Inveja não mata, mas faz morrer

Pois, onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins. Tiago 3.16
Inveja, Hieronymus Bosch
Proteção e prevenção contra a inveja tem sido um tema bastante explorado pelas igrejas neopentecostais, pois sempre foi uma das grandes preocupações que o sincretismo religioso faz prevalecer nesse país há várias gerações. Contudo, até então, eu ainda não havia me deparado com qualquer respaldo bíblico que pudesse justificar tamanha preocupação no meio dos crentes em Jesus Cristo. Foi aí que li um cartaz numa dessas igrejas que promovia uma cruzada contra a inveja, respaldada pelo versículo acima citado, cujo título era: Todo cuidado é pouco na hora de se prevenir contra esse sentimento destrutivo.

Confesso que tenho que aplaudir essa iniciativa, logicamente que sem entrar muito no mérito das questões e das práticas com que os ministros dessa igreja a cercaram entre suas paredes, mas porque, pelo menos em princípio, o caminho que a Bíblia aponta, realmente passa por esse aspecto: a inveja é um mal que precisa ser combatido.

Porém uma coisa deve ficar bastante clara para nós de imediato: a inveja que deve ser combatida é no invejoso e não no invejado. A pessoa que é invejada fique tranquila, porque, segundo a nossa fé, esse segunda inveja passa longe da intenção de Tiago quando escreveu sobre esse assunto em sua carta. A fé cristã não admite qualquer possibilidade da inveja de uma pessoa venha a se constituir em um mal físico ou espiritual, e que esse mal possa sobrevir de alguma forma a outra pessoa. Esse tipo de inveja é problema exclusivo do misticismo e da superstição que o cercam, nada tem a ver conosco.

A total preocupação da Bíblia é justamente com o invejoso, porque este sim necessita de atenção e cuidado. É o seu coração que está sofrendo. São as suas próprias atitudes sentimentos que estão lhe trazendo todo o mal que a inveja pode causar. É o seu comportamento que reivindica urgente orientação. Atentemos para o que Tiago diz imediatamente antes, nos versículos de 13 a 15 desse mesmo capítulo: Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras. Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade. Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca.

Logo se saída Tiago diz que a inveja é uma burrice, e é mesmo. E de uma forma bastante escabrosa ela tem penetrado nas igrejas de hoje. Quase todo mundo em nossas igrejas quer ser ministro de louvor, quer ser profeta, quer ser até apóstolo. E algumas pessoas quando não conseguem se projetar de alguma dessas formas em sua comunidade de fé, mudam imediatamente para outra comunidade onde esses seus “dons” possam ser mais bem apreciados. Poucas são as pessoas que se interessam pela educação cristã, que se empenham na arte visitação, que estimulem o convívio fraterno. A pouca inteligência tem levado as igrejas tradicionais a serem cegas e mancas, constataria Einstein. Cega pela inveja de não conseguir atrair um número grande de fiéis, como as novas denominações o fazem. E mancas, porque sem ter o mínimo traquejo de lidar com temas próprios da superstição, tentam imitá-las das formas mais ridículas que a improvisação permite.

Eu queria terminar tratando de um tipo de inveja subliminar que tem confundido muito membros, principalmente os mais humildes. Aqueles que já não aspiram ascendência a cargos importantes, e por isso vivem à margem das grandes decisões da igreja, pois se tornaram meros contribuintes. São esses membros que projetam a sua realização na figura do pastor. Eles não têm carro, mas o seu pastor tem o mais luxuoso da região. Eles moram em casebres, mas o seu pastor tem uma mansão de causar inveja. Alguns poderiam chamar de inveja santa, mas isso não existe. Segundo Tiago, toda inveja é animal e demoníaca. E é essa inveja que tem alienado às igrejas das suas comunidades locais, pois tem pregado uma fé em que os prósperos são os abençoados, e que fatalmente joga os que não são na lama da inveja. Que faz com que a igreja seja o prédio mais rico da região.

Em uma oração de profunda gratidão Jesus deixou bastante claro que são os menos favorecidos os bem aventurados, porque a esses, e exclusivamente a esses, foi dado conhecer mistérios da fé que permanecerão eternamente velados aos olhos dos ricos e poderosos.

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