Processo eletivo, o mesmo desde sempre

Saul é reprovado por Deus, John Singleton em 1798
A pluralidade de poderes não é conquista da democracia e muito menos da modernidade. Os povos antigos já ficavam divididos entre os poderes monárquicos e religiosos, isso, logicamente, quando a mesma pessoa não usurpava os dois cargos. No exato momento em que o povo de Israel fez a opção de ser governado por um rei, Deus instaurou a profecia naquele país. Parece que Deus estava querendo dizer: vocês querem um rei acima de vocês? Então eu constituirei também profetas acima deles. Mas esta transição não foi nem de longe um processo tranquilo e nem coerente. Algumas pendengas muito sérias puderam ser percebidas.

Em primeiro lugar, até mesmo antes da monarquia, já havia acontecido um impeachment dos filhos de Samuel por corrupção: I Sm 8.3 - Porém seus filhos não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinaram à avareza, e aceitaram subornos, e perverteram o direito. É curioso notar que a prática mais comum nos governos do nosso país nos últimos logos anos, já era comum antes mesmo deles se instalarem. Os cariocas têm até uma piada que diz que Cabral mandou executar dois ladrões que estavam na sua frota flagrados em delito, e que os enterraram aqui. Bom, segundo a famosa carta de Pero Vaz de Caminha, “esta é uma terra que em se plantando, tudo dá”. Por conta deste incidente é que nunca mais parou de dar ladrão por aqui.

Superado o impeachment, os cara-pintadas voltaram às ruas de Israel para pedir um rei, e foram devidamente advertidos dos males que os assolariam dali por diante:
1- O rei tomará os vossos filhos e os empregará no serviço dos seus carros e como seus cavaleiros, para que corram adiante deles. (8.11)
2- Porá uns por capitães de mil e capitães de cinquenta; outros para lavrarem os seus campos e ceifarem as suas messes; e outros para fabricarem suas armas de guerra e o aparelhamento de seus carros. (8.12)
3- Tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras. (8.13)
4- Tomará o melhor das vossas lavouras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais e o dará aos seus servidores. (8.14)
5- As vossas sementeiras e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus oficiais e aos seus servidores. (8.15)
6- Também tomará os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos melhores jovens, e os vossos jumentos e os empregará no seu trabalho. (8.16)
7- Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe sereis por servos. (8.17)
Ninguém poderia dizer que foi falta de aviso.

O processo de eletivo não foi diferente em absolutamente nada ao que estamos acostumados a ver. Foi escolhido como rei o homem que era mais alto, mais forte e mais bonito: I Sm 9.2 - Tinha ele um filho cujo nome era Saul, moço e tão belo, que entre os filhos de Israel não havia outro mais belo do que ele; desde os ombros para cima, sobressaía a todo o povo. Ainda que errando no método da escolha, eles tiveram o cuidado de observar o que nunca observamos: a vida pregressa. Não a do próprio Saul, pois ainda era muito jovem, mas de toda a sua família, que era pequena, humilde e de uma região pouco expressiva.

Mas o que realmente importava eram as prescrições das obrigações que um rei deveria ter diante do povo que o escolhera. E essas prescrições não foram ditadas por Samuel, mas por uma força bem maior que ele: a Torah judaica.  É justamente na sua constituição maior que estas normas, embora não cumpridas, estão indelevelmente registradas.
1- Homem estranho, que não seja dentre os teus irmãos, não estabelecerás sobre ti, e sim um dentre eles. (Dt 17.15) (esta regra, no entanto, não vale para técnico da seleção de futebol)
2- Porém este não multiplicará para si cavalos. (17.16)
3- Tampouco para si multiplicará mulheres, para que o seu coração se não desvie. (17.17a)
4- Nem multiplicará muito para si prata ou ouro. (17.17b)
5- Também, quando se assentar no trono, escreverá para si um traslado desta lei. (17.18)

Muito embora estas prescrições pareçam comuns e desnecessárias, elas têm em seu conteúdo algo que é bem mais importante do que qualquer outro critério para a escolha de um governante: Dt 17.20 - Isto fará para que o seu coração não se eleve sobre os seus irmãos e não se aparte do mandamento, nem para a direita nem para a esquerda; de sorte que prolongue os dias no seu reino, ele e seus filhos no meio de Israel.

Hoje ao irmos às urnas pensemos um pouco no que deu certo e no que deu errado nas escolhas que o povo da Bíblia fez. Vamos olhar para dentro de nós e vermos o que realmente queremos: se é o benefício imediato de um candidato que nos prometeu algo em particular, ou bem estar comum onde não precisemos de favores particulares. Se queremos ser governados pela pelos que buscam benefício próprio, e que para isso não mediram despesas nas suas campanhas, ou por aqueles que têm algo em comum conosco. Aqueles que nos representam, ou aqueles que representam interesses contrários à nossa pátria.

Aqueles que acreditam em uma consciência mais elevada, que peçam a sua orientação nessa hora. Aqueles que não acreditam, mas que têm a sua consciência elevada, que invoquem o que ela tem de mais sagrado.

Bom voto.

Boas esperanças.

Boas realizações futuras.

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