Todos nós podemos ser messias

O Senhor é a força do seu povo, o refúgio salvador do seu ungido. Salva o teu povo e abençoa a tua herança; apascenta-o e exalta-o para sempre.
Psalm 28, autor não identificado


Neste salmo, diante do silêncio de Deus, Davi tanto suplica libertação da perversidade que o ameaça como agradece porque o Senhor é o salvador do seu ungido em todo o tempo.

Ungido, messias e cristo significam a mesma coisa. Jesus, para os cristãos, é o Messias prometido, o Cristo de Deus. Mas os reis bíblicos, como Davi, eram também ungidos, tornando-se messias ou cristos na condução do povo.

Por desdobramento e em sentido espiritual, somos igualmente ungidos por Deus e, assim, todos podemos ser messias e termos uma dimensão crística em nossa vida.

O ungido é o homem que se alimenta da esperança. O salmista agradece a libertação porque espera a libertação. Quando Deus nos unge, como fez com Davi, investe-nos dessa obstinação ou coragem de confessar, mesmo às quartas-feiras de cinza, à semelhança do poeta popular: e no entanto é preciso cantar e alegrar a cidade...

Mas o salmista também nos ensina que o ungido, o messias, é aquele que, além da teimosa esperança, desenvolve sua resistência para amortecer os golpes que fatalmente nos chegam. Ler a vida de Davi é entrar em contato com um homem que termina enrijecido diante de traições e todos os tipos de rasteira, até mesmo dentro da família. Leia o salmo e certifique-se de que ser um cristo ou ungido é menos privilégio do que responsabilidade.

Mas, veja bem. Acima de tudo, o salmo nos ensina que ao ungido não resta outro caminho senão o do amor. Amor que, para o apóstolo Paulo, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Amor que jamais se esgota. E o homem de Tarso deixa certo que falar a língua dos homens e dos anjos, conhecer os mistérios e toda a Ciência, doar os bens para os pobres e oferecer o próprio corpo para ser queimado, como um mártir - nada disso tem valor maior se não houver amor.

Bem mais do que nesta bonita página, Davi declara constantemente o seu amor a Deus e ao povo. Mesmo os chamados salmos imprecatórios devem ser entendidos como uma luta contra os que se opõem à bondade divina. Se estas páginas fossem escritas com a mentalidade abstrata dos gregos, parte importante da cultura ocidental, o ódio do salmista seria expresso contra a impiedade e não contra os ímpios. Contra o mal e não contra o homem mau. Ninguém é mais feliz do que Santo Agostinho para expressar essa importante diferença. E ele nos instrui: Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. Ernesto Che Guevara, em um contexto político revolucionário, tem uma declaração que considero importante e digna de reflexão. Diz Guevara: é preciso ser rijo, mas sem jamais perder a ternura...

Agora, dedique toda a sua atenção à minha observação final. Jesus Cristo, nos Evangelhos, adverte: quando vocês derem ou deixarem de dar, ainda que seja um copo de água fria, a um desses meus pequeninos, estarão fazendo ou deixando de fazer isso a mim mesmo.
Reflita um pouco. As palavras de Jesus nos ensinam que o outro é o nosso cristo ou messias. E nos responsabilizam com a pesada e difícil verdade de que somos, por consequência, também o messias ou o cristo do nosso próximo. 
Não é pouco, você concorda?

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