Hillel e Shammai

Os fariseus perguntaram: — Nesse caso, por que é que Moisés permitiu ao homem mandar a sua esposa embora se der a ela um documento de divórcio? Jesus respondeu: — Moisés deu essa permissão por causa da dureza do coração de vocês; mas no princípio da criação não era assim. Leia Mateus 193-12
Hillel e Shammai,Shoshana Brombacher 1959-
Por mais que evitasse discutir assuntos referentes ao legalismo judaico, principalmente os que extrapolavam os mandamentos bíblicos, Jesus, vez por outra, se via envolvido nas questões temporais, que nada acrescentavam à sua missão de implantação do Reino Deus. Já não bastavam os 613 mandamentos bíblicos, já não bastavam que estes mitzvot, como eram conhecidos, fossem em número de 248 positivos, ou seja, mandamentos que afirmavam um preceito, tipo: honrar pai e mãe. Não bastava também que eles tivessem um mandamento negativo ou proibitivo para cada dia do ano. Isto mesmo, 365 mandamentos, como se cada dia do ano solar lhes dissesse: não faça besteira hoje, os contemporâneos de Jesus queriam porque queriam colocá-lo contra a parede. Desta vez, citando um conhecido mandamento da lei mosaica: o mandamento que instituía condições claras para a concessão da carta de divórcio. No hebraico popular era mesmo um indisfarçável repúdio à mulher, uma vez que este documento somente poderia ser expedido pelo homem. E é aqui que entram os dois rabinos que emprestam seu nome ao título desta meditação.

Como eu também não quero me envolver nesta questão do cristianismo que persiste entre as suas duas maiores denominações, o catolicismo romano e o protestantismo, e que se arrasta desde o século XVI, quando Henrique VIII, rei da Inglaterra, quis casar novamente, o que o fez pelo menos cinco vezes, vou falar sobre Hillel e Shammai. Estes dois rabinos do primeiro século que promoveram o mais acirrado debate teológico do Judaísmo de então. As mais banais questões eram motivo de intensos debates e controvérsias. Se Hillel dizia que as oito velas do Hanukkah deveriam ser acesas uma por dia, a partir do primeiro dia, Shammai propunha que elas deveriam estar todas acesas, e que fossem apagadas uma por dia.  Até mesmo a quem se deve administrar o ensinamento da Torah era assunto controvertido entre estes dois líderes do povo judeu.

A despeito do povo já possuir (em advoguês) jurisprudência firmada por Moisés, que somente permitia o divórcio em casos extremos de concubinato ou casamento consanguíneo em grau proibido, os “papagaios de pirata” (ler a minha versão sobre este tema em http://amosboiadeiro.blogspot.com/2012/03/papagaio-de-pirata.html) queriam saber qual era o partido de Jesus na loteria legalista promovida por esses dois rabinos. O partido conservador de Shammai, que advogava segundo Moisés, pregava que o divórcio só deveria ser permitido estritamente nestes dois casos. Já Hillel dizia que qualquer mínima transgressão da mulher era passível de divórcio. Não tirar a louça do jantar seria um destes bons motivos. Assim como acontece hoje em dia, Shammai estaria mais para romano e Hillel mais para protestante.

Mesmo sem entrar fundo na questão partidária, Jesus expõe a sua posição, e a faz de modo inquestionável. Para ele, seja qual for o preceito da lei, ela somente existe pela dureza do coração humano. Jesus se vale de uma lei positiva, que mal interpretada trata o assunto mais como imposição do que realmente como uma concessão, para fazer valer uma ordem primordial de Deus estabelecida em Gn 1,27; 2,24 e 5,2. Contudo, Jesus não interpreta as palavras do Gênesis como sendo um dos tantos mandamentos positivos, mas como constituição do homem e da mulher como casal. Um preceito reconhecidamente humano, e que já existia desde o início dos tempos. Um preceito que não contemplava o domínio de um sobre a vida do outro: homem e mulher os criou.

A natureza humana se mostra inflexível sempre que se dispõe a resistir à vontade de Deus. Muito embora os discípulos se assustassem diante da exigência de um vínculo indissolúvel, o matrimônio assume na nova comunidade, que é a sua igreja, o padrão por excelência no tipo de relacionamento que deve imperar entre os cristãos a sua igreja. Jesus dá um passo a mais no conceito de união, propondo que a lei ceda lugar à graça, como mais tarde Paulo vai concluir em Rm 5,20: A lei veio para aumentar o mal. Mas onde aumentou o pecado, a graça de Deus aumentou muito mais ainda.

Entre Hillel e Shammai escolhamos sempre ficar ao lado de Deus, somente assim poderemos ter a certeza de que estaremos certos. Se alguém quiser se orgulhar, que se orgulhe de me conhecer e de me entender; porque eu, o Senhor, sou Deus de amor e faço o que é justo e direito no mundo. Estas são as coisas que me agradam. Eu, o Senhor, estou falando (Jr 9,24)

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