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Depois do temporal (final)

Elias arrebatado ao céu, Giuseppe Angeli (1712-1798)
O que você está fazendo aí? Esta é uma pergunta que não somente incorpora várias outras, como também se apresenta de forma atemporal. Deus simplesmente está lhe perguntando: o que você fez até agora? O que você está fazendo agora? E o que você vai fazer daqui para frente? A primeira questão temporal diz respeito à instalação de Jezabel através de uma aliança expressamente proibida por Deus. Na realidade, as alianças políticas de Israel sempre foram desastrosas. Uma frase que foi criada pelos profetas para explicitar este recorrente erro dos governantes, serve para nos dizer o quanto às alianças que não estão de acordo com a vontade de Deus são prejudiciais: Foi buscar socorro no Egito. Israel foi buscar socorro em quem não podia socorrê-lo, e que na realidade passada já mostrara perigosamente traiçoeiro. 


Eu não gosto nada dessa expressão, mas para Acabe ela se aplica bem: Trouxe o diabo para dentro de casa. O clima do país, que já não era bom pelos sucessivos governos equivocados, tornou-se exponencialmente ruim com a chegada de Jezabel. O que você fez que permitiu esta aliança, Elias? Por que você deixou a situação piorar tanto? Você era um profeta de Deus, e os profetas são chamados para confrontar estas situações. Permitir que o temporal venha e se instale. O primeiro grande erro. O que você fez, Elias?

A segunda questão neste episódio são as medidas paliativas. Desafiar os profetas de Baal pode ter tido muito impacto, pode ter mostrado muita determinação, pode ter criado um clima de expectativa, mas resultado prático, nenhum. Elias pode ter se livrado de algumas consequências, mas a verdadeira causa ainda estava lá. Matou uns diabinhos, mas o Satanás ainda estava vivo e atuante. O que dizer da decisão de fugir para longe? Eu gosto muito do texto em que Deus constitui Jeremias profeta sobre as nações. Ele diz para este profeta o seguinte: Não tenhas medo dos teus adversários, senão eu te farei ter medo deles. Deus está nos dizendo: Você não conhece o medo. Elias também não conhecia até ficar frente a frente com Deus.

Para quem pensava que o terror instaurado por Jezabel era grande, testemunhar as forças da natureza agindo sob o comando de Deus era demasiado forte. Nem mesmo a experiência da proximidade da morte pode ser equiparada. Aliás, morrer é uma das cláusulas contratuais. Paulo, que foi sabiamente plagiado pelo Djavan, dizia: Sou uma ovelha destinada ao matadouro. O que é o sofrer para mim que estou jurado pra morrer de amor? Você foi chamado para morrer, e não para fugir. O sangue dos profetas anônimos que morreram em seu lugar clama alto e forte. Você jamais poderia deixar que a morte deles fosse em vão, assim como está sendo vã a morte daqueles que foram perseguidos e mortos para nos legar um evangelho sem mácula. O que você está fazendo, Elias.

Mas a questão crucial é realmente a terceira: o que fazer daqui para frente? A causa do temporal permanecia e as suas conseqüências continuavam crescendo. Elias precisava voltar pelo mesmo caminho que veio. Precisava contemplar os rostos daqueles a quem tinha decepcionado. Inverter a direção de cada pegada que marcou a sua fuga e ousar fazer o impensável até então. Clamar contra a estrutura do poder central, não somente em Israel, mas na origem de toda a idolatria, no quartel general do paganismo, que naquela época era a capital da Síria. É lá que a luta teria que começar. Precisava também garantir a sua sucessão. Não permitir que a Palavra de Deus sucumbisse juntamente com a sua morte. Ele precisava ungir Eliseu profeta em seu lugar. Por mais determinante que seja a evangelização, ela ainda é submissa a ordem de fazer discípulos.

Acabei mudando o enfoque que deveria ser sobre meu temporal para o de Elias. Mas estejam certos de que cada situação do profeta foi assimilada como sendo minha própria. Contudo, o fato que mais aproxima a minha vida da deste profeta são vocês leitores que me acompanham. Vocês são a prova mais cabal que nem tudo está perdido, vocês são os sete mil que não dobraram os seus joelhos diante dos deuses da opressão e da inconsequência. Vocês são a razão deste blog. Muito obrigado por tudo isso.

Parasitas

16.2.20
A melhor imagem de Jesus: um túmulo vazio
Por definição biológica, parasita é um organismo que vive de e em outro organismo, dele obtendo abrigo, alimento e não raro causando-lhe dano. Mas o que está valendo para os dias de hoje é a definição pejorativa que diz ser o parasita um indivíduo que vive à custa alheia por pura exploração ou preguiça. A despeito do filme sul-coreano que leva esse nome ter sido o maior vencedor do Oscar 2020, é fato notório que essa mesma palavra também tem servido para atingir de forma ofensiva adversários políticos de todas as facções, como também a funcionários públicos. Mas fiquem tranquilos, pois essa reflexão não tem por pretensão abordar nenhum dos aspectos anteriores, mas confrontar a extensa mídia parasitária que sobrevive há milênios à custa da fé cristã.

Vamos falar particularmente do pretenso aviltamento que tentam impingir as supostas imagens de Cristo, quando estas, na verdade, têm sido usadas com exclusividade para angariar muitos likes e dislikes nas redes sociais e, a reboque, muito dinheiro também. Pessoas travestidas com túnicas brancas, normalmente de porte esquelético, que nos seus gestos obscenos ou grotescos estão querendo insinuar uma nova imagem de Cristo que pareça mais atual e mais real. Não fazem a menor ideia de que a imagem que os cristãos em sua maioria têm de Cristo o relaciona com um mestre de Israel, um curandeiro que andou na Palestina fazendo o bem, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo ou, no entender dos samaritanos, o Salvador do mundo ou todas elas juntas. O que temos de Nosso Senhor são imagens irretocáveis, principalmente por não serem dimensionais ou corpóreas e que orbitam há anos luz das atuações teatrais patéticas que tentam nos mostrar.

Não faz muito tempo que uma certa página no Facebook chamada Porta dos Fundos foi o cerne da mensagem em muitos púlpitos de igrejas locais, como também foi o assunto primordial dos pastores televisivos. O foco agora é o próximo desfile da Escola de Samba Mangueira, que em seu enredo faz citações a um tal Jesus de Nazaré que, particularmente, não faço ideia de quem seja e que, como sugerido pelo samba enredo, em nada se assemelha ao Jesus de Nazaré dos evangelhos. Então, por que temos que meter o bedelho em um assunto que não nos diz respeito, quando temos uma infindável agenda de compromissos com o Reino de Deus? Por que se empenhar em lutas estranhas quando temos lutas próprias para travar? Na pior das hipóteses deveríamos seguir os ensinos do apóstolo Paulo, que em Filipenses 1.18 diz: Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei.

O que causa revolta é que os arautos da Palavra de Deus que deveriam focar exclusivamente na imagem de Jesus, o Cristo de Deus, imagem essa que uma magnânima cadeia de fidelidade nos legou por propiciar que os evangelhos chegassem até nós, estão dando atenção e desperdiçando o tempo da igreja com esses ou essas caricatas, fazendo com que dessa forma adquiram às nossas expensas a popularidade que não teriam, caso não precisassem lançar mão de seus recurso chulos.

