O medo de Reb Suzia

Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites?
Salmo 8, Valerie Sjodin em 2004

Texto do rev. Jonas Rezende
Diógenes, o Cão, foi um filósofo de comportamento excêntrico. Com certeza, você conhece o episódio em que ele passeia em plena luz do dia com uma lanterna acesa, a repetir: procuro um homem. Francamente, não sei por que o sábio não olhou para si mesmo. A história da Filosofia, entretanto, nos informa que algumas pessoas se reuniram à sua volta, e ele as rechaçou usando o bastão e gritando com grande ira: eu disse homens, e não dejetos...

O rei Davi também procura. Não propriamente um homem, repetindo as atitudes teatrais de Diógenes. Mas procura sem descanso o encontro com o Senhor e a melhor compreensão dele mesmo e de todas as coisas. E neste salmo, depois de reconhecer a grandeza divina, testemunhada até mesmo pela inocência das crianças, Davi indaga a Deus a respeito da verdadeira natureza humana: que é o homem, que dele te lembres? e o filho do homem, que o visites? Há um certo tom de melancolia e tristeza na pergunta, criando a expectativa de que a resposta bem pode ser: o ser humano não é nada. Mas é o próprio salmista quem antecipa a resposta divina, reconhecendo que existe glória e honra na criatura humana criada - veja só! - por um pouco menor que o próprio Deus.

Observe então como o salmista nem mergulha em especulações inúteis sobre o ser humano, como com frequência acontece na história do pensamento, nem mesmo atribui a glória humana a uma conquista pessoal, como lemos nos gregos antigos. A posição dele é bem aquela que se repete nos homens de fé que povoam a Bíblia: a grandeza humana e seu domínio sobre os outros seres é uma dádiva divina. Essa a razão por que o término do salmo repete a mesma abertura desta página poética: Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome!

Mas, atenção! Tão importante como buscar conhecer a nossa natureza é também ser fiel à nossa identidade particular.

Reb Suzia, mestre judeu, entrou em depressão antes de morrer. Seus discípulos, que o amavam e lhe serviam, ficaram angustiados e se perguntavam: estaria o santo de Deus com medo do vale da sombra e da morte, de que fala o nosso pai Davi? O mestre confirma com um sorriso amargo: Temo a morte, mas somente pelo confronto que terei com o supremo Juiz. E não me importo de que ele me indague por que não fui como Abraão. Ou Moisés. Ou como os corajosos profetas e Maimônides. Meu grande medo - ele finalmente confessou - é que o Eterno me repreenda: Por que você não foi Reb Suzia? O filósofo Schopenhauer nos lembra a importância de respeitarmos o que somos, a nossa própria vida. Até porque a nossa identidade surge no encontro das diferenças.

Você foi criado por um pouco menor do que Deus. É uma grande dádiva, que antes enterneceu o coração de Davi. A imitação servil é traição da nossa identidade insubstituível, como são também as impressões digitais. Os mais jovens usam muito o verbo assumir, com sentido bem particular. É preciso então assumir a nossa identidade.

Seja você mesmo.
Assuma a sua vida como uma dádiva única de Deus.

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