A casa do meu Pai tem muitas moradas

Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também. 
Jesus e o mundo, Chretiens 2000
As especulações sobre o que Jesus quis dizer com "moradas da casa do meu Pai" têm servido para fundamentar uma quantidade enorme de doutrinas, não somente na fé cristã, como também em outros credos. As mais divulgadas são aquelas que fazem referência a outros planetas habitados por vida inteligente e a que fala especificamente da reencarnação.

Porém, o cristão deve atentar principalmente para o momento histórico da vida de Jesus para tirar as suas conclusões do texto.  O contexto narra um clima de apreensão e incerteza, pois trata do que os teólogos chamam de "discurso de despedida". Então, logo de saída podemos perceber que deveriam ser palavras de conforto e esperança para quem estava vivendo toda a tensão dos últimos momentos do ministério terreno de Jesus.

Não podemos, de igual modo, afirmar que é um texto escatológico e que se refere à futura segunda vinda de Jesus, porque tamanha apreensão não poderia jamais aguardar os mínimos dois mil anos que separam as palavras da concretização da promessa. O problema era urgente e merecia uma solução urgente. Os discípulos estavam assustados, pois não faziam a menor ideia de como prosseguiriam na caminhada da fé, uma vez que o mestre que os guiara até ali estava dando sinais claros de que iria deixá-los por um tempo indefinido. E é justamente aqui que temos que nos lembrar das promessas que Jesus fez de não nos deixar órfãos um instante sequer.

Diante do paradoxo de uma ida sem volta definida, e da total negação da possibilidade de abandono, temos que entender que a conversa tinha o objetivo de definir bem mais do que o lugar exato de onde seria a habitação de Deus. O assunto deveria necessariamente abordar o que os fiéis às promessas poderiam esperar, com absoluta convicção, que as portas da casa de Deus estariam sempre escancaradas para eles.

Deus é gordo, definiu Jorge Amado em seu poema Dona Flor e seus dois maridos. E eu penso que é este o caminho mais seguro para se trilhar quando nos deparamos com um texto desta complexidade: apelar para o amor incomensurável de Deus e o bom humor sempre presente em Jesus. Geralmente é uma pessoa gorda que promove as festas e que está constantemente sugerindo algo agradável para se fazer. Por maior apreensão que estejamos vivendo, as alegrias da casa do Pai são maiores ainda.

Então, entender que Jesus estava dizendo que na casa do seu Pai cabe todo mundo, não é nenhuma heresia ou absurdo teológico. É sim tentar dar às palavras uma conotação mais próxima do que seria o mais aconchegante de todos os confortos: o conforto maternal. Eu até ousaria ir mais longe. Diante de tantos empecilhos e regras de conduta moral criados pela igreja nesses dois mil anos de espera, eu penso que Jesus estava querendo mesmo dizer as palavras exatas que eu li há algum tempo, no Chiador, num quadro na parede da casa dos amigos Helô e Zezé: Na casa da vovó pode tudo.

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