Certa ocasião, por volta dos anos 1960, quando assistia uma luta do Cassius Clay, ouvi os seguintes comentários dos locutores: Vejam como o público odeia esse boxer!  Clay, um jovem lutador, era mesmo um bravateiro, que além de se dizer o maior de todos os tempos ainda se considerava a enciclopédia viva do boxe, daí o expresso ódio do público por ele. Porém, imediatamente o outro locutor complementou: Vejam quanta gente pagou para odiá-lo! Tínhamos que aprender também com esse homem. Não podemos mais alimentar esses parasitas da nossa fé, mesmo porque já temos outros tantos parasitas domésticos com que nos preocupar.

Disse Jesus à aristocracia de Jerusalém: Se eles se calarem as pedras clamarão. Pois é, a respeito desses parasitas as pedras já clamaram há muito tempo na poesia Parasitas de Guerra Junqueiro.

No meio duma feira, uns poucos de palhaços 
Andavam a mostrar, em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento, 
E o monstro arregalava os grandes olhos baços, 
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos, 
Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz, 
Que andais pelo universo há mil e tantos anos, 
Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

Voltando ao Egito

26.1.20
Homem de Tollund, uma múmia do pântano. Museu de Silkeborg

Você está confiando na ajuda do Egito, mas isso é o mesmo que usar um caniço como bengala, isto é, ele vai quebrar e furar a sua mão. Assim é Faraó, rei do Egito, para aqueles que confiam nele. Isaías 36.6

Esta semana compartilhei no Facebook o rápido comentário de Andre Scutieri sobre a Internet. Dizia ele: A internet é o retorno ao Antigo Egito: delineador estranho, obsessão com gatos, adoração a políticos como deuses e comunicação por desenhos. Querem saber onde esse maluco foi buscar fundamento para esse argumento absurdo? Isso mesmo, com outro doido, com o profeta Isaías na Bíblia. Esse profeta que denunciou o perigo que era para os judeus se tornarem semelhantes ao modo de vida egípcio pelo menos cinquenta vezes em sua profecia, é o mesmo que vai nos alertar sobre os perigos que a igreja está se expondo ao se amoldar ao que diz a internet em um processo muito semelhante ao que o Andre Andre Scutieri descreve em seu comentário.

O Egito é um homem e não um deus. (Isaias 31.3) Seu contemporâneo, o também profeta Jeremias, já dizia: maldito é o homem que confia no homem.  Se juntarmos as duas profecias e as confrontarmos com as postagens, que no Facebook elevam figuras humanas de atitudes muito questionáveis ao nível daqueles que foram legitimamente enviados por Deus, constataremos duas coisas: Primeiramente, o quanto essas profecias são atuais. Depois o quanto elas nos alertam sobre esse perigo iminente.

Para muitos cristãos, e aqui incluo muitos pastores, padres e líderes religiosos, não bastou apenas terem votado em tal candidato ou mesmo terem se empenhado nas suas campanhas. Eles emitiram cheques em branco e os entregaram, juntamente com a suas almas, a esses tais políticos que se julgam ou que são considerados por tais como autênticos messias salvadores da pátria. Vejam as vidas as obras de Nelson Mandela e Martin Luther King Jr. Restringindo apenas à atualidade. São líderes exaltados por todas as pessoas em todos os tempos. Nada que se assemelhe aos que esses pequenos grupos que decidiram por conta própria entronizarem simples mortais, que mesmo com seus passados duvidosos, estão desesperadamente chamando para si a glória, glória essa que sabemos que não durará mais que um curto espaço de tempo.

E, quando ficarem velhos, eu serei o mesmo Deus; cuidarei de vocês quando tiverem cabelos brancos. Eu os criei e os carregarei; eu os ajudarei e salvarei.  (Isaías 46.4) Leio com enorme pesar quando pessoas postam que consideram um animal como um membro da família. Quando dizem que dormem na mesma cama, nem quero comentar. Porém, leio com mais pesar ainda, quando postam a sandice de dizer que perder um pet é como perder um filho. Loucos e loucas, não fazem a menor ideia do que estão falando. Perguntem a uma mãe ou a um pai o que é a espera que se estende por toda madrugada na expectativa de que seu filho entre pela porta, mesmo sabendo que ele está morto. Perguntem sobre o vazio que não pode ser preenchido nem mesmo pela chegada de outro filho. Perguntem o que essa dor na composição Pedaço de mim de Chico Buarque que diz: Que a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.

Mas também existem pessoas que atualmente ou num passado recente se omitem ou se omitiram na assistência que era devida aos seus pais e avós idosos, mas que agora estão se empenhando firmemente em catar gatos e cachorros abandonados pelas ruas. Não sei quando foi que começou tamanha distorção de valores, mas sei que os profetas de Deus se anteciparam ao André Scutiere e disseram: Onde quer que haja adoração a animais ali haverá sacrifício humano. (Cherteton)

Ai dos que descem ao Egito em busca de socorro e se estribam em cavalos; que confiam em carros, porque são muitos, e em cavaleiros, porque são mui fortes, mas não atentam para o Santo de Israel, nem buscam ao Senhor! Tornamo-nos também a geração dos símbolos. Existe nas igrejas de hoje um símbolo a quem se deve honrar. Seja ele um simples músico, pastor, bispo, apóstolo e por aí vai. Em momento algum, depois da Reforma, o protestantismo foi tão dependente de símbolos, quer sejam pessoas ou objetos materiais, para expressar a sua fé como hoje.

Kipa, menorá, shofar, estrela de Davi Cruz, Templo de Salomão, arca da aliança e outros adereços que deveriam ter ficado onde Jesus os colocou, sepultados na cruz, voltaram a ser imprescindíveis em nossos cultos. A comunicação do evangelho, que há muito deixou de ser pela palavra, agora se faz por osmose confiado tão somente na unção do pregador. Definem-se as categorias de quem é ungido, de quem é muito ungido e de quem é “ungidasso” para classificar, segundo o “grau de espiritualidade”, quem pode mais ou tem maios poder na igreja de hoje.  

Espiritualidade medida em graus é um dado esclarecedor, porque determina a medida do poder que está oculto nos símbolos, o mesmo poder que as pessoas outrora buscavam nas suas antigas religiões de mistério. A confiança que se restringe ao que pode ser visto e ao que pode ser tocado é a tônica do evangelho atual.

Voltamos de fato ao Egito, o lugar em que até o mundo dos mortos pode ser visto nos seus símbolos maiores: as múmias. Diz os salmo 115: Que fiquem iguais a esses ídolos aqueles que os fazem e os que confiam neles!  Múmias do evangelho, é no que nos tornamos.

A conversão de um convertido

29.12.19
Profeta Habacuque por Donatello
Ó Senhor Deus, até quando clamarei pedindo ajuda, e tu não me atenderás? Habacuque 1.2

O livro de Habacuque traz em seu conteúdo um curioso, porém atualíssimo diálogo travado entre um homem e seu Deus. Curioso, simplesmente pelo fato de apresentar as várias nuances do comportamento humano quando do seu relacionamento pessoal e íntimo com o divino. Atualíssimo, porque mostra uma tomada de posição diante de Deus que se tornou quase que obrigatória na maioria das orações que são ouvidas nos templos cristãos. Curioso, porque mostra uma disposição de Deus em atender à oração que estarreceria os mais delicados preceitos da moral cristã. Atualíssimo, por que revela à nossa razão o verdadeiro caráter de Deus, ao passo que vai sinalizando qual deveria ser a perfeita resposta do homem a essa revelação, que para muitos ainda é inusitada.

