Raquel – uma mulher que sofreu de amor

Raquel e Lia, Dante Rossetti (1828-1882)
Trecho do livro Mulher, grande é a tua fé escrito por João Wesley Dornellas em 2006.
Nenhuma mulher na Bíblia foi tão amada como Raquel e poucas foram tão bonitas como ela. Foi ela certamente, no entanto, entre tantas histórias de mulheres que a Bíblia narra, uma das que mais sofreram do mal de amor. Depois de brigar com seu irmão pelo direito de primogenitura e por uma bênção especial de seu pai Isaque, Jacó sabe, por intermédio de sua mãe Rebeca, que Esaú planejava matá-lo. Atendendo aos conselhos da mãe, Jacó foge e se dirige às terras de seu avô Betuel e de seu tio Labão, irmão dela. Em sua caminhada, dormindo num travesseiro de pedra, Jacó teve a visão da escada repleta de anjos e recebeu grandes promessas do Senhor. Acordando, pegou a pedra que havia posto por travesseiro e a erigiu em coluna, sobre a qual derramou azeite. Ao lugar onde essas coisas aconteceram, que outrora se chamava Luz, ele deu o nome de Betel, que significa “Casa de Deus”.

Saindo dali, Jacó foi na direção de Harã, terra de Betuel e Labão. Já bem perto do seu destino, ele se encontra com rebanhos de ovelhas e seus pastores, que lhes davam água retirada de um poço. Pediu informações e, ao saber que eram de Harã, perguntou sobre Labão e soube que sua filha mais nova Raquel vinha vindo com ovelhas de seu pai para dar-lhes de beber. Esse texto do capítulo 29 de Gênesis nos revela que Jacó beijou a Raquel e, erguendo a voz, chorou, contando-lhe que era filho de Rebeca, irmã de seu pai. Ela o levou a Labão que recebeu muito bem o viajante e o hospedou por um mês em sua casa. Nesse período, Jacó se apaixonou por Raquel, que era “formosa de porte e de semblante”. Como Labão não queria que seu sobrinho trabalhasse para ele de graça, pediu-lhe que declarasse o salário pretendido. Jacó faz então sua proposta, que era, na verdade, um pedido da mão de Raquel, como se dizia antigamente. E propôs servi-lo por sete anos para casar-se com sua filha Raquel. E assim foi feito. Apesar do longo tempo, a Bíblia nos diz que, para Jacó, os sete anos pareceram como poucos dias pelo muito que a amava.

Ao fim dos sete anos, Jacó pede então para finalmente casar-se com sua amada. Dissimuladamente, Labão convidou muitas pessoas para o banquete de casamento. Finda a festa, enganosamente Labão conduziu sua filha Lia a Jacó, que coabitou com ela. Só pela manhã é que Jacó percebeu que fora enganado, possivelmente pelo costume de a noiva permanecer toda a festa coberta por um véu. Reclamando a Labão, este alegou que não poderia dar “a mais nova antes da primogênita”. E exigiu, para dar-lhe Raquel, que Jacó lhe servisse por mais sete anos. Uma das poesias mais bonitas da língua portuguesa é, sem dúvida, o célebre soneto de Luiz de Camões, de quem gosto mais do lírico dos sonetos de amor do que do épico de “Os Lusíadas”, que narra a história de Jacó, que reproduzo aqui:
“Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: - Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!”

Esperar tanto tempo para a realização do seu sonho de amor foi certamente uma dura provação para o casal de apaixonados. Para Raquel, a provação foi muito maior. Ela parecia ser estéril, não podendo pois realizar o sonho de toda a mulher que se casa por amor, ter filhos. Por outro lado, Lia, a irmã mais velha ia tendo, um após outro. Raquel, desesperada, toma sua serva Bila e a entrega ao marido para que a fecundasse e, de maneira indireta, lhe desse o filho sonhado. E acabou lhe dando dois. A reação de Lia, que já não coabitava com Jacó, como o texto bíblico indica, foi idêntica à de Raquel, dando sua serva Zilpa a Jacó para que a fecundasse em seu lugar. Assim, ela lhe deu mais dois filhos.

Num episódio que pode parecer inexplicável, Raquel “empresta” seu marido à irmã em troca de mandrágoras, que eram plantas com efeitos afrodisíacos, colhidas por Rubens, filho de Lia. A Bíblia nos fala que à tarde, quando Jacó vinha do campo, Lia vai ao seu encontro e exige o cumprimento do trato feito com Raquel: “Esta noite me possuirás, pois eu te aluguei pelas mandrágoras de meu filho”. E assim se fez, como nos diz a Bíblia, e Lia concebeu seu quinto filho e, a seguir, não se sabe também o porquê, o sexto e uma filha. Aí o texto bíblico fala que Deus “se lembrou” de Raquel e lhe fez fecunda. Nasceu então José, que tem, como todos sabem, papel importante na história daquela família e de todo o povo. Algum tempo depois, quando a família toda vinha de Harã, passaram em Betel, erigiram um altar e caminharam em direção à Efrata. A pequena distância dela, Raquel, grávida outra vez, deu a luz a outro filho, cujo nascimento, diz a Bíblia, “lhe foi a ela penoso” e ela morreu. Esse filho, o caçula de Jacó, chamou-se Benjamim.

Pode-se imaginar, pelo que foi narrado aqui, o amor sofrido de Raquel por seu marido, tendo sido obrigada (é claro que eram costumes da época) a “repartir” seu marido e não ter tido tempo para curtir os filhos do grande amor a Jacó. Felizmente, no entanto, com sua morte prematura, ela não sofreu com a ausência de José que foi vendido como escravo por seus irmãos invejosos. Ao final de sua vida, reunido com todo o seu clã, ao despedir-se, Jacó relembra Raquel e fala do grande pesar que sentiu ao sepultá-la “ali no caminho de Efrata, que é Belém”. O poeta tinha toda a razão em seu soneto: “mais servira se não fora para tão longo amor tão curta a vida”.

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