Tamar, a mulher que foi à luta

Judá e Tamar, Vernet (1789-1863)
Trecho do livro Mulher, grande é a tua fé escrito por João Wesley Dornellas em 2006.
Aqui temos uma história bíblica em que o sexo é usado de forma diferente daquela visão de Sara, contudo, não menos válida. A história de Tamar e do seu relacionamento com seu sogro Judá e os filhos dele está no capítulo 38 do livro de Gênesis. A narrativa bíblica é simples e compacta. Não dá muitos detalhes, a não ser os principais. Vale a pena ler, no entanto, a narrativa que está no volume terceiro “José, o Provedor", da tetralogia de Thomas Mann, o grande escritor alemão, que tem o título geral de “José e seus Irmãos”.

Em sua narrativa – e vale a pena ler os quatro romances que compõem a tetralogia – Thomas Mann, com sua imaginação e criatividade, coloca um relacionamento entre ela e Jacó, em cujas conversas ele lhe mostra a história do seu povo, as narrativas do começo da Bíblia, o conhecimento de Jeová e, de ambas as partes, um possível desejo de relacionamento amoroso entre um velho viúvo e uma jovem que bem poderia ser sua neta. Da mesma forma, a ambiciosa jovem pensava em Judá. Todavia, como narra Thomas Mann, “seu amor-ambição se dera fora de tempo e de lugar”. Voltou então seus olhos para o primogênito de Judá, um jovem chamado Er, pedindo o apoio a Jacó para obter o que queria, isto é, influenciando Judá a dar-lhe o filho em casamento. Pouco tempo depois da união, “porque era perverso, o Senhor o fez morrer”. Viúva, jovem, sem descendência e sem herança, longe de dedicar-se ao luto pela separação tão trágica, esforça-se para que os costumes dos judeus fossem devidamente respeitados. Isto significaria que o seu cunhado Onan, para suscitar descendência a seu irmão, tinha que se casar com ela. Mesmo contrariado, houve o casamento. Thomas Mann fala que ele “se sentiu irritado vendo-se impelido a ser esposo substituto e fundar uma descendência que não iria ser sua, mas de seu irmão”.

A Bíblia relata simplesmente que ele a possuía, mas lançava sua semente na terra, justamente para não gerar os filhos que seriam a garantia para Tamar receber a herança. Como castigo, Onan também morre. Tamar, voluntariosa e sem perder o sonho de receber sua herança, quer então, para manter o costume, casar-se com o filho mais novo de Judá, Selá, que tinha apenas 16 anos. Coisa com a qual não concordaram nem Jacó, o avô, nem Judá, seu sogro. Com artifícios, o quase adolescente Selá foi enviado para viver longe com alguns parentes. Judá pensava que, assim que o tempo passasse, ela se esqueceria da pretensão. Crescendo Selá, já um homem como diz a Bíblia, ela não lhe fora dada por esposa.

Informada que Judá estava seguindo para Timna para tosquiar suas ovelhas, Tamar despiu as vestes de sua viuvez e, cobrindo-se com um véu, se disfarçou e se assentou à entrada de Enaim, no caminho de Timna. Vendo-a Judá, segundo a narrativa bíblica, teve a por meretriz, pois ela havia coberto o rosto. Judá quis então possuí-la. Ela lhe pergunta o que ele lhe daria em troca do favor e ele respondeu que um cabrito do seu rebanho. Como o cabrito não estava com ele, ela exigiu um penhor até recebê-lo, justamente o seu selo (um anel com seu sinete), o seu cordão e o seu cajado. Ele entregou os objetos, a possuiu e ela concebeu dele. Logo depois, ela tirou de sobre si o véu e tornou às vestes de sua viuvez. Mandando que um empregado fosse levar o cabrito prometido, ele não a achou e todos contestavam que houvesse por ali alguma prostituta cultual.

Passados três meses, foram informar a Judá que sua nora estava grávida e Judá dá a ordem para que ela fosse trazida para fora de casa para ser queimada, como era do hábito dessa época. Só muito mais tarde, com Moisés, a pena dos adúlteros seria alterada. Tamar manda dizer ao seu sogro que ela havia concebido do homem de quem eram as coisas que tinha em mãos, o selo, o cordão e o cajado. Reconheceu-os Judá e disse (versículo 26): “mais justa é ela do que eu, porque não a dei a Selá, meu filho. E nunca mais a possuiu”.

Tamar deu à luz dois gêmeos, que foram chamados de Zera e Perez. Na genealogia de Jesus, de acordo com Mateus, estão mencionados os nomes de Tamar e de seu filho Perez. “O que esta mulher está fazendo aqui?”, justamente na genealogia de Jesus. Vale a pena ler o livro que tem como título a pergunta sublinhada. Ele contém artigos escritos por diversas pessoas. A teóloga metodista Nancy Cardoso Pereira, autora do artigo que dá nome ao livro, nos diz que Tamar “é uma mulher incômoda, no mínimo irreverente. Ela não tem medo dos costumes e tradições; ela não teme as leis e as instituições. Arranca justiça com seu corpo de mulher oprimida. Denuncia com seu corpo prostituído a prostituição do patriarca e seus mecanismos de dominação”.

“Mas o que esta mulher está fazendo aqui?" O que o capítulo 38 acrescenta a esta discussão? É que Tamar tem denúncias mais precisas e concretas contra Judá. Se a casa de Judá convive com o poder e com a opressão dos irmãos é porque ele quebrou os preceitos e práticas que sustentavam a família como unidade produtora e reprodutora livre. Judá não somente vendeu e escravizou os irmãos das outras famílias, Judá rompeu com a solidariedade dentro de sua própria casa. Para estabelecer o seu poder hegemônico, para sustentar a monarquia, Judá teve que romper com os direitos da mulher dentro da Família. É justamente sobre isso que Tamar quer falar. E, para isso, ela vai expor o seu corpo, porque foi o corpo da mulher que foi violentado pelo patriarca. Não sei o livro ainda está à venda. Foi editado pela Editeo, casa publicadora de nossa Faculdade de Teologia. No mesmo livro, há um outro artigo muito bom, “Em Deus não há macho nem fêmea”, de autoria do saudoso Rev. Duncan Alexander Reily, no qual o autor faz importantes considerações sobre “o Deus que é pai e é mãe”, citando o grande teólogo Jürgen Moltmann que dizia que Deus “não é meramente um pai no sentido masculino". Ele é um pai maternal também. Ele tem que ser compreendido como o Pai materno do único filho que Ele pariu e, ao mesmo tempo, “Mãe paterna do único Filho que gerou.”

Assim, rendendo as homenagens a Tamar, a pioneira da luta feminista na Bíblia, podemos reconhecer a justiça de sua inclusão na genealogia de Jesus. Dela só fazem parte quatro mulheres, Tamar, a que simulou ser prostituta, Raabe, que era prostituta mesmo, e teve seu nome incluído na galeria dos heróis da Fé da carta aos Hebreus, Bate-seba, a mãe de Salomão, identificada apenas como mulher de Urias, que foi atraída ao palácio por Davi que a viu tomando banho, e de Rute, cuja história de fidelidade à sua sogra e ao Deus dela é um exemplo para todos nós.

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