Como pode ser notado no nosso texto base, Habacuque começa sua oração despontando na presença de Deus como quem reivindica algo que não pode de maneira alguma ser relevado e muito menos postergado, pois se trata de um direito inalienável e inerente a todo aquele que é fiel. No melhor estilo do “eu determino” ou do “eu declaro”, em seu próprio nome, uma vez que naquele tempo ainda não se podia determinar em nome de Jesus, Habacuque determina que Deus tome uma providência imediata em razão da sua necessidade expressa. E não é que Deus toma atitude mesmo? Logicamente que não foi aquela era a tão esperada pelo profeta. Muito menos uma que estivesse dentro das possíveis aventadas por ele. Muito menos ainda uma que fosse toscamente imaginada por qualquer mente humana, por mais fértil que pudesse existir.

Deus lhe dá como resposta o desapontamento total, o inverso da sua investida, o antagônico da sua perspectiva, quando lhe diz: Pois o que vou fazer agora é uma coisa em que vocês não acreditariam, mesmo que alguém contasse. Estou atiçando os babilônios, aquele povo cruel e violento, sempre pronto a marchar pelo mundo inteiro, a fim de conquistar as terras dos outros. É isso mesmo, Deus vai consertar arrasando tudo. Deus vai mandar ajuda, sim, mas ajuda destruidora e não edificadora. A partir dessa resposta Habacuque não deveria esperar qualquer desenlace estivesse minimamente de acordo com a sua pretensa determinação.

Mas como em todo debate que se preze existe a tréplica. Habacuque diz algo assim: Não estou entendendo. O Senhor Deus vai mandar um povo que é mais pecador do que nós, mais injusto do que nós e mais iníquo do que nós para corrigir a nossa iniquidade? Deus o interpela novamente: Quem disse que é para você entender. Aliás, sobre esse assunto, mais tarde vai dizer Santo Agostinho: Se você entender, não é Deus. E continua dizendo: Escreva em tábuas a visão que você vai ter, escreva com clareza o que vou lhe mostrar, para que possa ser lido com facilidade. Texto frequentemente citado pelo saudoso João Wesley Dornellas como o princípio do outdoor.

Por mais paradoxo que possa parecer, esse é o momento apropriado para a conversão de um convertido. O instante em que o homem toma consciência da precariedade da sua existência em contraste com todo um universo de realidades. O ponto exato em que ele descobre que, mesmo sendo profeta, sua visão está restrita ao seu tempo na história. É onde passa a entender que mesmo sendo chamado por Deus não tem direito de reivindicar nada, não tem privilégio algum e que não está imbuído de qualquer merecimento, pois tudo o que recebe lhe é dado de graça e deve ser aceito com humilde gratidão.

Assim falará Habacuque depois dessa sua experiência marcante: Vou subir a minha torre de vigia e vou esperar com atenção o que Deus vai dizer e como vai responder à minha queixa. Porém, a expressão maior que mostra o resultado da sua nova conversão vai ser declarado numa das orações mais tocantes e mais inspiradas de toda a Bíblia:
Ainda que as figueiras não produzam frutas, e as parreiras não deem uvas; ainda que não haja azeitonas para apanhar nem trigo para colher; ainda que não haja mais ovelhas nos campos nem gado nos currais, mesmo assim eu darei graças ao Senhor e louvarei a Deus, o meu Salvador.

Uma mulher doente

8.12.19
A mulher com fluxo de sangue, autor não identificado
...pois pensava assim: Se eu apenas tocar na capa dele, ficarei curada. Marcos 5.28

O capítulo 12 de Levítico nos ajuda a entender a situação da mulher que tinha hemorragia na sociedade hebraica. Tal pessoa não era vista senão como uma disseminadora ambulante de uma praga terrível. Não podia ser tocada e não podia tocar em ninguém ou em coisa alguma, ou seja, ela era uma espécie de rei Midas ao contrário. Podemos nos imaginar em uma situação assim? Nenhum medicamento, nenhum tratamento, nem uma apuração ou mesmo tipo de limpeza a tornaria pura para o convívio com outras pessoas. Restava-lhe apenas a esperança que algo mágico lhe acontecesse, algo tirado do seu imaginário depressivo. E foi o que ela fez: foi atrás do seu sonho mirabolante.

O que torna diferente essa cura descrita por Marcos 5.25-34 é que antes do nome Jesus no texto grego há um pronome: Ela havia escutado falar de “o” Jesus. Para ela, Jesus era tão somente aquele que podia curá-la sem delongas ou de algo mais que necessitasse ser feito. Na sua imaginação ela não precisaria conhecer Jesus, não precisaria contar seu problema para Jesus ou sequer ser vista por ele. O Jesus era o cara. E o mais interessante é que aconteceu exatamente assim. Ao tocar no manto de Jesus ela sentiu a segurança de que estava curada. Sentiu uma sensação de pureza que não sentia há doze anos. Sentiu que algo mágico pôs fim ao seu estado de enfermidade.

Mas com Jesus não aconteceu nada tão mágico assim, posto que ele, apesar de espremido por todos lados pela multidão, perguntou de pronto: Quem me tocou? Jesus sentiu um toque tão diferenciado que tirou dele algo precioso. Sentiu que seu ministério de cura fora de alguma forma lesado. Dessa forma não poderia permitir que o seu poder se associasse a um tipo de superstição. Suas curas eram pessoais e não por meio dos seus objetos pessoais.

Diferentemente de nós que queremos sempre o resultado imediato, o processo que Jesus usava para a libertação do mal, qualquer mal, tinha sempre uma dinâmica. Sua cura não era superficial. Ele curava o corpo e também a alma. Jesus afirmava que era a fé da pessoa que a havia curado, e não algo do seu imaginário. Para se ter fé me Jesus o mínimo necessário é conhecê-lo.

Outra coisa relevante nesse texto é a resposta dos discípulos à pergunta de Jesus. No fundo, eles duvidavam do fato de Jesus poder identificar a necessidade de uma única pessoa no meio de toda aquela multidão. Eles ainda não acreditavam que Deus pudesse ser tão pessoal assim. É verdade, que eles já haviam experimentado essa atenção pessoal. Porém, eles tinham em mente que esse favor lhes era exclusivo. Somente eles que conheciam Jesus tão bem podiam ser reconhecidos por ele de forma tão pessoal. Jamais alguém perdido no meio de uma extensa massa humana poderia receber esse precioso dom.

Existem aqui dois entendimentos a respeito de Deus. Um grupo que pensa que ele age de forma mágica e outro que imagina que Deus privilegia apenas aqueles que são seus. Se existem uns que querem dizer como Deus deve agir, há também outros que querem limitar a ação de Deus ao seu redor.

O resultado dessa parábola viva que nos diz respeito é o constrangimento. Marcos conta que a mulher atirou-se as pés de Jesus tremendo de medo e contou-lhe tudo. O constrangimento dela que recebera uma bênção sem merecê-la e o medo de perder essa bênção. A mulher, apesar de se sentir curada, ainda estava sob a maldição da impureza descrita no Levítico. Ao apresentar-se a Jesus ficou curada dessa mal também. Já o constrangimento dos discípulos foi diferente. Eles passaram a entender que Deus não se importa com números, mas que os seus olhos estão sempre focados em alguém, não para puni-lo ao primeiro deslize, mas para que este seja atendido em todas as suas necessidades. E agora imagine alguém com quem ele possa contar para que esse único indivíduo, mesmo que perdido na multidão, seja reconhecido e receba o dom da libertação do mal e da cura plena.

