Quem vai e quem fica?

Mas a justiça decorrente da fé assim diz: Não perguntes em teu coração: Quem subirá ao céu?, isto é, para trazer do alto a Cristo; ou: Quem descerá ao abismo?, isto é, para levantar Cristo dentre os mortos. Romanos 10.6-7
Céu e inferno, Tekvir Suresi
Há mais de cinquenta anos, perto da casa dos meus pais, havia um casal de pentecostais muito interessante. A mulher, d. Josefina, era cheia de convicções e muito fundamentalista. Certa vez disse para a minha mãe que ela não estava salva, porque lhe havia sido permitido ler a lista dos cento e quarenta e quatro mil salvos, que, segundo o Apocalipse, era a lista definitiva dos remidos pelo sangue do Cordeiro, e que o nome da minha mãe não constava desta lista, o dela, é claro, constava. Isso nos dá uma ideia de que o pré-julgamento que determina quem subirá aos céus ou quem padecerá no inferno é coisa bem antiga.

Através de uma rápida análise poderíamos concluir que Paulo no texto que está servindo de base para esta meditação está tratando de um assunto semelhante, mas não é bem assim. Está bem certo quem tem uma fé madura a ponto de não se comprometer em fazer esse tipo de julgamento. Embora este não seja um assunto corriqueiro, para o qual não se deva dar a atenção devida. No entanto, Paulo está trazendo à tona um dos problemas cruciais para a igreja. O problema que talvez fosse o ponto de divergência mais evidente entre a fé cristã e a fé hebraica: os sinais que apontam para o Cristo. Ou seja, os judeus avaliavam a notória diferença que se estabelecia entre a presença efetiva de uma lei milenar, legada pelo maior expoente do Judaísmo abaixo de Deus, e as palavras ditas ao vento por um homem de nascimento suspeito, sem formação rabínica ou sacerdotal, e oriundo de um obscuro e remoto lugarejo.

Em Mt 16.1 podemos evidenciar bem este fato: Aproximando-se os fariseus e os saduceus, tentando-o, pediram-lhe que lhes mostrasse um sinal vindo do céu. A questão básica era essa: para superar uma lei que veio do céu, seria necessário um sinal mais evidente ainda, e este, é claro, também vindo do céu. Se diante da presença física de Jesus o caso já era complicado, imaginem Paulo tendo esse mesmo entrave anos depois. Após Jesus ter passado por uma morte pública, assistida por uma enorme multidão, e por uma ressurreição bem reservada para poucos escolhidos, dos quais Paulo nem era um deles.

No lugar da inquietante dúvida futurística sobre quem subirá ao céu ou quem descerá para o inferno, Paulo nos propõe uma alternativa bem mais complexa e atual: quem é aquele que crê com o coração, e quem é aquele que confessa com a boca? No lugar da busca incansável e insaciável dos sinais inquestionáveis, Paulo propõe outra realidade bem mais questionável aos olhos dos que não se incluem na primeira proposta: o evangelho que se crê, que se invoca, que se prega, que se ouve e em nome de quem somos enviados é identificado pelo visível ou pelo invisível? Quem, diante das injustas e cruéis circunstâncias ainda aposta no céu contra o inferno?

Quem chega a estar envolvido com esta questão, ainda que muito subliminarmente, tem diante de si duas situações: a primeira é agravante, pois recai sobre enorme problema do seria realmente crer e confessar. A segunda é atenuante. Evita, de saída, uma série de questionamentos, pois ela responde de imediato a muitas outras perguntas que foram feitas anteriormente, inclusive quem subirá ou quem descerá?

Nesse sentido o evangelho tem pressa e não pode ficar atrelado às antigas discussões através das quais os descrentes de todas as épocas se esforçam por nos envolver.  Por outro lado, também não pode perder tempo com projeções de um futuro que somente a Deus pertence. O fim da História, assim cremos, está nas mãos de Deus, a estrada que nos leva a esse fim ainda está sendo construída, e, segundo Wesley, até pode ser pavimentada de boas intenções. Porém, alerta ele, a estrada que leva ao inferno ainda no tempo presente, também tem o mesmo tipo de pavimentação.

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