O Jornal do Salmista

Há no coração do ímpio a voz da transgressão; não há temor de Deus diante de seus olhos. Porque a transgressão o lisonjeia a seus olhos e lhe diz que a sua iniquidade não há de ser descoberta, nem detestada. As palavras de sua boca são malícia e dolo; abjurou o discernimento e a prática do bem. Salmo 36 1-3
A viúva e o juiz iníquo, Everett Millais (1829-1896)
Billy Graham dizia: A Bíblia é mais atual do que o jornal de amanhã. De uma forma um pouco diferente, porém, equiparando a atualidade dos dois tipos de literatura, Karl Barth afirmou: O pregador do evangelho deve ter em uma das mãos a Bíblia e na outra o jornal. Apesar de conhecer e concordar com o pensamento de ambos os renomados teólogos, tenho que confessar que cada vez mais me surpreendendo com os textos das Escrituras Sagradas, e este salmo, o 36, é um dos que mais me assombra. Nessas breves palavras o salmista não só descreve a trajetória da corrupção desde o seu nascimento, como também apresenta os seus motivadores e consequências. O mais curioso de tudo é que ele está falando especificamente para a sua geração, quando muito para alguns poucos anos à sua frente. Ele não tinha a menor ideia de que as suas palavras ecoariam por milênios após a sua morte, e nunca teve a pretensão de que elas seriam genuinamente válidas e extremamente contextuais por tanto tempo depois.

A receita que ele nos dá da caminhada iníqua daquele que corrompe a justiça através do uso corrupto do poder é tão precisa que parece que está falando de elementos do nosso atual congresso nacional. A sua leitura da realidade foi tão bem elaborada, que suplantou até mesmo o seu próprio tempo. Eu tenho poucas dúvidas que este salmo não tenha servido para narrar com exatidão história de cada nação, de cada governo e de cada povo em cada um desses mais de dois mil e seiscentos anos.

Observem bem o requinte do narrador: Ele diz que a corrupção não nasce numa escola, não é comum a uma geração ou mesmo peculiaridade de uma família. Fiel ao ensinamento bíblico, ele sabe que de uma mesma cesta, podemos colher figos bons e figos estragados. O salmista nos fala que a origem da corrupção é uma voz que fala ao coração, e que cabe a cada um rejeitá-la ou fazê-la ecoar pelos quatro cantos. É uma opção de responsabilidade individual e intransferível.

Ele fala também que só responde positivamente ao seu apelo aquele que não teme a Deus, o que imagina que ele não existe ou mesmo quem pensa que ele não leva em conta este tipo de deslize. Ele diz tamnbém que essas coisas são feitas sem dolo e sem qualquer remorso. Além de identificar elementos que estão inclusos nestes casos, o salmista detalha bem os seus motivos: Eles agem assim porque é para eles motivo de orgulho. De uma forma bastante bizarra, um grande segmento da nossa sociedade os inveja, e se estivesse no lugar deles faria a mesma coisa. Eles tem orgulho porque tem quem os inveje. Mas o que agrava em muito o seu julgamento é justamente a certeza que os iníquos tem de que sairão impunemente. Para o bem da verdade esta é uma acusação que recai sobre todos nós, porque se todos aceitássemos as punições devidas aos nossos erros, não daríamos margem à proliferação da corrupção nos altos escalões governamentais. Neste caso, o exemplo vem de baixo.

Agora, que me perdoem os honestos leitores da Bíblia de todos os tempos, e também os seus intérpretes fidedignos de outros povos, mas eu não tenho como não admitir que este final foi escrito exclusivamente para nós, brasileiros da virada do século. Alguém pode querer encontrar mais malícia e dolo do que nas palavras daqueles que não só recriaram a reeleição nesse país, mas que a instauraram à força, cuspindo na Constituição, com propinas que fariam qualquer mensaleiro babar de inveja? Ou alguém quer mais desconsideração com o discernimento de um povo do que aquele que orgulhosamente endossa um projeto que claramente vilipendia a vontade popular, e que para ser simpático a uma manifestação nas ruas, festeja a derrubada deste projeto, antes mesmo que ele seja votado? Quem não se sente um perfeito idiota quando o segundo maior poder da república usa indevidamente um bem público, como se fosse propriedade sua, e quando questionado diz não ver erro algum nisso?

Diferentemente dos comentaristas políticos atuais, que dizem que haver algo muito errado, o salmista vê dificuldades enormes para encontrar alguma coisa certa, por isso, me falta estômago e não argumentos para falar da omissão da prática do bem. Já faz muito tempo que o serviço público no Brasil, na sua quase totalidade, foi privatizado pelo interesse de cada um. Jesus falou isso a respeito do sal, mas se aplica também ao nosso governo como num todo: nada mais presta senão para ser jogado na privada.

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