Perguntas sem resposta

24.11.19
A conversão de São Paulo. Luca Giordano

Saulo, Saulo, por que você me persegue? Atos 9,4

Uma das poucas coisas que me causam ansiedade na Bíblia são as perguntas que ficaram sem respostas. A supracitada é uma delas. Porém, dá pra imaginar que se o encontro de Jesus com Paulo* acontecesse numa favela do Rio de Janeiro, a pergunta seria outra: Saulo, o que é que está pegando? Segundo o meu incipiente entendimento, Jesus estaria lhe perguntando: O que passa na sua cabeça, Saulo? O que pensa que está fazendo? Que absurdo é esse? Mas ainda assim permanece uma dúvida: Se Lucas, escritor do livro de Atos, conheceu Paulo e esteve com ele um bom tempo em Roma, por que não procurou saber diretamente dele a resposta?

Olhando mais detalhadamente o livro dos Atos dos Apóstolos, encontrei indícios de que Lucas teria nos revelado secretamente a resposta que Paulo deu a Jesus na estrada de Damasco. Segundo relatos posteriores de Lucas, naquela estrada Paulo deveria estar pensando assim: Eu sou judeu, nascido em Tarso, na região da Cilícia, circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; mas fui criado aqui em Jerusalém como aluno de Gamaliel. Fui educado muito rigorosamente dentro da lei dos nossos antepassados, quanto à lei, fariseu. Eu era muito dedicado a Deus, como todos vocês aqui também são.

Como todo judeu, esperava ansioso pela revelação do Messias, o Leão de Judá, aquele que restauraria a hegemonia de Israel, que expulsaria os romanos e quem me aparece é você, Jesus, um cordeiro? Li todos os profetas, toda a sabedoria dos antigos e aprendi desde de pequeno que o Messias seria um Deus Forte, Pai da eternidade, oriundo da mais alta estirpe judaica e vem você, Jesus, um nazareno, filho de carpinteiro? Aprendi que o Messias seria o intérprete da Lei, o Maravilhoso Conselheiro, e quem me aparece? Um sujeito que anda e bebe com ladrões e prostitutas, que janta na casa de publicanos, que abraça samaritanos, se deixa tocar por leprosos e hemorroíssas, cura o servo de um romano, e ainda diz que os judeus devem amar os seus inimigos?

O Leão de Judá não perdoa, castiga, mas o cordeiro, é açoitado.O Leão de Judá não leva desaforo para casa, mas o cordeiro permite que cuspam na cara dele. O Leão de Judá não ama os inimigos de Israel, mas o cordeiro sim. O Leão de Judá mata, mas o cordeiro morre. Como é que eu poderia acreditar que você era o verdadeiro Messias se você é o oposto de tudo que imaginei e fez exatamente o contrário de tudo que eu esperava que o Messias fizesse?

Fico imaginando Jesus ouvido toda essa ladainha e rindo. A cada contestação deve ter balançado a cabeça e dito: É isso mesmo, você tem razão, Paulo. Ao fim de tudo Jesus, assim como fizera com antes Tomé, deve ter lhe mostrado as chagas e dito: Eles fizeram isso tudo comigo, mas no final eu venci. Venci um inimigo muitas vezes mais poderoso do que todas as legiões romanas juntas: Eu venci a morte.

Aí Paulo deve ter dito: Então não me resta mais nada, senão me jogar desse cavalo de cara no chão e me render aos teus pés.

A conversão de Paulo na estrada de Damasco é uma das mais incontestáveis provas do ministério de Jesus. Por que razão, um homem que tinha sobre si todo poder do Sinédrio e toda a admiração e respeito da elite judaica, de repente, passa para o lado daqueles a quem perseguia, transformando-se gratuitamente de perseguidor em perseguido.

Essa questão de Paulo me leva imediatamente a outra. O que foi feito dos judeus que juraram que não comeriam e nem beberiam nada enquanto não matassem Paulo (Atos 23.12). Seria possível que eles tivessem a mesma determinação que Paulo, mesmo esse último sabendo que seria chamado para sofrer pelo evangelho? Eles, a exemplo de Paulo, também morreram pelo seu ideal?

* Saulo teve o seu nome mudado para Paulo após a sua conversão (Atos 13.9).

Sabe nada, inocente

13.10.19
A botija quebrada, Jeremias 19.11 - Autor não identificado
Mas, se digo: “Esqueça! Não vou falar mais nada que venha do Eterno!”, As palavras queimam como fogo no meu coração, incendeiam meus ossos. Estou exausto, tentando segurá-las dentro de mim. Já não aguento mais! Jeremias 20.9 (Bíblia a Mensagem)

Você entrou na minha vida. Usou e abusou, fez o que quis. Nesse trecho da sua poesia, Jorge Aragão, indubitavelmente, teve como parceiro o profeta Jeremias. Imagino que não haja ninguém na história da humanidade que declare este sentimento com palavras com mais propriedade do que este que empresta seu nome a um dos mais inspirados livros da Bíblia. Qualquer pessoa que ler o capítulo 20, a partir do verso 7, desse livro vai encontrar logo de cara o seguinte lamento: Ó Senhor Deus, tu me enganaste, e eu fiquei enganado. Tu és mais forte do que eu e me dominaste. Todos zombam de mim, caçoando o dia inteiro. Na sua Bíblia pode estar Tu me seduziste, mas a intenção do autor é dizer o quanto foi manipulado e quanto a sua vida foi vilipendiada tão logo assumiu o encargo de falar em nome de Deus. Manipulado foi, não por uma companheira, como se expressa o poeta brasileiro, mas por Deus.

Tudo o que segue é um breve relato dos seus infortúnios que se deram em várias situações. Fosse na cisterna de lama podre onde foi jogado para morrer; no tronco, onde foi chicoteado; na prisão, quando jazia esquecido ou mesmo no seio da sua família e dos amigos mais chegados, quando lhe aramaram ciladas. Não tem como alguém que atravessando tamanha tribulação não venha a lançar imprecações sobre si mesmo: Maldito seja o dia em que eu nasci! Esqueçam o dia em que a minha mãe me deu à luz! Maldito seja o homem que alegrou o meu pai quando lhe deu esta notícia: “É menino! Você tem um filho!” Jeremias 20.14

Entretanto, todo aquele que continuar lendo os capítulos finais do livro e conhecer um pouco da história de Jeremias, vai lhe responder na lata: Sabe nada, inocente. O Jeremias jeremiado não faz a menor ideia do que lhe espera antes e depois da sua morte. Vamos fazer também um breve relato dos fatos que se seguiram.

Quando Nabucodonosor invadiu Jerusalém deu uma ordem expressa ao seu oficial superior: Vá buscar Jeremias no cárcere. Podia bem para que fosse violentamente morto na presença do imperador babilônico pelas duras palavras que havia dirigido contra ele. Mas não foi assim que aconteceu. O general tratou Jeremias na pontinha dos dedos e disse-lhe. Jeremias fique bem à vontade para decidir. Se você quiser ir conosco para a Babilônia será tratado como um rei, mas se quiser ficar ou ir para outro lugar ninguém aqui vai impedi-lo. Isso é: Jeremias viu em vida o poderoso Nabucodonosor, cheio de medo, curvar-se à sua vontade, tão somente porque reconheceu que neste profeta habitava o espírito do Deus de Israel. Logo ele, aquele que dizia que nem deveria ter nascido.

