Profecia x milagre

E muita gente ia vê-lo, dizendo: — João não fez nenhum milagre, mas tudo o que ele disse sobre Jesus é verdade. E naquele lugar muita gente creu em Jesus.
João Batista no deserto, Pedro Orrente
João não fez nenhum milagre, mas tudo o que ele disse sobre Jesus é verdade.Leia João 10.32-42

Tem se mostrado bastante confusa a associação da profecia com o milagre, coisa que se faz muito hoje em dia. A mensagem que mais se ouve através das igrejas televisivas, do neopentecostalismo e das igrejas tradicionais que imitam este movimento é que o poder da Palavra de Deus tem que vir acompanhada de um sinal, pois é o sinal que lhe confere a credibilidade. Sem o precedente do milagre, as pessoas tendem trocar de igreja, sentirem-se mais pecadoras do que realmente são ou apostatar da fé. De posse deste precedente, a tendência é a idolatração do pastor, o radicalismo na propagação da denominação e a autossuficiência religiosa. Em ambos os casos sinais de perigo iminente.


Se formos investigar na Bíblia essa mesma associação, constataremos que ela também existiu nos primórdios da profecia, principalmente com Elias e Eliseu. Estes profetas foram mais focados pelo prisma da expectativa de um povo muito influenciado pelo paganismo da terra que passaram a habitar do que propriamente pela mensagem que anunciavam. Devemos levar em conta de que eles profetizaram para nômades que atabalhoadamente tentavam adaptar-se ao sistema agrário que era próprio da região, e que, segundo os habitantes locais, era regido pelos milagres concedidos pela boa vontade dos deuses. Nas narrativas das manifestações proféticas daqueles servos de Deus, obrigatoriamente tinham que constar alguns elementos que sobrepujassem os feitos dos deuses pagãos, posto que fosse visivelmente daquela forma que as coisas funcionavam.

Com o amadurecimento da fé judaica, a profecia evoluiu e chegou ao seu apogeu com Isaías e Jeremias, que, pelo que se tem notícia, nunca realizaram qualquer milagre. Foi então que a associação da profecia com o milagre não foi simplesmente desfeita, mas colocada sob alta suspeição, como nos mostra o Deuteronômio 13 - Quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio de que te houver falado, e disser: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador; porquanto o SENHOR, vosso Deus, vos prova, para saber se amais o SENHOR, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma. 

Não sou do tipo que acredita que o Diabo é capaz de fazer curas com o intuito de enganar e atrair as pessoas para si. Para mim é Jesus quem tem a palavra final sobre esse elemento: o ladrão (referindo-se ao Diabo) vem para roubar, matar e destruir. Por esse motivo, não vejo qualquer milagre sob esse ponto de vista. Aconteça onde acontecer, o milagre foi e será sempre uma bênção de um Deus que não faz acepção de pessoas, e faz nascer o sol sobre bons e maus, e vir a chuva sobre justos e injustos. O problema, como retrata o texto do Deuteronômio, não está origem do milagre e sim nas suas consequências. Levou um bom tempo para Israel crer que as boas colheitas que os pagãos obtinham eram também dádivas de Iahweh, o Deus a quem Israel cultuava, e que creditar esse milagre à interferência de qualquer outro ser seria a grade abominação que o povo poderia praticar.

Por tantos motivos, inclusive por estes aqui identificados, milagre e profecia é uma associação é muito perigosa. O texto do evangelho de João nos mostra uma drástica contradição. A mensagem que Jesus pregava, mesmo realizando milagres, contrariava os interesses dos poderosos, portanto, não foi recebida como verdadeira, apesar dos sinais serem visíveis. A mensagem de João Batista, que facilmente poderia ser incorporada às tantas prescrições existentes na lei de Israel, mesmo sem sinal algum, foi acolhida por muitos.

Foi o próprio Jesus quem condenou esta associação, quando se viu cercado por pessoas ávidas pelos milagres, mas sem qualquer interesse pela sua mensagem. Disse ele muito enfaticamente: João 6.26 - Jesus respondeu: — Eu afirmo a vocês que isto é verdade: vocês estão me procurando porque comeram os pães e ficaram satisfeitos e não porque entenderam os meus milagres.

2 comentários:

Unknown disse...

Olá Revsergioduarte.
Boa tarde.
O que eu tenho achado confuso é esta crença que tudo pode ser milagre e, todavia necessitará ser “canonizado e virar santo”.
As pessoas misturam seus pensamentos e estão tão necessitados que nasce na cabeça este conceito de precisar a se apegar algo que seja de caráter religioso como se fosse à única tábua de salvação qual tivesse de recorrer num momento de indigência. Agradecendo por compartilhar e envie sempre seus posts, pois gosto de apreciar e às vezes comentar quando o assunto me interessa.
Desejando um ótimo fim de semana.
Abraços sempre.
ClaraSol

Amós Boiadeiro disse...

Clara,
Me perdoe, só vi o seu comentário hoje. Como não é muito comum ter minhas postagens comentadas, eu me esqueço de verificá-las. Mais uma vez peço perdão.
Você tem razão quanto à necessidade das pessoas se apegarem ao sobrenatural como única tábua de salvação, mas devemos nos lembrar que diante do descaso que assola esse país, a maioria das pessoas não têm outro recurso a não ser este. Nós cremos que Deus precede de acordo com um plano que é muito maior que as nossas necessidades imediatas, e que somente ele tem a visão da história toda. Pela pequena brecha que nos é permitido ver, não dá pra ter noção da diferença entre um feito extraordinário e uma obra do acaso.
Abs.
RevSergioDuarte

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