todo o conselho de Deus, que prega todo o evangelho, incluindo a justificação e a santificação, como meios para se chegar à glória. Aquele que não separa o que Deus uniu, senão que anuncia tanto a Cristo que morreu por nós, como a Cristo que vive em nós. Aquele que constantemente aplica estas verdades ao coração dos ouvintes, estando disposto a dar-se e a ser consumido por eles, tendo a mente de Cristo e seguindo seus passos sem desviar-se. Aquele, e só aquele, pode ser chamado verdadeiramente um ministro do evangelho.

Textos preferidos
Embora afirmasse que o verdadeiro ministro deveria pregar todo o conteúdo do evangelho, Wesley tinha os seus textos preferidos, aos quais recorria reiteradas vezes (por exemplo: II Co 8.9; Is 55.7; Ef 2.8; Hb 12.28). O texto de Efésios 2.8 foi utilizado 34 vezes nas pregações entre o ano 1749-54 (cinco anos).

A linguagem dos seus sermões era profundamente influenciada pelo texto bíblico. De fato, o universo que serve de fonte básica para seu vocabulário, imaginário, e mesmo de fonte de ilustração, é o mundo bíblico: ele representa a matriz da sua cuidadosa abordagem dos materiais oriundos de outras fontes.

Wesley recomendava aos pregadores que escolhessem textos fáceis para pregar e que permanecessem no texto escolhido. Esta seria outra regra que Wesley nem sempre teria seguido. No sermão “Quase Cristão” (“The Almost Christian”), ele se desvia do texto, se não o torce completamente.

Sermões repetidos
Havia uma ideia corrente, na época, de que os velhos sermões deviam ser queimados a cada sete anos. Wesley considerava essa uma péssima ideia. Ele dizia que seria impossível fazer melhor agora certos sermões escritos há vinte ou trinta anos. Sabe-se que Wesley pregou sobre Marcos 1.15 (“O reino de Deus está próximo, arrependei-vos e crede no evangelho”) pelo menos 190 vezes. De fato, antes de serem escritos em versão definitiva e publicados, seus sermões eram pregados inúmeras vezes, corrigidos, revisados, ampliados até que estivessem em um formato adequado para ser impresso. Ao que parece, como Whitefield, Wesley tinha consciência de que a linguagem oral era diferente da escrita e que, para se obter o mesmo efeito, elas precisavam ser arranjadas diferentemente.

5. Como pregar?
A preocupação com a formação do pregador (quem está apto?)
Em “Um Discurso aos Clérigos”, Wesley trata da questão “Que classe de homens [pregadores] devemos ser?”. Como provedores da Igreja de Deus, com relação aos dons, os ministros devem ter, (1) primeiramente, um bom entendimento, uma clara apreensão, um juízo sólido e uma capacidade de raciocinar com certa precisão; (2) em segundo lugar, tenha vivacidade e facilidade de pensamento; e (3), em terceiro lugar, ter uma boa memória. Com relação aos conhecimentos adquiridos, ter um bom cabedal de conhecimentos: (1) primeiro de seu próprio ofício, da grande responsabilidade que recebeu e da importante tarefa para a qual foi chamado – isto é, consciência a respeito do que consiste sua tarefa; (2) conhecimento das Escrituras, o significado literal de cada palavra, versículo e capítulo e ser capaz de deduzir os corolários apropriados, especulativos e práticos de cada texto para resolver as dificuldades que surjam e para responder às objeções que possam existir, e fazer aplicação adequada aos ouvintes; (3) em terceiro lugar, ter conhecimento das línguas originais para poder compreender as passagens mais controvertidas; (4) em quarto lugar, ter conhecimento da história profana: os costumes antigos, a cronologia e a geografia; (5) em quinto lugar, ter algum conhecimento das ciências principalmente a lógica, a arte do bom sentido, e compreender as coisas corretamente, julgar com a verdade a raciocinar de forma convincente, bem como ter uma ligeira familiaridade com a metafísica, a filosofia natural, a geometria; (6) em sexto lugar, ter conhecimento dos Pais da Igreja, dos mais autênticos comentaristas das Escrituras, especialmente dos que escreveram antes do Concílio de Nicéia, mas também os que seguiram: São Crisóstomo, Basílio, Jerônimo, Agostinho e, sobre tudo, o homem de coração quebrantado, Efrem o Sírio; (7) em sétimo lugar, o conhecimento do mundo, um conhecimento dos humanos: suas máximas, temperamentos e costumes, tal e qual se apresentam na vida real; (8) em oitavo lugar, a prudência, que considera todas as circunstâncias de alguma coisa (quem, que, onde, com que meios, por quê, como, quando); (9) em nono lugar, o clérigo deve ter bons modos, comportamento e conduta adequada: a cortesia de um cavalheiro unida à de uma pessoa bem educada, uma voz clara, forte e musical, eloquência tanto na pronúncia quanto nas atitudes. Aqueles que se entregam com entusiasmo a seu trabalho em relação a estes dons, muitos dos quais não se podem alcançar sem um considerável esforço, contam com a promessa da ajuda daquele que é a fonte de todo o conhecimento.

A preocupação com a forma da pregação
Seu estilo é absolutamente lógico. O arranjo do seu material discursivo obedece a um plano homilético rigoroso, com proposições claras e argumentação consequente, coerente, exaustiva… (Apenas a título de exemplo, recomendamos a observação do Sermão 4 ).

