O pessimista é mesmo o mais informado?

Com tremendos feitos nos respondes em tua justiça, ó Deus, Salvador nosso, esperança de todos os confins da terra e dos mares longínquos; que aplacas o rugir dos mares, o ruído das suas ondas e o tumulto das gentes. Salmo 65
Tempestade no Mar da Galileia, Rembrandt em 1633
Texto do rev. Jonas Rezende extraído do livro Salmos para o Coração.
Alguém afirmou, com certo cinismo que a diferença entre o pessimista e o otimista é que o primeiro é mais informado. Parece lógico, especialmente quando refletimos sobre os problemas pessoais, nacionais e mundiais, que existem desde sempre e não parecem de solução fácil ao homem do século XXI, com todo o seu instrumental pós-moderno. Por outro lado, sinto que é muito simplista responder apenas coma a declaração de Davi que abre este salmo: Deus é nosso salvador, esperança de todos os confins da terra. Até porque existem outras pistas que desmentem a impressão corrente; nem sempre as cassandras e os pessimistas são mais informados.

O nosso Pedro Bloch chega a dizer, com os seus olhos que lembram o mar de Capri: não existe beco sem saída, porque, na pior das hipóteses, a gente pode sair pela entrada do beco. E o alemão Ernest Bloch, filósofo ateu, estuda contextos concretos em que o ser humano inventa possibilidade de reverter situações desastrosas, que são frequentemente da sua própria responsabilidade.

Veja como a criatividade humana pode assimilar esperança de um mundo melhor. A nave americana Pioneer X, invento humano, saiu há anos do sistema solar. E depois de todas as informações científicas que enviou à Terra, continua seu voo pelo espaço, mesmo se o nosso planeta desaparecer. Mas nem é preciso tanta eloquência para falar da criatividade humana. Basta recordar que os escravos negros oprimidos criaram, com rejeitos que chegava à senzala, a feijoada, prato delicioso da culinária brasileira. E isso me lembra as mágicas e a alquimia de minha mãe, na cozinha despojada da nossa pobreza.

Mas a Natureza também trabalha para superar as nossas agressões e outras calamidades. Leia o livro O Videota, de Jersy Kosinski, que chegou ao cinema com o nome de Muito Além do Jardim, último trabalho de Peter Sellers. A história nos ensina que a Natureza se recompõe, se autorregenera; é o verde nasce da pedra. O salmista celebra como nunca: tu visitas a terra e a regas; tu a enriqueces copiosamente; os ribeiros de Deus são abundantes de água; preparas o cereal, porque para isso as dispõe, regando-lhes os sulcos, aplainando as leivas. Tu a amoleces com chuviscos e lhe abençoas a produção. Coroas o ano da tua bondade; as tuas pegadas destilam fartura, destilam sobre as pastagens do deserto, e de júbilo se revestem os outeiros. Os campos cobrem-se de rebanho e os vales se vestem de espigas; exultam de alegria e cantam.

Você conhece página mais bela para falar da vitalidade da Natureza? Que belo poeta é o rei Davi!

Mas voltando ao ponto de partida, a nossa esperança, que nada deve às informações, se apoia, acima de tudo, na fé; aceitamos que o propósito último de Deus para o Universo e o ser humano é a salvação, a libertação, como o salmista bem declara neste poema.

Mas, não quero terminar sem deixar com você dois lembretes. Primeiro, a observação de Teilhard de Chardin: o mundo pertencerá àquele que lhe puder oferecer, ainda aqui na terra, a maior esperança. Por fim, a poesia de Henfil: se não houve frutos, valeu a beleza das flores; se não houve flores, valeu pela sombra das folhas; se não houve folhas, valeu a intenção da semente.

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Os pessimistas são mesmo mais informados?


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