Mas não é apenas isso. Poderíamos lhe dizer também: Jeremias, daqui a dois mil e seiscentos anos as pessoas ainda vão estar falando a seu respeito e conhecerão você muito mais que conhecem o próprio Nabucodonosor ou qualquer outro tirano que tenha se levantado contra Israel. Nesse tempo, pelo menos metade da população desse planeta terá lido as suas palavras. Alguns bilhões conhecerão a sua vida e a sua obra profundamente. Alguns milhões pregarão sobre as suas profecias e as terão como fonte inspiradas pelo próprio Deus. Esse mesmo Deus a quem você dirige seu lamento. Milhões de meninos correrão pelas ruas sendo chamados pelo seu nome.

Jeremias, você deveria ter prestado mais atenção na letra do seu parceiro musical, pois o Aragão começou dizendo assim: Não... pra que lamentar o que aconteceu...  Sabe nada, inocente!

Sermão pagão

6.10.19
Paulo pregando no Templo de Diana e Éfeso, Adolf Pirsch
Peço licença aos pastores, líderes religiosos e teólogos que ainda insistem em ler o que escrevo para repetir na íntegra o sermão de um pagão. Por favor não pensem que fui desencavar esse texto em algum manual de feitiçaria ou em compêndios de filosofia oriental ou ainda na extensa literatura exotérica. O sermão pode ser encontrado nas páginas da Bíblia, mais precisamente no Segundo Testamento, no livro dos Atos dos Apóstolos. Diz-nos o texto: Foi nessa ocasião que houve na cidade de Éfeso uma grande desordem por causa do Caminho do Senhor. Um ourives chamado Demétrio fazia pequenos modelos de prata do templo da deusa Diana, e o seu negócio dava muito lucro aos que trabalhavam com ele. Então ele chamou estes e outros da mesma profissão e disse:
— Meus amigos, vocês sabem que a nossa riqueza vem deste nosso ofício. Vocês mesmos podem ver e ouvir o que esse tal de Paulo está fazendo. Ele afirma que os deuses feitos por mãos humanas não são deuses de verdade. E está conseguindo convencer muita gente, tanto daqui como de quase toda a província da Ásia. Assim nós estamos correndo o perigo de ver o povo rejeitar o nosso negócio. E não é só isso. Existe o perigo de o templo da grande deusa Diana não ficar valendo mais nada e também de ser destruída a grandeza dessa deusa adorada por todos na Ásia e no mundo inteiro. (Atos 19.23-27)

Poderia eu muito bem, caso estivesse em um púlpito de uma igreja, pedir para cantar um hino de despedida e impetrar a bênção apostólica e estaria encerrado o culto com a congregação levando para casa esta maravilhosa palavra. Contudo, penso que este que, para mim, é o mais contundente e revelador sermão já pregado até hoje merece algumas considerações.

A primeira delas a exatidão da profecia de Demétrio. Diferentemente de muita profecia que anda por aí, tudo o que ele predisse aconteceu da forma que profetizou e na ordem exata das suas palavras. Quando o evangelho chegou a Éfeso, o simples anúncio de que o deus que é feito por mãos humanas não é deus, começou a fervilhar na consciência do povo oprimido pela manipulação religiosa que há séculos lhes era imposta. Então, as amarras da superstição não resistiram. Os ourives perderam seus empregos, o templo de Diana foi destruído e a adoração a uma das maiores divindades greco-romanas foi praticamente extinta. Deus é espírito e verdade e importa ser adorado em espírito e em verdade.

A segunda revelação que nos é dada pelo pagão Demétrio é que o evangelho precisa apenas ser pregado pois é auto-suficiente. Ele simplesmente disse: Se esse tal de Paulo abrir a boca nós estamos ferrados. Pode ser que seja daí que Spurgeon, considerado o príncipe dos pregadores, tenha tirado a sua famosa frase: O evangelho é um leão enjaulado. Isso mesmo. O evangelho não tem que ser defendido, protegido ou declarado sagrado. Tal como um leão, precisa apenas que porta da jaula lhe seja aberta.

A terceira e última diz respeito ao imediatismo dos efeitos da pregação evangélica. Demétrio diz que a ação do evangelho é imediata, que não necessita de regras, dogmas, posturas ou utensílios, e assim determina o fim do “tem que”. Segundo ele, o povo tão logo ouvisse e cresse nas palavras de Paulo, ficaria livre para se apresentar diante de Deus da maneira que bem lhe conviesse, do modo que quisesse, quando quisesse e da forma que quisesse. Não “tem que” dar o dízimo. Não “tem que” ir à igreja. Não “tem que” ser cristão. Não “tem que” ser num templo. Não “tem que” ser perfeito. Não “tem que” estar sem pecado. Não “tem que” absolutamente nada. A cruz anunciada pelo evangelho é suficiente para cumprir todos os “tem quês” que a religião tenta nos impingir.

Eita sermãozinho bom da gota serena. Acaba de vez com muita besteirada que anda se falando nos cultos. Demétrio. Ei Demétrio, fio do Cabrunco! Vai pregar bem assim no quinto dos infernos.

Amós, o boia-fria comissionado

Amós e a visão da praga de gafanhotos.

Não sou profeta por profissão; não ganho a vida profetizando. Sou pastor de ovelhas e também cuido de figueiras. Mas o Senhor Deus mandou que eu deixasse os meus rebanhos e viesse anunciar a sua mensagem ao povo de Israel. Amós 7.14-15

Ao ler a postagem do rev. José Magalhães Furtado, velho companheiro de Federação de Jovens, sobre a manchete do O Globo, Heróis do nosso tempo, fiquei imaginando quem foram e quem são os meus heróis. Bom, no passado eu era fã incondicional do Fantasma, um herói que não tinha capa e nenhum superpoderes sequer, mas todo mundo pensava que ele tinha quatrocentos anos. Depois passei pela fase dos anti-heróis e apreciava mesmo os bandidos metidos a engraçados. Porém, um contato mais estreito com a teologia bíblica me fez ver nas entrelinhas um herói escondido atrás do gado e é a ele quem presto homenagem, desde fevereiro de 2012, por meio desse blog que insisto em manter on-line. Contando hoje com 1.739 mensagem e 175.035 visitas, Amós Boiadeiro vem mais uma vez exaltar o seu patrono em uma meditação para os dias de hoje.

No cenário nacional, assim como no meio evangélico, os heróis têm se alternado. Quando vejo a mudanças drásticas de polaridade entre Lula e Bolsonaroo e entre Malafaia e Augustus Nicodemos, mesmo sem ter preferência por qualquer dos lado, percebo que minha transição de heróis do passado não seria tão incomum assim no nosso tempo. E exatamente é aí que brilha com o mais intenso fulgor a contemporaneidade eterna do profeta de Deus do passado.

Quem era Amós, senão um boia-fria. Não era comum a ambiguidade de profissões entre os antigos. Quem era pastor de ovelhas, era pastor de ovelhas, quem era agricultor, era agricultor. A Bíblia é farta em relatos de conflitos entre esses dois grupos. Conflitos que começaram entre Caim e Abel, espalharam-se mundo a fora e perduram até hoje. Amós se encaixaria perfeitamente entre aqueles que, na parábola de Jesus, foram chamados para trabalhar na vinha na última hora. Mais um daquele que se mantinham à beira da estrada na enfadonha espera de quem o contratasse para garantir o sustento de mais um dia. Aquele que não tinha especialização e por conta disso recebia os menores salários.