A preocupação com a elocução da pregação
Sobre a qualidade da voz e o uso dos gestos na pregação, a pesquisa de Heitzenrater nos oferece importantes elementos de para análise. Wesley procurava falar justamente, compreensivelmente e claramente. “Eu preparo verdades simples para o povo simples”.

Clareza é particularmente necessária […] porque estamos instruindo pessoas de pouco entendimento […]. Deveríamos usar constantemente as mais comuns, as menores e as palavras mais fáceis que nossa linguagem possa oferecer (desde que sejam puras e apropriadas).

Heitzenrater comenta ainda que Wesley se opunha à oratória rebuscada e floreada tão comum nos púlpitos ingleses; bem como às especulações filosóficas e às palavras e termos técnicos difíceis, não obstante utilizasse frequentemente citações em latim, para não falar do hebraico e do grego abundantes em seus sermões.

Quanto à voz, Wesley teria recomendo a John King, no ano de 1775: “nunca fale acima do volume natural da sua voz”. Wesley, portanto, condenava a pregação gritada: “fale com todo seu coração, mas com voz moderada”.

John Hampson, o primeiro biógrafo de Wesley, escreveu: “a maneira de Wesley era graciosa e acessível – sua voz não era alta, mas clara e natural; seu estilo simples, perspicaz, e admiravelmente adaptado à capacidade dos seus ouvintes”. De qualquer forma, em termos de voz e de locução,
Wesley não era um pregador da mesma categoria de um Whitefield, que podia impressionar as maiores multidões e, segundo o ator Garrick, podia encharcar seus ouvintes de lágrimas apenas com sua pronúncia da palavra “Mesopotâmia”.

Quanto aos gestos, recomendava: “Evite palhaçadas. Seja Cortez com todos”; “cuidado com qualquer exagero ou afetação, mesmo nos gestos e na pronúncia”. Sobre pronúncia e gestos, Wesley chegou a escrever um panfleto, no qual recomendava que não se devia abrir os braços mais do que a distância de um pé do outro. Não é de se admirar, portanto, que um observador da pregação de Wesley em Lincolnshire tivesse registrado: “Há tão pouco esforço no pregador que, a não ser por algum ocasional levantamento da sua mão direita, ele parecia ser uma estátua falante”.

Os pregadores deveriam, ainda, ser não apenas “modelos de limpeza” mas também “modelos de diligência”: Wesley recomenda que cortem o cabelo, tirem os piolhos, curem as sarnas […] Outras recomendações se seguem…

Seja como for, para Charles, Wesley teria conseguido “juntar o que estivera por tanto tempo separado: conhecimento e piedade”. Reitzenrater relata que o professor J. H Liden, depois de ter ouvido Wesley pregar exclamou: “Ele tem a aparência do pior dos sacerdotes suecos, mas ensina como um bispo […]. Ele é a personificação da piedade, e parece para mim como uma representação viva do amoroso Apóstolo João”.

Conclusão
Que contribuições a prática homilética de Wesley pode dar para a pregação do evangelho no contexto da América Latina atual? Talvez possamos arriscar aproximações entre os desafios enfrentados há três séculos e os que enfrentamos hoje diante das contradições próprias da tarefa homilética:

A formação (cultura geral) do pregador/a e o número crescente de vocações para o ministério pastoral.

Na América Latina observamos o crescimento do número de vocações para o ministério pastoral. Já não padecemos da falta de obreiros, como em outras épocas. Que implicações têm isso para o processo de admissão à ordem? Justifica-se, ainda, a ordenação de pregadores com formação leiga? Qual seria seu papel, diante de um quadro cada vez maior de pastores academicamente capacitados?

A complexidade da comunicação com destinatários tão diversificados e o papel das mulheres que, sendo maioria, são discriminadas e submetidas como minoria.

Na América Latina, a membresia das igrejas metodistas é composta majoritariamente por mulheres. O reconhecimento do seu ministério, clerical ou laico, bem como sua aceitação, faz parte do amadurecimento de um processo que teve início há 300 anos, com os primeiros metodistas.
A agenda religiosa, social e política, imposta por uma cultura globalizada.

Quem seriam, hoje, na América Latina, os que mais precisam da atenção e da pregação metodista? Aqueles e aquelas, vítimas da violência e do tráfico, da miséria e da fome, da discriminação e do preconceito, do desemprego e da angústia, da enfermidade e da dor…?

As possibilidades e contradições das novas tecnologias bem como o processo de mercantilização da fé e do comércio de bens simbólicos frente à essência metodista do viver a graça.

A experiência acústica do nosso tempo passa pelo avanço tecnológico dos Meios de Comunicação de Massa. Como podemos atualizar a prática de Wesley e levar a graça aos povos da América Latina dominados pelos Meios a serviço do lucro e do mercado?

A poluição temática, o lixo teológico, a superficialidade e a falta de qualidade das informações e das prédicas pronunciadas dos púlpitos eclesiais e virtuais, transmitidas por toda essa aldeia global.
A necessidade da sistematização da produção homilética que demonstre compromisso com as futuras gerações

Embora a pregação tenha um papel proeminente no contexto eclesial latino-americano, pouco se tem escrito e produzido a respeito. Faltam análises criteriosas, faltam pesquisadores que se empenhem na compreensão, e interpretação do fenômeno homilético contemporâneo.

Estas questões, entre outras, continuam a nos desafiar. Pelo menos podemos pensar que temos pela frente outros trezentos anos para encontrar as respostas (ou reformular as perguntas).

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