O pai e a autoestima II

S. José com Jesus menino, de Guido Reni
Em segundo lugar nós necessitamos de realizações. O ser humano nasce com uma força motriz interior incontrolável. Ele nasceu para realizar algo, resolver problemas. Nós temos essa força dentro de nós que nos impulsiona à conquista e ao conhecimento. Este instinto de querer crescer está em todos os organismos vivos, é o princípio da vida. 


Quando conquistamos algo que para nós tem valor, nos sentimos recompensados pelos nossos esforços. Isso cria em nós um senso de autoestima, isso nos garante que somos pessoas de talento, que somos pessoas que tem valor. Mesmo assim, existem entre nós pessoas que nunca se livraram do sentimento de inferioridade, apesar de terem conseguido realizar coisas estupendas. Na verdade, temos que reconhecer que todos nós, em maior ou menos grau, carregamos este senso de insuficiência e de insegurança. E isso nada mais é do que a rejeição de nós mesmos como pessoas. O conhecimento dos motivos que nos levaram a ser assim nos ajudaria e enfrentar com mais sucesso nossas emoções. Mas isso não bastaria, precisaríamos também receber a afirmação dos outros, e mais uma vez, principalmente dos nossos pais. É deles a verdadeira confirmação de que temos valor. Uma coisa que nem todo mundo recebe.

Imaginemos agora como se sentem as crianças que não recebem qualquer reconhecimento pelas suas realizações. Mesmo que ainda não sejam capazes de raciocinar como adulto, elas são bem conscientes da sua necessidade de afirmação. Elas sabem muito bem quando estão sendo louvadas, lisonjeados e aceitas. Mesmo que não compreendam o significado das palavras, elas compreendem muito bem a diferença entre a aceitação e a rejeição das suas realizações. Não importa como fazemos, se com aplausos, com sorrisos, com indiferença ou com apelação, elas sabem distinguir uma coisa da outra. Sabem distinguir quando tem e quando não tem valor.

Outra carência universal é a atenção. Todo pai e toda mãe sabem o quanto cada filho precisa de atenção, e sabe também que a menor carência desta significa rejeição. A criança pequena demanda uma parcela enorme de atenção, pois é isso que lhe assegura que ela tem valor. O seu senso de importância próprio cresce ou diminui na medida exata em que ela percebe que os outros lhe dão mais ou menos atenção. Até bem pouco tempo eu tinha os intocáveis lugar no sofá, na mesa e em algumas coisas que somente eu podia mexer. Isso durou exatamente até a chegada do meu neto, e foi tão bom ele acabar com essa besteirada toda. A sua necessidade de atenção fazia com que ele ocupasse justamente o lugar que era importante para alguém. É agora que estou percebendo o quanto fui idiota e o quanto de tempo desperdicei ficando irritado com a necessidade de atenção do meu filho. Hoje eu posso ver que a resposta irritada de um pai ou de uma mãe superocupados, e percebida pela criança com rejeição total, e é assim que se constrói um sentimento de autoestima baixo.

A falta desses elementos nos primeiros anos de vida leva à formação de um adulto retraído ou demasiadamente agressivo. Dizem os estudiosos que a neurose não é transmitida geneticamente e sim pelo ambiente. A maioria das nossas neuroses vem da falta de amor. Como todos precisam de aceitação! Como todos precisam de reconhecimento! Como todos precisam de atenção! A falta ou mesmo a carência de algum desses elementos produz algum grau de autoestima baixa. Outra coisa que tenho aprendido é que as nossas emoções não são temporais e nem circunstanciais. Elas estão além do tempo e das circunstâncias. Nossas emoções não são fruto apenas do que está nos acontecendo agora, e sim de um somatório de tudo que já nos aconteceu até hoje. Coisas que me aconteceram, fantasmas que me assombravam no passado continuam me assombrando com a mesma intensidade que antes, e isso vai acontecer até que eu reviva estas situações e as esclareça satisfatoriamente para mim mesmo.

Como na grande maioria das vezes isso dificilmente é alcançado, precisamos contar com a aceitação de uma consciência superior à nossa. Uma consciência que transcende as autoridades da nossa infância e as circunstâncias do nosso ambiente. Somente alguém que foi muito rejeitado e conseguiu pelo próprio sacrifício resolver estas questões dentro de si. Só alguém que pode transformar o ambiente caótico e sem esperança que jazia a humanidade à sua volta, na, até então, inviável esperança de Reino de comunhão e solidariedade, ao mesmo tempo em que compreendeu e perdoou as autoridades que lhe impuseram uma má influência, pode nos garantir a plenitude dessa aceitação. Deus aceita os homens pela fé que eles tem em Jesus Cristo. Ele concede isso a todos que creem, a todos que aceitam que são aceitos por ele. Isso é bom porque, da mesma forma que estamos nivelados pelo pecado de nós mesmos, e igualmente sofrendo a consequência dos pecados dos outros, somos aceitos sem medida e sem restrição.

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