Noemi e Ruth, sogra e nora que se amavam

Rute aos pés de Boaz, Chagal (1887-1985)
Trecho do livro Mulher, grande é a tua fé escrito por João Wesley Dornellas em 2006.
Que a Bíblia é um livro escrito por homens, todo o mundo sabe. Por isto, com alguma justiça, ela carrega o mal de ser considerado um livro machista. Luiz Otávio, meu filho mais novo, conta num dos seus romances, “A Visita”, que um anjo, uma mulher parecida com a atriz Sharon Stone, faz uma visita ao seu personagem Elliot. Ele duvida que ela seja realmente um anjo porque, normalmente, os anjos da Bíblia são homens. Sharon, esse também era o nome da “anja”, contesta dizendo que essa impressão era normal por serem os autores da Bíblia homens e machistas. Como argumento, ela diz que o anjo que anunciou a Maria que ela tinha sido escolhida para conceber o Filho de Deus, era uma mulher. O argumento era muito convincente: “Você acha que ela receberia uma notícia aquelas de um homem? Era um assunto muito delicado e íntimo, próprio de mulheres”. Os dois livros da Bíblia que levam o nome de mulheres, Ester e Rute, padecem do mesmo mal, tudo leva a crer que foram escritos por homens. O de Rute conta a história dessa mulher que também faz parte da genealogia de Jesus.

“No tempo em que julgavam os juízes, houve fome na terra”, assim começa o livro de Ruth. Um homem chamado Elimeleque, sua esposa Noemi e seus filhos Malom e Quiliom, todos efrateus de Belém de Judá, emigraram para a terra de Moab. Morrendo o marido, Noemi e seus filhos ficaram por ali. Eles acabaram se casando com duas moabitas, Orfa, com Quiliom, e Rute, com Malom, e assim se passaram dez anos. Os dois irmãos morrem também e Noemi decide voltar à sua terra e aconselha as duas noras para que voltem ao seio de suas próprias famílias. A princípio, as duas resolveram seguir a sogra em sua caminhada de regresso à terra de Judá, onde a fome tinha acabado e havia fartura de pão. Novamente, com palavras de desespero e acreditando estar dando o melhor conselho, Noemi apela para que as noras fiquem. Desta vez, Orfa a beijou, despedindo-se dela e voltando para casa. Noemi pede a Rute que também voltasse ao seu povo e aos seus deuses.

A Bíblia nos diz que Rute se apegou a Noemi e, assim, por mais que a sogra insistisse, Rute continuou caminhando com Noemi no rumo de Belém de Judá. Ela havia conhecido um novo Deus no convívio com Noemi e não queria abandonar nenhum dos dois. Sua resposta a Noemi é uma das passagens mais lindas da Bíblia, relatada no capítulo 1º de Rute: “Não me instes para que te deixe, e me obrigues a não seguir-te; porque aonde quer que fores, irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu, e aí serei sepultada; faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti”.

As relações de sogra e nora, muitas vezes conflituosas, normalmente por ciúmes mútuos, por serem muito comuns, já fazem parte até do anedotário. Nos tempos bíblicos, a ordem de Deus era seguida à risca. Uma mulher, ao casar-se, deixava sua família e era absorvida por outra. Nos tempos modernos, a coisa ficou diferente. Muitos casamentos se tornaram infelizes, ou mesmo terminaram, em virtude da falta de entendimento entre sogra e nora. Mais raramente, entre sogra e genro. Entre nora e sogra, mesmo nas famílias religiosas, nós encontramos, mesmo que seja quase imperceptível, algum tipo de conflito. Não foi isto o que aconteceu nas relações entre Noemi e suas noras. Certamente, não se pode criticar a decisão de Orfa de tentar, em sua própria terra, construir uma nova vida. Nem poderíamos criticar Rute, apesar do seu afeto a Noemi, se ela tivesse tomado idêntica decisão. O afeto que ligou de maneira indelével as duas mulheres certamente foi devido ao Deus de Noemi. Apesar das reclamações que Noemi faz a Deus a respeito do seu sofrimento, tentando até mudar seu nome para Mara, “porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso”, o certo é que o Deus que ela apresentou a Rute era um Deus de amor e de misericórdia. E Rute aprendera a confiar nEle.

O romance de Boaz, meio parente de Elimeleque, com Ruth, com pleno apoio – e até com o ensino, por parte de Noemi, de algumas artimanhas próprias das mulheres – foi, segundo narra a Bíblia, muito bonito. Nunca faltou nada às duas mulheres, pela bondade de Boaz, que começara a gostar dela, e pelo caráter de Rute, conforme ele se expressa para ela: “toda a cidade do meu povo sabe que és mulher virtuosa”. A antiga propriedade da família foi resgatada por Boaz e eles se casaram. Rute, uma estrangeira que havia adotado, pelo testemunho de sua sogra, o Deus verdadeiro, passa a fazer parte da história do povo escolhido. Todo o povo, inclusive os anciãos, disseram de maneira muito clara a Boaz: “somos testemunhas; o Senhor faça a esta mulher, que entra na tua casa, como a Raquel e a Lia, que ambas edificaram a casa de Israel; e tu, Boaz, há-te valorosamente em Efrata, e faze-te nome afamado em Belém. Seja a tua casa como a casa de Perez, que Tamar teve de Judá, pela prole que o Senhor te der desta jovem”. Esse reconhecimento da importância de Tamar como parte importante do povo de Israel justifica bem o que está contido no capítulo anterior.

Rute concebeu e a chegada de seu filho Obede trouxe muita alegria. As mulheres diziam a Noemi: “ele será o restaurador da tua vida e o consolador da tua velhice, pois tua nora, que te ama, o deu à luz, e ela te é melhor do que sete filhos”. Melhor ainda, Rute tomou o menino e o pôs no regaço de sua sogra e ela começou a cuidar dele. Não era a avó carnal do menino mas o ato de amor de sua nora era, sem dúvida a alegria que voltava à vida daquela mulher. Ela ajudaria a criar o seu neto pelo amor, e ele seria o pai de Jessé e o avô de Davi, que se tornou rei de Israel.

Pode-se dizer que o relacionamento de Noemi e Ruth constitui num belíssimo exemplo de vida, válido até nos dias de hoje, quando tanta coisa mudou neste mundo, da possibilidade real – para não dizer necessidade – de amizade, confiança e intimidade nas relações entre sogra e nora, que serão cada vez melhores se elas estiverem com Deus, como disse Ruth: “o teu Deus será o meu Deus”.

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