Cardos da charneca

Cardos ao longo da estrada, van Gogh em 1888
Assemelha-se ao cardo da charneca e nem percebe a chegada do bom tempo, habitando o solo calcinado do deserto, terra salobra em que ninguém reside. Jeremias 17.6

Cardo da charneca, tamargueira no deserto, arbusto solitário, junípero no deserto são algumas das traduções do degradante nome que foi conferido pelo profeta Jeremias às pessoas que depositam a sua confiança na transitoriedade dos bens materiais ou em outra pessoa que lhes é semelhantemente mortal. Apesar de ser um título curioso, não é exatamente o termo esdrúxulo o que de mais interessante existe neste texto, e sim as consequências imediatas que advém aos que a ele fazem jus. 

O profeta não se utiliza do costume comum de lançar um tipo de maldição, cuja origem pode ser atribuída a um castigo de Deus pela possível insolência do ato de insubordinação contra a sua divindade. Ele também não quis dizer que a sua denúncia é o inescapável e trágico resultado de um agouro profético, como se ele, na posição de profeta, tivesse um poder de determinar o futuro da vida das pessoas comuns. As palavras de Jeremias são muito mais profundas e objetivas do que todo o corolário de punições prescritas na lei judaica ou em qualquer código religioso do paganismo da época.

O profeta de Deus fala das consequências que intimamente levam o transgressor ao desapontamento total. Fala muito claramente do quanto a mente desses indivíduos fica obscurecida, a ponto de torná-los incapazes de avaliar as suas próprias miserabilidades. 

Podemos ver que esta profecia nos apresenta três desafios diferentes:

O primeiro desafio é o de mostrarmos com a própria vida o quanto estão erradas as pessoas, na sua maioria ateus, quando atribuem à fé cristã exatamente esse tipo de alienação. Para elas não passamos de belíssimos cardos da charneca, que simplesmente assinamos um cheque em branco e o entregamos na mão de uma ilusão, fruto de uma superstição milenar. Contudo, precisamos antes entender que o fato de depositarmos a nossa confiança em Deus, não nos dá qualquer garantia de segurança pessoal, muito menos privilégios exclusivos. Esse tipo de crendice só faz com que os ateus se cubram de razão, porque por mais que sincera e honesta sejam as nossas petições, elas sempre estarão sujeitas ao poder e ao querer de Deus, que nem sempre correm junto aos nossos desejos e, principalmente, no que diz respeito ao que julgamos ser vitalmente necessário. Entre o poder de Deus e o querer de Deus está erigido um projeto muito mais elevado do que o meu desejo pessoal ou mesmo do que a minha necessidade mais premente, ele se chama salvação do mundo.

O segundo desafio é o de tentar ver com mais fé os sinais dos tempos que comprovam efetivamente o que Jesus quis dizer quando falou que ele e o seu Pai trabalham até agora. Em vez de ficarmos calculando o tempo que falta para uma Parusia, muito pouco explicada na Bíblia, enxergamos que o tempo de Deus é o hoje, como bem lembrou o salmista: Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração.

O terceiro diz respeito às fontes das águas que estamos bebendo. O que mais vemos nas redes sociais são mensagens curtas, aparentemente inspiradas na fé, que para muitos cristãos de hoje tomaram a força de verdadeiros versículos bíblicos. Frases que são compartilhadas e alcançam dimensões continentais em poucos minutos, mas que, se analisadas à luz das Escrituras contrariam radicalmente o cerne do pensamento cristão. 

Ainda ontem eu li o seguinte absurdo em vários endereços de pessoas que professam a fé cristã. É o seguinte: evitar pessoas não é fazer inimigos, mas purificar relações. Jesus não poderia ter sido mais explícito quando na oração a seu Pai, pediu: Não peço te que os tire do mundo, mas que os liberte do mal. Quando tão somente repercutimos esses conceitos. sem antes filtrá-los a luz do que diz a Bíblia, não incorreríamos também no erro de confiarmos a outras pessoas uma coisa muito pessoal e séria, que é a nossa opinião? Não estamos deixando que elas pensem e se expressem por nós?

Por que confiar nos bens materiais? Segundo Catón, um famoso jornalista mexicano: Há pessoas pobres, mas tão pobres, que é a única coisa que possuem é dinheiro.

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