Graça também no Primeiro Testamento

Jacó disse a José: Eu tinha me resignado que nunca mais iria ver o teu rosto, mas Deus me concedeu ver até os teus descendentes. Gn 48,11
Cena do filme A festa de Babete, de 1987
É muito difícil para qualquer ser humano admitir a própria incapacidade. Talvez, naquilo que diz respeito à cultura ou à capacidade física, haveremos de encontrar alguém que sinceramente se assuma incapaz. Mas no aspecto da conduta pessoal jamais ouviremos alguém dizer: “Eu não tenho moral suficiente para tal coisa”. Todos nós de uma forma ou de outra nos achamos dignos, ainda que seja de uma pequena parcela de dignidade. Ninguém em sã consciência admite sua própria indignidade. Deve ser por isso que para nós é muito difícil aceitar na sua essência a doutrina da graça de Deus. É muito difícil aceitar que Deus nos concede o dom supremo do perdão sem que tenhamos que fazer absolutamente nada para recebê-lo. É muito difícil aceitar que o que Deus nos concede é por graça e não por merecimento.

Existe um filme antigo chamado “A festa de Babete” que conta a história de uma mulher que foi viver em uma comunidade dinamarquesa de rígidos conceitos religiosos. Uma cidade governada pelo rigor das leis morais de um protestantismo inflexível do auge do renascentismo. Essa mulher recebeu um prêmio em dinheiro e antes de deixar a cidade promoveu um jantar farto e com as iguarias mais caras que o dinheiro podia comprar. Ela foi homenageada por um dos líderes presentes pelo seu altruísmo em dividir parte do seu prêmio com as pessoas daquela cidade deixando-as felizes como há muito tempo não se sentiam. Qual não foi a sua surpresa quando soube que aquela mulher tinha gasto todo o dinheiro do seu prêmio com aquele jantar. Foi aí que uma pessoa de fora fez a feliz comparação. Disse essa pessoa: Assim é a graça Deus, um presente que custa absolutamente tudo para quem dá e absolutamente nada para quem recebe. Esta é a conclusão tirada do filme. Não custa absolutamente nada para quem recebe.

Nada em questões de mérito, o que Deus nos concede é exclusivamente pela sua graça e não por qualquer tipo de merecimento, promessa, aliança, pacto herança ou interesse. Isso é algo extremamente humilhante para o ser humano. A graça é realmente humilhante. É como ser homenageado em uma cerimônia para a qual não se foi convidado. É a bem aventurança mais próxima do crime de estelionato. É tomar posse definitiva daquilo que nem em sonho possa vir a ser seu, porque nada se faz para merecer. Aliás, a palavra merecer que é muito útil à contabilidade humana, na contabilidade da graça ela é sequer mencionada. Porque enquanto mereceríamos castigo, recebemos perdão, enquanto mereceríamos prisão pela dívida, recebemos ficha limpa, enquanto mereceríamos voltar rastejando para sermos tratados como escravos, somos recebidos com festa.

Nada em questões numéricas. A contabilidade da graça é sempre deficitária. É o pastor que arrisca noventa e nove ovelhas para resgatar uma. É a mulher que deixa o seu compromisso com os deveres de casa ficarem estagnados, para encontrar uma pequena parte do que do tanto que possui. É o pai que se divide ao meio e arrisca a sua dignidade, o seu senso de justiça e até a sua autoridade para salvar seus dois filhos que estavam se perdendo.

Nenhuma diferença na questão da época. É muito comum pensarmos que a graça de Deus foi uma inovação trazida por Jesus Cristo. Inovação essa que foi totalmente desconsiderada até que Paulo, o apóstolo, a interpretasse de modo claro e inquestionável. É muito comum pensarmos que a graça de Deus é algo que passou a funcionar entre nós a partir de mudança no caráter de Deus. Um Deus que no Primeiro Testamento queria vingança, mas que foi “convertido” por Jesus ao perdão. Pois bem, o pequeno trecho do início da reflexão é a prova cabal de que estamos redondamente enganados. Jacó, que já havia se conformado com a morte do fruto do seu amor por Raquel, o seu filho nitidamente preferido José, receba a graça imerecida de ver também os seus netos, e com isso, a percepção de mais uma característica da graça: nada em questão do quantitativo. Porque se já era impossível para Jacó ver novamente José, Deus vai além, fazendo-o ver os filhos dele, tal como aconteceu no episódio da prostituta que leva e perfuma os pés de Jesus: quando apenas duas gotas bastavam, a graça derrama sem medida e sem comedimento. 

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