Morrendo, morrerás

O Édem e a queda do homem, Peter Paul Rubens
E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás. Gênesis 2.16-17

Dentre os 613 mandamentos da lei judaica, 365 são negativos e todos com a ordem expressa de não fazer ou de não ser.  Mas isso nem de longe retrata a ação de Deus na criação. A esmagadora maioria dos seus mandamentos foram positivos, e todos da ordem do ser e do fazer acontecer: haja luz, haja firmamento, ajuntem-se as águas, produza relva, haja luzeiros no firmamento, povoem as águas, produza seres viventes, façamos o homem, sede fecundos, multiplicai-vos e por aí a fora. Interessante notar que foi justamente o primeiro mandamento negativo, o não comer da árvore do conhecimento, o primeiro também a ser desobedecido.

O homem não tratou, de antemão, de negar qualquer outro mandamento, e é especificamente nessa desobediência que se instalou uma questão fundamental para a nossa compreensão do porquê da nossa finitude. Mas que para que isso se processe, precisamos ter em mente o que resultou da segunda interpretação deste mesmo versículo, e que em tese se mostrou até mais factual: Gn 3.4 - Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. De fato, nem o homem e nem a mulher morreram imediatamente após comerem do fruto proibido. Isso somente se deu um bom tempo depois. O que pensar disso tudo? A serpente, então, estaria mais certa do que Deus? Estaria com ela a verdade? Teria Deus mentido?

Quanto ao teor da negativa da serpente, já há algum tempo postamos a meditação: www.amosboiadeiro.blogspot.com.br/2013/03/o-sinal-da-serpente_3.html. Portanto, gostaria de tratar de outro aspecto também presente neste texto bíblico: a fatídica impossibilidade de se traduzir a Bíblia literalmente. Pior ainda, o simples fato de que normalmente são os itens de tradução dúbia que provocam estes grandes questionamentos. Por exemplo: se fôssemos considerar os tempos de verbos da língua hebraica que não existem na nossa língua, onde lemos certamente morrerás, melhor seria dizer: no dia em que dela comerdes, em morrendo, morrereis continuamente.

Embora essa tradução transpareça o melhor do pensamento inglês do século XIX, que dizia em suma que começamos a morrer no instante em que nascemos, o sentido de que a Bíblia dá a morte não tem, de forma alguma, essa negatividade absoluta. Mesmo quando Adão, e aqui falamos do gênero humano, rasgou os mandamentos mais consensuais e fundamentais da coexistência em sociedade, ainda assim, Deus lhe concedeu uma sobre vida. Ou seja, uma prorrogação do seu tempo, para que imbuído da certeza da sua morte, repensasse alguns dos conceitos que fatalmente levam o homem à morte prematura.

Logicamente que houve um crescimento nessa concepção. Mesmo aquilo que em primeira instância pareceu uma maldição: a mulher dar à luz em dores, a implementação do governo masculino, do fruto do trabalho vir com a fadiga, hoje olhamos com outros olhos, e consideramos absolutamente normal e até necessário que estas coisas sejam assim.

Porém, o sentido mais pleno daquela morte no jardim do Éden se materializou somente no ministério de Jesus Cristo, em que não apenas a relativizou, como também mostrou o quanto ela pode ser produtiva: se um grão de trigo não for jogado na terra e não morrer, ele continuará a ser apenas um grão. Mas, se morrer, dará muito trigo.

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