A linguagem de Deus

Aquele que Deus enviou diz as palavras de Deus porque Deus dá do seu Espírito sem medida. João 3.34
Jesus e a pecadora, Jesus Mafa
Há quem afirme que Deus ainda hoje dialoga com o homem através do mais antigo meio de comunicação que já se estabeleceu entre o divino e o humano: a permuta de sacrifícios por bênçãos. Estes tais se valem dos textos do Primeiro Testamento, assim como a oração de Jacó e a bênção de Jabês, para respaldarem as suas convicções religiosas. Seria possível que nos dez mil anos em que  a civilização avançou na sua tecnologia de comunicação, a de Deus tenha permanecida estática?

Logicamente que a imagem que fazemos de Deus está bem distante dos desenhos rupestres das cavernas do Paleolítico, e talvez até mais distante ainda das horrendas figuras que foram cultuadas na antiguidade. Contudo, percebemos que se a imagem dos terríveis deuses da guerra não nos assombram mais, o temor por trás das palavras na comunicação entre os homens e Deus parece inalterado. Termos meticulosamente escolhidos e proferidos entre dentes constituem a tônica das nossas orações. Não foi por mera ignorância que os discípulos pediram a Jesus que lhes ensinassem a ora. Por seu turno, Jesus sabia muito bem que na oração era mais importante saber ouvir do que saber o que dizer, pois até mesmo as palavras que dizemos devem ser inspiradas pela ação do Espírito Santo em nós, o que torna nulo qualquer esforço humano no sentido de aperfeiçoar esta comunicação.

Por diversas vezes e das mais variadas formas, os escritores bíblicos tentaram nos transmitir a ideia da nulidade dos sacrifícios, da não necessidade de Deus receber qualquer oferenda, e do propósito real que o Criador tem para a sua criatura. Alguns profetas chegaram a dizer que o sacrifício era um ato abominável aos olhos de Deus, e que antes de qualquer manifestação cúltica vêm a verdade, a justiça e o amor.

No salmo 40, um tema que é retomado pelo escritor da Carta aos Hebreus, o salmista, por iluminação, chega à conclusão de algo que Jó precisou passar por uma duríssima experiência para entender: que por trás de todo o diálogo que se mantém com Deus, nos é dado sempre conhecer um pouco mais da sua vontade para conosco. O salmista também reconhece que, ao conhecer esta vontade, o homem está se comprometendo com muito mais recursos do que estariam disponíveis em qualquer sacrifício que este fosse oferecer: Sacrifícios não quiseste, se não eu te daria. Ou seja, por mais penoso que seja um sacrifício, ele não trás consigo o comprometimento de uma vida de dedicação a um Deus.

Sabemos bem o quanto isso foi pesado e doloroso. Sabemos o quanto a cruz cobrou para ratificar uma nova possibilidade diálogo. Então como é possível que ainda nos relacionemos com Deus de uma forma tão primitiva? Como ainda superamos os medos ancestrais nessa comunicação que visa exclusivamente o nosso bem?

João, o evangelista, no nosso texto base de hoje coloca uma linha divisória entre aqueles que têm nos lábios as palavras da verdade e aqueles que, no dizer de Paulo, estão apenas fazendo barulho "como bronze que soa ou como um címbalo que retine". Mais do que querer ser glorificado, exaltado, adorado, entronizado ou qualquer outra atitude neste sentido, Deus quer que a suas palavras sejam ouvidas E se para isso nada poupou no passado, hoje ainda continua firme no seu intento, agora nos dando o seu Espírito sem medida.

Fica para nós uma escolha nada fácil: continuar buscando Deus nas nossas atitudes voluntárias e esforços pessoais, ou, o que não é nada simples, nos deixar guiar por um Espírito que nos fala ao coração, porém, não sabemos de onde ele vem e nem para onde ele vai.

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