S. Sebastião enganou a morte

S. Sebastião denuncia a peste, Josse Lieferinxe
Se existe um personagem na história da Igreja Cristã cuja vida pode ser chamada de curiosa e a morte de mais curiosa ainda, este deve ter o nome de Sebastião de Narbonne, conhecido pelos cariocas pelo nome de São Sebastião do Rio de Janeiro, o santo que emprestou o nome à sua famosa cidade e a mais de uma dezena de cidades pelo mundo. Muito embora existam versões que possuem divergências entre si, principalmente no que diz respeito à sua morte ao ser alvejado por várias flechadas, os fatos que se têm consenso já são suficientes para colocá-lo na honrosa galeria dos cristãos heróis da fé.

Nascido nos anos de 260, na Gália, assim como seus pais era reconhecido como natural de Milão, pois foi esta a cidade onde passou a maior parte da sua infância e juventude. Cidadão romano com todos os direitos de nascimento, desde muito cedo se tornou um cristão fervoroso e fiel. Era reconhecidamente avesso ao serviço e as práticas militares, muito disso por conta de sua fé em Cristo. Em 283 alistou-se no exército romano do imperador Marcus Aurelius Carino, para que pudesse prestar socorro e consolar os cristãos confessos e condenados em seu martírio de modo a não levantar suspeitas.

Sua camuflagem foi descoberta quando o insistentemente clamor pelos irmãos gêmeos diáconos Marcus e Marcelino, que ameaçavam apostatar da fé, não pôde mais ser mantido em segredo. O então imperador Diocleciano, famoso por sua perseguição cruel e sangrenta aos cristãos, por essa suposta traição ordenou que ele fosse flechado pelos arqueiros mauritanos com quantas flechas fossem necessárias, até que sua morte fosse consumada. Dado finalmente como morto, com seu corpo praticamente coberto de flechas, e esta é a imagem que até hoje se guardou dele. Foi recolhido para o sepultamento pela viúva de Castullus, a venerada santa católica Irene de Roma. Quando Irene descobriu que milagrosamente São Sebastião sobrevivera ao horrendo martírio, tratou dele até que recobrasse plenamente a sua saúde, como o risco de ser também condenada por ocultar e favorecer um criminoso.

Seu ministério não terminou aí. A partir de então como civil empenhou-se de corpo e alma em uma campanha denunciatória contra o descaso com que as autoridades romanas trataram o problema da peste que afligiu os lombardos na província de Paiva. Este seus atos foram relatados ao imperador Diocleciano, que mesmo estupefato ordenou que fosse morto a golpes de porrete, decapitado e seu corpo jogado em uma sarjeta.

Seu martírio foi detalhadamente descrito no sermão de número 22 do inquestionável bispo Ambrósio, pregado no século IV, em que, numa reflexão profunda sobre o salmo 118 evidencia este e outros atos heroicos de São Sebastião.

Sebastião também foi justamente homenageado na Legenda Áurea, conhecida também como Legenda Sanctorum. Uma obra de grafismos e hagiógrafos de Jacobus de Voragine, que nos anos de 1260 transcreveu em figuras os atos dos grandes santos da igreja. Este bestseller medieval foi compilado e alterado ao logo dos séculos. Nos primeiros anos seguintes à descoberta da imprensa, foi mais editado que a própria Bíblia.

São Sebastião é reconhecido pelos católicos de hoje como o santo padroeiro dos atletas, dos soldados arqueiros e o mais lembrado quando há disseminação de epidemias ou de doenças contagiosas. A intolerância religiosa contra São Sebastião, no entanto, não se extinguiu com Diocleciano. Quando os calvinistas saquearam o seu santuário em 1564, espalharam seus ossos pelas ruas e valas da cidade. Talvez fosse justamente por essa sequência absurda de perseguições que São Sebastião tivesse se tornado um dos mais venerados santos das Igrejas Católicas e Ortodoxas no mundo inteiro.

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