Mas Deus foi buscá-lo lá no anonimato; Deus foi comissioná-lo quando ele exercia uma função nada valorizada, mas o fez para desafiá-lo a uma missão profética totalmente irregular, pois era de se esperar que o profeta denunciasse a iniquidade dos governantes do seu povo. Deus, porém, sabia que Amós era abusado demais para jogar dentro das quatro linhas do estreito campo de reino de Judá. Ele simplesmente atravessou a fronteira e foi meter o seu dedo na cara de um rei estrangeiro, na cara do rei do norte que já o odiava pelo simples fato de ter nascido no reino do sul. Imagine agora o ódio do rei quando Amós disse que a esposa do sumo sacerdote iria virar uma prostituta (Amós 5.17).

Penso que Jeroboão foi condescendente com Amós, pois a separação recente dos dois reinos veio corroborar com os também fartos relatos bíblicos Bíblia de conflitos entre esses dois segmentos, mesmo quando ambos estavam sob domínio de um único rei.

Só sei que o meu herói, o profeta da justiça, não deixou se intimidar pelo fato de não fazer parte do enredo, ainda que sem fantasia cantou em alto e bom som o seu samba-enredo:
Quando o leão ruge, quem não fica com medo? Quando o Senhor Deus fala, quem não anuncia a sua mensagem? Vocês têm ódio daqueles que defendem a justiça e detestam as testemunhas que falam a verdade; vocês exploram os pobres e cobram impostos injustos das suas colheitas. Ai dos que querem que venha o Dia do Senhor! Por que é que vocês querem esse dia? Pois será um dia de escuridão e não de luz. Será como um homem que foge de um leão e dá de cara com um urso; ou como alguém que entra em casa e encosta a mão na parede e é picado por uma cobraTodos ficarão com fome, mas não por falta de comida, e com sede, mas não por falta de água. Todos terão fome e sede de ouvir a mensagem de Deus, o Senhor. 

Dragões: mito ou realidade?

Cena do 4º episódio da 7ª temporada de Game of Thrones
A série Game of Thrones mudou alguns conceitos nas pessoas que têm acompanhado os seus episódios. Agora nós, os aficionados, não somente passamos a ter expectativas positivas quanto ao poderio destruidor dos dragões, mas também torcemos pelo sucesso pleno das suas investidas. Ou seja, o dragão, que até então era símbolo definitivo do mal, passou a ser de fato nosso aliado na luta contra esse mal no mundo imaginário de Westeros. Se torna curioso, pois não é, como muitos pensam, algo inédito na literatura universal, posto que as Escrituras, por vezes, os apresentam como servos fiéis e obedientes ao mandado de Deus.

Entre essas tais referências encontramos no Primeiro Testamento seu nome citado vinte e duas vezes. Aparecendo na Torah, como nos livros históricos, sapienciais e nos proféticos, tanto pré como pós exílicos com uma certa frequência, uma vez que Isaías e Jeremias os citam em seis oportunidades distintas cada um. Ressalvando o fato de que as doze vezes em que o Segundo Testamento, exclusivamente nas visões de João do Apocalipse, a palavra grega drakon é traduzida por serpente ou mesmo Satanás, surgindo como um agente opositor ao Messias e ao seu Reino, os dragões até que podem se apresentar como mensageiros de um bem maior do que o mal que prefiguram: E farei montes de Jerusalém, e uma guarida de dragões; E tornarei as cidades de Judá desoladas, sem um habitante. Jeremias 9.11 versão de King James.

Convém lembrar de antemão que a nossa Sociedade Bíblica preferiu traduzir as palavras hebraicas tan e tanin por nomes de animais conhecidos, porém completamente distintos entre si, tais como chacal, crocodilo, serpente e baleia. O dragão seria um animal superdotado que, não sendo peixe, poderia viver no mar, como a baleia; nos rios, como o crocodilo; nos desertos, como os chacais e ter uma picada abrasadora, como as serpentes. Contudo, os tradutores não tiveram como não revelar que os dragões, em Gênesis 1.21 monstros marinhos, foram criações de Deus no quinto dia. Da mesma forma, o livro de Job os apresenta como companheiros chegados e inseparáveis do nosso herói em sua penúria: Eu sou um irmão de dragões e um companheiro de corujas. Job 30.29 versão de King James.

Mas no frigir dos ovos, esse animal realmente existiu ou é apenas uma narrativa lendária ou mitológica? Parece inegável que relatos sobre dragões vêm desde a mais remota antiguidade e são fartamente encontradas ao redor do mundo. Quando comparamos as ilustrações dos dragões em culturas que não se relacionaram e em bandeiras nacionais de certos países, nos parece improvável que se trata apenas uma figura abstrata, que pudesse ter povoado a mente de tantos povos diferentes em diferentes épocas. Mais inconcebível é o fato de que essa figura abstrata, fruto da imaginação de povos pagãos, fosse encontrada na Palavra de Deus prefigurando uma realidade histórica e presente, como ressalta o salmistaLouve o Senhor, tudo o que existe na terra: monstros do mar (dragões) e todas as profundezas do oceano! Salmos 148.7


O problema de Jonas

11.3.17
O mestre e aquele que tentou acompanhá-lo

Ó Senhor Deus, eu não disse, antes de deixar "Casa Branca", que era isso mesmo que ias fazer? Foi por isso que fiz tudo para fugir para a Espanha! Eu sabia que és Deus que tem compaixão e misericórdia. Sabia que és sempre paciente e bondoso e que estás sempre pronto a mudar de ideia e não castigar. Jonas 4.2

Muito se especula acerca do ministério profético desse escolhido de Deus. Há quem pense ser ele uma referência àquilo que um profeta não deveria fazer e nem dizer. Mas não há com contradizer as Escrituras, pois são elas que o chamam de profeta. Não há nada debaixo desse sol que nos permita duvidar de suas palavras. Jonas era um profeta na concepção mais intrinceca deste ofício.

Jonas não foi evasivo como Jeremias, o qual se agarrou no pretexto ser muito jovem para fugir do peso da responsabilidade. No seu chamado, Jonas não se sentiu esmagado por estar na presença de Deus, posto que se apresentou diante dele sem estar possuído de um sentimento de culpa qualquer, assim como acinteceu com Isaías. Jonas abraçou alegremente o causticante encargo da profecia, apesar de suas deficiências congênitas e das adquiridas. De forma alguma as apresentou como subterfúgio para negar seu chamado, tal qual o velho Moisés assim o fizera.

Jonas era o profeta maduro, que irrompe pronto das páginas da Bíblia, que não atenta contra o seu povo e nem lhe dirige palavras ameaçadoras. Pelo contrário. No instante em que viu o perigo cercando o barco e as pessoas à sua volta, imediatamente se apresentou como o único culpado e merecedor de receber sobre si todo o castigo para amenizar o perigo que era iminente.

Então, qual era o problema de Jonas? Ele mesmo nos apresenta: Aqueles que adoram ídolos, que são coisas sem valor, deixaram de ser fiéis a ti. Jonas 1.8 O problema de Jonas era esse: Uma paixão irrefreada pela fé autêntica.

