Conversas de botequim

Perguntou-lhe Isaque: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? Respondeu Abraão: Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o holocausto; e seguiam ambos juntos. Gênesis 22.7

Deus proverá, vitral na Catedral de Nevers

A música popular brasileira, através dos seus geniais autores, produziu duas pérolas que narram uma mesma situação do cotidiano: uma conversa de botequim. A primeira, composta por Noel Rosa e Vadico, em 195, recebeu merecidamente este nome, e descreve o diálogo de um malandro com um garçom de forma hilária e pejorativa, mas muito próxima da realidade. A segunda, que em 1979, recebeu o título de Amigo é pra essas coisas, foi composta por Aldir Blanc e Silvio da Silva, já trás consigo a dramaticidade o caos da economia brasileira.

Mas do que simplesmente descrever o jeito malandro e irreverente do brasileiro, as composições mostras dois estágios diferentes de pessoas que, por decisão própria ou por força das circunstâncias, sobrevivem as custas da economia informal ilegal: os jogos de azar. Mas é nas entrelinhas que vamos encontrar aquilo que podemos chamar de inspiração para esta meditação: as expectativas das pessoas quanto ao seu futuro.

Se Noel quis fazer com que o seu personagem confiasse no Jogo do Bicho a sua oportunidade de ascensão social, Aldir Blanc colocou alguma esperança em um dito popular que, embora tivesse o seu sentido original distorcido, teve as suas origens no texto das Sagradas Escrituras. Pois é, o nosso "Deus dará", que se inspirou e uma declaração radical de fé do patriarca Abraão, passou a identificar aqueles que na ociosidade esperam que a providência divina lhes dê o que deveriam conseguir através do trabalho honesto.

Diferenças gritantes existem entre aquele que na sua total incapacidade de resolver o dilema no qual está envolvido, resolve, por meio de uma fé incondicional, entregar-se nas mãos de Deus, e aquele que deposita a sua fé em uma eventual mudança no rumo das circunstâncias.

Quando, no final da sua composição, Aldir Blanc usou a expressão "Eu vivo ao Deus dará", o fez após descrever uma situação inusitada e surpreendente. Pois o seu malandro, que havia pedido ao amigo, com quem trocava confidências na mesa de uma bar, que lhe pagasse uma bebida, e após contar a situação de penúria em que se encontrava, inesperadamente recusa a ajuda financeira desse mesmo amigo, sob o pretexto de que a amizade desse amigo já lhe havia lhe dado toda a ajuda de que necessitava naquele momento. Ele preferiu, em favor dessa grande amizade, escolher o apreço, pois como ele mesmo diz: o apreço não tem preço.

Não posso sequer imaginar a apreensão e a dor que estavam por trás da resposta de Abrão a Isaque. Por conta disso, não podemos, da mesma forma, julgar o que está por trás de uma fé que incondicionalmente se entrega à providência. Mas podemos, sim, tentar sentir o quanto pesa uma decisão desse tipo.

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