O que é SEXO?

Amor entre homem e mulher, Egon Shiele
Tanto a procriação como a volúpia sexual apresentam no Primeiro Testamento uma ambivalência claramente pronunciada. De um lado são apresentadas como um acontecimento sacrossanto e como uma coisa fundamentalmente boa e santa, pelo menos dentro do quadro do matrimônio monógamo (Gn 1.27). O motivo é que Deus quis e criou essas formas de vida sexual.

A origem da vida, que em última análise é o fim da sexualidade humana, supõe íntima colaboração e contato com Javé, de quem depende toda fecundidade, e cujo juízo punitivo inflige esterilidade. A mulher israelita reivindica obstinadamente o direito de ter filhos; para esse fim ela lança mão de todos os meios, mesmo daqueles que a concepção cristã julga ilegítimos, como mostra a narrativa sobre as filhas de Ló (Gn 19.30) ou aquela sobre Tamar (Gn 38). Como o israelita está profundamente convencido da legitimidade das relações sexuais dentro do matrimônio, todo puritanismo a respeito da vida sexual normal lhe é alheio.

As vantagens das relações conjugais entre esposos legítimos são recomendadas sem rodeios (Ez 24.15; Pv 5.15-20; Mal 2.15 A Lei não proíbe a poligamia, porém Lv 18.18 proíbe casar-se com duas irmãs ao mesmo tempo. Supõe-na até como normal (Dt 21.15); mas, sobretudo depois do cativeiro, há uma tendência bem clara em favor da monogamia (Tb 1.11; 8.4). Na grande maioria dos casos fala-se com muita franqueza sobre tudo o que está em relação com o nascimento e a procriação: a menstruação, os órgãos genitais, o prepúcio e a circuncisão. Uma exceção formam alguns eufemismos conhecidos: o juramento com a mão “debaixo da coxa” (Gn 24.2; 47.29), os “pelos dos pés” (Is 7.20), a “água dos pés”, a “nudez” de uma mulher (Jr 13,26). A legitimidade da sexualidade conjugal segue também do fato de ela ser usada como símbolo das relações espirituais entre Javé (como esposo) e o povo (como esposa fiel ou infiel (Os 2; Ez 16. 23).

De outro lado encontramos no Primeiro Testamento um julgamento menos favorável e até certo medo pelas manifestações do sexo. Seria um erro supor que os autores de tais textos davam menos valor ao matrimônio. Mas o ato conjugal, mesmo quando feito em perfeita ordem, guarda aos olhos do israelita alguma relação com forças misteriosas (antigamente dizia-se, mas sem razão, forças demoníacas). Não se pode negar que as relações sexuais pareciam incompatíveis com a severa seriedade da vida militar (Dt 24.5; II Sm 11.11), e que causavam inaptidão para qualquer ato de culto (Ex 19.15; Lv 15.18-24). Em Gênesis nota-se a influência da ideia bastante pessimista de que a diferenciação sexual dos homens é uma consequência do pecado (3.7); o estado das mães logo depois do parto parece implicar certa culpa (Lv 12.6). Em geral, os costumes sexuais dos israelitas são muito severos. O atentado contra a vida na forma de automutilação é condenado com a maior veemência (Dt 23.2); o uso de roupas femininas por homens ou vice-versa é considerado “uma abominação aos olhos de Deus” (Dt 22.5; talvez se trate aqui de uma forma de culto idolátrico).

Antes do matrimônio exige-se perfeita virgindade, pelo menos da parte das mulheres (Dt 22.13; Lv 21.7-10), e todo atentado contra a fidelidade conjugal no matrimônio é punido severamente. O castigo mais antigo pelo adultério propriamente dito foi a morte pelo fogo (Gn 38.24); mais tarde a mulher adúltera era apedrejada (Dt 22.21). Também contra outras transgressões sexuais existiam castigos pesados, como, por exemplo, contra as relações sexuais entre parentes até certo grau (Lv 20; incesto (Gn 35.22), a violação de uma virgem (Ex 22.15), a bestialidade (Lv 18.23) e, sobretudo, a prostituição (Dt 23.18; Lv 19.29; I Rs 14.24) e sobre a prostituição sacral das hierodulas (Dt 23.18; l Rs 14.24; 22.47). Sobre as práticas contrárias à natureza julga-se severamente, isto é, a onania (Gn 38.9) e a pederastia (Dt 23.19). Sobre a masturbação ver Lv 15.16 e Dt 23.11. Numerosos são os avisos contra as seduções da "mulher alheia” (Pv 5.2; 6.24. As acusações dos profetas contra a prostituição da idolatria (Os 2.5-12; 5.1; Is 1.21; Jer 2.20) sugerem fortemente que a tipologia tinha fundamento na realidade.

No Segundo Testamento, apesar de certas asserções em contrário, muitas vezes repetidas e nunca provadas, Jesus tinha todo respeito pelo matrimônio monógamo (Mt 19.4-6). Com relação ao sexo ensina três pontos que transcendem o Primeiro Testamento. Não apenas o ato mau, mas também a concupiscência (o olhar cobiçoso) é pecado (Mt 5.28); trata-se aqui de uma cobiça que é algo mais do que o desejo da mulher do próximo como uma espécie de propriedade (o que Ex 20.17; Dt 5.21 já proibia); pois a malícia vem do “coração”, isto é, da intenção (Mt 15.19). O celibato por causa do Reino de Deus é superior à realização da sexualidade no matrimônio (Mt 19.10- 12); também essa doutrina tem as suas prefigurações no Primeiro Testamento (Is 56.3-5), mas não encontrava apoio na prática dos israelitas antigos. O matrimônio é de todo indissolúvel (Mt 19.8).

Também S. Paulo não merece o nome de “asceta, inimigo da vida sexual”; não despreza o matrimônio (I Tm 4.3; 5.14; I Cr 7.1-7.9. 28.36.39), nem a mulher como companheira sexual (I Tm 2.15). No entanto, a virgindade, de acordo com o conselho do Senhor, é mais excelente (I Cr 7.15-26; 11.8). O verdadeiro cristianismo transcende os sexos (Gl 3.28), e luta por isso continuamente, na convicção do apóstolo, contra todas as formas de luxúria (confira os catálogos de pecados em Rm 1.24-32; Gl 5.19); toda luxúria é uma violação dos di­reitos de Cristo sobre a pessoa (I Cr 6.13-20; Ef 5.5; I Tm 1.10). 

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