No dia de ontem, mais uma vez, um profeta Jonas se despediu de nós. Desta vez não o profeta bíblico e sim o profeta da Bíblia. Aquele que tirava do fundo da memória trechos enormes e complexos do conteúdo que se fez santo, para em seguida discorrer sobre eles com detalhes precisos de quem narra algo que testemunhara naquele mesmo dia. O Jonas que se despediu de nós foi simplesmente o maior orador sacro do seu século e, pelo que se pode observar no circuito eclesiástico, ainda o será por um longo tempo.

Então, se ele era mesmo tão bom assim, qual era o problema desse nosso Jonas? O problema do nosso Jonas, a exemplo do seu homônimo, também era a paixão pela autenticidade da fé. Ele mesmo afirma em um sermão pregado há exatos trinta e sete anos: É o abalo do dogma; da doutrina estática; das estruturas eclesiásticas milenares; o sentimento de ridículo nos serviços litúrgicos; a mecanização do culto; a falta de significação na linguagem religiosa; bancos sem jovens; jovens sem vida; o sentimento angustiante de confusão que domina aqueles que se dispõem a lutar nas fileiras militantes da igreja; o desacordo entre mentalidades sem respeito mútuo; o sacrifício de valores autênticos; a alienação dos que não podem estar satisfeitos, mas que se agarram ai navio que naufraga em águas revoltas. É o ponto de interrogação dilacerando nossas mentes tão terrível quanto o ferro em brasa marcando os animais da fazenda, levando muitos ateus a se alienarem nos templos e lançando cristãos autênticos fora da igreja.

O problema do nosso Jonas não foi outro, senão crer e ser fiel a um Deus bom demais para a nossa verdade e nossa realidade.


Quando o inverno chega IV

Timóteo pregando em Listra, www.daum.net
Mas Paulo pede ainda uma última coisa. Ele pede que lhe tragam Marcos. Aquele mesmo João Marcos com quem teve problemas na sua segunda viagem missionária. A discussão entre eles foi tão violenta que os dois se separaram, Barnabé foi com Marcos e Paulo levou Silas. Nós podemos observar muita coisa que Jesus aturou que Paulo não aturaria não. Principalmente aquelas pessoas que chegavam para Jesus para pedir cosias básica, que dependiam exclusivamente delas mesmas. Se fossem pedir a mesma coisa para Paulo ele diria na cara delas: Vai trabalhar vagabundo! Paulo também era implacável contra certos adversários. Quanto ao tal latoeiro que lhe fez mal, ele disse: Pode deixar que Deus vai cuidar bem dele.
Mas é certo também que ele tinha a capacidade de voltar a trás, de reconhecer o verdadeiro valor das pessoas, e de admitir que elas podiam mudar. O simplesmente querer a volta de João Marcos mostra a sua necessidade de amigos. Tanto os amigos que colaboraram, quanto os amigos que criaram obstáculos; tanto os amigos que o confrontaram, quanto aqueles que o apoiaram; tantos os amigos de sempre, quanto os amigos que foram ficando pelo caminho.
Da necessidade de ter amigos no inverno da vida nem mesmo Jesus escapou. Quando sentiu que o seu fim era iminente, Jesus chegou para as pessoas que acompanhavam há muito tempo e disse: Já não chamo vocês de servos, porque o servo não sabe o que seu patrão faz. Eu chamo vocês de amigos. Paulo insinua essas palavras dizendo: Para vocês eu não sou mais o apóstolo Paulo, e nem João Marcos mais meu discípulo. Tanto ele quanto vocês agora são meus amigos. Sem a sua presença na minha vida, de que me valem rolos e os pergaminhos? Eu vou apenas falar sozinho.
Eu queria terminar dizendo que não consigo imaginar que o compositor popular Zé Rodrix não tivesse na cabeça esse trecho da carta de Paulo quando compôs Casa no campo. As semelhanças são muito óbvias para não serem percebidas. E é como um tributo a Paulo e a essa pérola que ele nos deixou no final do seu ministério ativo que eu uso a letra dessa música para encerrar essa meditação.

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos, meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão a pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau a pique e sapê
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais

Leitura II Timóteo 4

Quando o inverno chega

Paulo e Timóteo, artista desconhecido

Quanto a mim, a hora já chegou de eu ser sacrificado, e já é tempo de deixar esta vida. Fiz o melhor que pude na corrida, cheguei até o fim, conservei a fé. II Timóteo 4.6-7

Este talvez seja esse o último escrito de Paulo. Parece que com ele encerra o seu ministério ativo, transferindo para Timóteo a responsabilidade de continuar a obra missionária. Isso, porém, não fica suficientemente claro, pois logo em seguida mostra que a sua preocupação está ativa, nas recomendações e advertências que faz ao seu sucessor. 
Contudo, apesar do tom de despedida, muito se engana quem pensa que Paulo está oficializando a sua partida ou escrevendo o seu próprio epitáfio, como se a sua morte natural estivesse prestes, e os seus últimos dias fossem apenas uma longa e interminável espera. Ele tinha a consciência das ameaças que pairavam sobre si.

Apesar de tudo, ele tenta apegar-se a vida. Na verdade o que ele quer agora o que tinha deixado para trás. Para isso começa a juntar os pedaços que foram ficando pelo caminho.
Na intimidade desta carta ele descreve situações bastante familiares a todos nós. Fale de como pessoas foram e voltaram em sua vida, mostrando alegria para com aqueles que permaneceram e se eximindo de culpa pela deserção de alguns outros. Após tantos desencontros não teria sido válido perguntar a essas pessoas porque elas o abandonaram? É bem provável que Paulo fosse um chato de galocha, que exigia tudo nos mínimos detalhes, mas isso é especulação minha, não levem em consideração.

Agora ele quer tudo com pressa, tudo agora é urgente. Ele quer tudo antes que chegue o inverno. Para uma pessoa que já havia passado por tantos invernos, não seria próprio perguntar que inverno é esse? Seria o inverno, a estação mais fria do ano, quando precisava estar mais abrigado, ou o inverno da própria existência? A mim me parece que são os dois. Um fato que nós podemos comprovar simplesmente analisando os três pedidos que ele faz a Timóteo. 

Leitura II Timóteo 4

Consciência cativa

Lutero diante de Carlos V na Conferência de Worms

Que se me convençam mediante testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão, porque não acredito nem no Papa nem nos concílios já que está provado amiúde que estão errados, contradizendo-se a si mesmos - pelos textos da Sagrada Escritura que citei, estou submetido a minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável. Não posso fazer outra coisa, esta é a minha posição. Que Deus me ajude! Martinho Lutero

A Dieta de Worms seria como que o reduto final para a sobrevivência daquele que já vinha sendo ferozmente perseguido pelo Papa Leão X e pela igreja dominante. Não era para menos, posto que Lutero, em resposta ao documento papal que exigia a sua retratação, em praça pública queimou a carta que o pontífice o enviara.

Isso causou uma enorme crise política entre Roma e a Alemanha. Daí, Carlos V, o rei do que chamamos hoje de Alemanha, convocar uma conferência cujo objetivo principal era fazer com que Lutero renunciasse e se retratasse dos crimes que havia cometido contra a citada igreja, pelo que vinha pregando e escrevendo sobre em favor da Reforma Protestante.
Ainda que não tenha ficado claro, a resposta de Lutero, texto acima, o livrou temporariamente da pena de morte, mas não da excomunhão, o que para um clérigo, nas circunstâncias da época, não fazia muita diferença.

