Morte sem pena

Apedrejamento de Estevão por  Haiku Deck
Mas eles taparam os ouvidos e, gritando bem alto, avançaram todos juntos contra Estêvão. Depois o jogaram para fora da cidade e o apedrejaram. E as testemunhas deixaram um moço chamado Saulo tomando conta das suas capas. Atos 7.57-58

O livros dos Atos dos Apóstolos nos apresenta um homem com licença para matar. Nos filmes do famoso agente secreto inglês 007 o cinema fez parecer uma atitude heroica e patriótica, mas quem viveu os primeiros anos da fé cristã, assim como os anos de chumbo no Brasil sabe que não é bem assim que a banda toca, sabe que esta situação tem dois lados.
Já dizia Ésquilo: Na guerra, a verdade é a primeira vítima. A questão de quem está certo ou errado não vem ao caso. O que se pergunta é: Por que o homem se investe de tanto poder? Porém, no caso de Paulo outras perguntas se seguem a essa: Como ele, tendo atingido o grau máximo de autoridade, plenamente convicto de suas crenças, veio a debandar para o lado perseguido, chegando a ser o principal alvo de perseguição daqueles que antes o admiravam? Algumas considerações devem ser feitas antes de tentarmos responder a esta pergunta.
Por trás dessa mudança drástica existe um divisor de águas. No caso Saulo, a meu ver, foi a morte de Estevão, que morreu debaixo de sua autoridade. Saulo pôde ver que além da razão, do direito e da tradição existe algo que supera em muito tudo isso. Algo que ele até já tinha ouvido falar que acontecera com algumas pessoas na história do seu povo. Saulo, antes de se tornar Paulo, foi testemunha de um ato de fé que o deixou destruiu todos os seus melhores conceitos. Dez ou quinze segundos da fé de Estevão foram suficientes para abalar trinta bons anos de ensino rabínico que ele aprendera desde sua infância.
A fé prima por este propósito: encorajar os perseguidos por causa da justiça, e fazer calar o inimigo e o perseguidor. Ter fé em Deus é aceitar os seus desígnios em nossa vida e não a convicção de que será sempre livrado do mal. Para Saulo, continuar firme na sua perseguição contra a igreja nascente bastava apenas um sinal de fraqueza por parte de Estevão. Bem mais do que sua morte por apedrejamento, ele queria a rendição, a negação da fé e a aceitação da opressão, e a fé é negação, mas a negação de tudo que Saulo mais esperava de Estevão.
Uma segunda consideração leva em conta que Saulo perseguia pessoas judias como ele, filhos de Abraão como ele, instruídos na mesma tradição e herdeiros da mesma herança que ele. Era quase como se perseguisse a ele mesmo. Será que pelo menos um dia da sua vida Saulo não acordou com vergonha de ser da maneira como Deus o havia criado? Será que nem por um dia foi humilhado na sua condição de ser humano pelo Império Romano? Por mais que reconhecesse em si a autoridade que lhe havia sido dada, em algum momento da sua história de vida ele se viu na condição humilhante de subalterno de uma poder ainda maior do que o do Sinédrio judeu. Por menos que fosse a sua capacidade de analisar criticamente os seus dois estágios, ele aprendeu pela própria experiência que de fato existem dois lados em uma perseguição.
Saulo se deparou com alguém que tinha ao alcance da mão tudo para se livrar do martírio. Bastava apenas negar alguns preceitos de sua fé. Saulo se viu diante de alguém que podia julgar sem medo a conjuntura política e religiosa que ele ferrenhamente defendia sem nunca ter questionado, por que tinha medo do que lhe aconteceria em seguida. Saulo viu naquele apedrejado uma segurança muito maior do que aquela que ele procurava em todos os itens da lei que defendia. Uma sensação de dever cumprido que nem a atitude mais estrema em favor do judaísmo havia lhe garantido até então. Sua licença para matar estava cancelada não por ordem superiores, mas por uma fé que a tornou inteiramente inócua. 

Leitura Atos dos Apóstolos 7.54-60

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