Ainda temeroso pela vida do monge, Frederico o capturou e o manteve escondido por uma ano no Castelo de Wartburg, onde se supõe ter escrito Castelo Forte, o que para nós hoje é o hino oficial da Reforma. O hino, baseado no salmo 46, revela a confiança do salmista na providência divina: Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. Lutero soube bem traduzir o espírito do salmo, quando deixou registrado: O Príncipe de Mal / Com seu plano infernal / Já condenado está / Vencido cairá / Por uma só palavra.

Morte sem pena

Apedrejamento de Estevão por  Haiku Deck
Mas eles taparam os ouvidos e, gritando bem alto, avançaram todos juntos contra Estêvão. Depois o jogaram para fora da cidade e o apedrejaram. E as testemunhas deixaram um moço chamado Saulo tomando conta das suas capas. Atos 7.57-58

O livros dos Atos dos Apóstolos nos apresenta um homem com licença para matar. Nos filmes do famoso agente secreto inglês 007 o cinema fez parecer uma atitude heroica e patriótica, mas quem viveu os primeiros anos da fé cristã, assim como os anos de chumbo no Brasil sabe que não é bem assim que a banda toca, sabe que esta situação tem dois lados.
Já dizia Ésquilo: Na guerra, a verdade é a primeira vítima. A questão de quem está certo ou errado não vem ao caso. O que se pergunta é: Por que o homem se investe de tanto poder? Porém, no caso de Paulo outras perguntas se seguem a essa: Como ele, tendo atingido o grau máximo de autoridade, plenamente convicto de suas crenças, veio a debandar para o lado perseguido, chegando a ser o principal alvo de perseguição daqueles que antes o admiravam? Algumas considerações devem ser feitas antes de tentarmos responder a esta pergunta.
Por trás dessa mudança drástica existe um divisor de águas. No caso Saulo, a meu ver, foi a morte de Estevão, que morreu debaixo de sua autoridade. Saulo pôde ver que além da razão, do direito e da tradição existe algo que supera em muito tudo isso. Algo que ele até já tinha ouvido falar que acontecera com algumas pessoas na história do seu povo. Saulo, antes de se tornar Paulo, foi testemunha de um ato de fé que o deixou destruiu todos os seus melhores conceitos. Dez ou quinze segundos da fé de Estevão foram suficientes para abalar trinta bons anos de ensino rabínico que ele aprendera desde sua infância.
A fé prima por este propósito: encorajar os perseguidos por causa da justiça, e fazer calar o inimigo e o perseguidor. Ter fé em Deus é aceitar os seus desígnios em nossa vida e não a convicção de que será sempre livrado do mal. Para Saulo, continuar firme na sua perseguição contra a igreja nascente bastava apenas um sinal de fraqueza por parte de Estevão. Bem mais do que sua morte por apedrejamento, ele queria a rendição, a negação da fé e a aceitação da opressão, e a fé é negação, mas a negação de tudo que Saulo mais esperava de Estevão.
Uma segunda consideração leva em conta que Saulo perseguia pessoas judias como ele, filhos de Abraão como ele, instruídos na mesma tradição e herdeiros da mesma herança que ele. Era quase como se perseguisse a ele mesmo. Será que pelo menos um dia da sua vida Saulo não acordou com vergonha de ser da maneira como Deus o havia criado? Será que nem por um dia foi humilhado na sua condição de ser humano pelo Império Romano? Por mais que reconhecesse em si a autoridade que lhe havia sido dada, em algum momento da sua história de vida ele se viu na condição humilhante de subalterno de uma poder ainda maior do que o do Sinédrio judeu. Por menos que fosse a sua capacidade de analisar criticamente os seus dois estágios, ele aprendeu pela própria experiência que de fato existem dois lados em uma perseguição.
Saulo se deparou com alguém que tinha ao alcance da mão tudo para se livrar do martírio. Bastava apenas negar alguns preceitos de sua fé. Saulo se viu diante de alguém que podia julgar sem medo a conjuntura política e religiosa que ele ferrenhamente defendia sem nunca ter questionado, por que tinha medo do que lhe aconteceria em seguida. Saulo viu naquele apedrejado uma segurança muito maior do que aquela que ele procurava em todos os itens da lei que defendia. Uma sensação de dever cumprido que nem a atitude mais estrema em favor do judaísmo havia lhe garantido até então. Sua licença para matar estava cancelada não por ordem superiores, mas por uma fé que a tornou inteiramente inócua. 

Leitura Atos dos Apóstolos 7.54-60

Homem de Deus III

O homem de Deus e o profeta, autor não identificado

Ainda há um terceiro aspecto fundamental na Palavra de Deus: Ela não é para ser compreendida e sim para ser obedecida. O homem de Deus havia entendido perfeitamente que não deveria aceitar oferta alguma pela sua missão e que não deveria voltar pelo caminho que viera. Não voltar pelo mesmo caminho tem o significado de suprimir qualquer mérito ou orgulho pelo sucesso da missão. Voltar pelo mesmo caminho significaria ser reconhecido nos lugares por onde havia passado, ser saudado com honras e glórias pelas pessoas que o reconhecessem. O novo caminho significa o anonimato e a renúncia a qualquer tipo de crédito. Já o fato de não aceitar ofertas tem a ver com o ineditismo da missão. Não são cotidianos esses milagres. O homem de Deus não vai rachar altares e imobilizar o braço do poder com nada além de fidelidade e persistência no seu ministério. O autor da narrativa deixou bem claro que a participação humana nos fatos extraordinários que a Palavra de Deus vem realizar é apenas figurativa, e que o portador desta Palavra nada deve receber por isso.
Talvez seja por isso que a Bíblia não lhe confere o título de profeta, embora ele reconhecidamente o seja. Ao preferir chamá-lo simplesmente de homem de Deus faz questão de ressaltar o aspecto que faz essa missão ser única e específica. Ao chamá-lo de homem de Deus, retira dele os encargos naturais e consequentes do profetismo como profissão remunerada.
O texto apresenta quais são os dois aspectos do profetismo através de dois profetas diferentes. O velho, que acomodado em sua casa, desfrutando dos bens que recebeu durante o transcurso do seu longo ministério. Mas para ser o portador da Palavra de Deus contra a injustiça e a iniquidade não tem que receber remuneração ou prêmios. Para ser canal da bênção quando Deus realiza os seus feitos extraordinários muito menos ainda.
Eu dizia no começo do argumento, antes de divagar pelo caminho da denúncia: A Palavra de Deus está diante de nós para ser obedecida e não entendida. Enquanto o homem de Deus insistiu nela sem hesitação ou questionamentos, ela fez por cumprir fielmente o seu propósito, e o episódio poderia ter o seu desfecho aí. Mas por que razão ele não resistiu à oferta do banquete do rei e foi sucumbir ante a pequena ceia do seu colega profeta? Por que o esforço do outro em desviá-lo do seu caminho? Este é um poderoso sinal de que as forças contrárias à palavra de Deus estão vivas e atuantes. Este é o sinal que devemos sempre cumpri-la sem procurarmos entendê-la. Contudo, este texto encontra algum sentido quando lemos em II Reis 23, que fala de um sepulcro único para dois profetas anônimos. Coincidência ou não? (anterior)

Leitura: I Reis 13.1-22

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