A mulher siro-fenícia

A mulher cananeia, Ludovico Carracci (1555-1619)
Trecho do livro Mulher, grande é a tua fé escrito por João Wesley Dornellas em 2006.
O encontro de Jesus com a mulher siro-fenícia, narrada pelos evangelistas Mateus e Marcos, é um episódio crucial da vida de Jesus e tem sérias implicações em sua missão e na missão que ele deu aos seus seguidores. No diálogo, áspero, conflitante e até mal educado, Jesus nos mostra uma outra visão de sua personalidade. Antes de mais nada, vamos situar aquela mulher. Marcos diz que ela era grega, de origem siro-fenícia. Mateus, por sua vez, diz que ela era cananéia, isto, fazia parte do povo que foi expulso por Josué da terra prometida. Ou seja, havia ódio entre os judeus e os cananeus. Ela tinha uma filha que tinha sérios problemas mentais. Na Bíblia, porque não conheciam nada da doença, era mais fácil dizer que pessoas assim eram endemoninhadas ou eram possuídas de espírito imundo ou demônios. Cansado de sua labuta, Jesus retirou-se para os lados de Tiro e Sidon para descansar. Ouvindo falar de seus milagres, as multidões não o deixavam em paz. Esta foi possivelmente a única vez que Jesus, tirando o seu exílio no Egito, para fugir de Herodes, esteve em terras estrangeiras e, além de tudo, composta de pessoas que eram inimigas dos judeus. Mesmo assim, Jesus não encontrou descanso e paz, nem pôde se ocultar. Jesus nasceu como judeu e se desenvolveu até a maturidade num lar judeu e numa cultura e numa religião judaicas.

Num certo sentido, a universalidade do Evangelho de Jesus e da própria missão de levá-lo aos gentios, marcas fundamentais da história da igreja primitiva, começaram nesse episódio. O relacionamento de Jesus com as mulheres era muito bom. Ele as aceitava, gostava delas e reconhecia que elas eram capazes de entender as coisas revolucionárias que pregava e ensinava. Conversas longas entre Jesus e as mulheres não são muito comuns. É certo que, por estar frequentemente no lar de Betânia, com Lázaro, Marta e Maria, ele conversava muito com as duas irmãs. No caso da morte de Lázaro, ele teve com Marta discussões teológicas muito sérias, como se verá em capítulo mais à frente. As duas conversas mais longas de Jesus com mulheres foram, por paradoxal que seja, com as estrangeiras, a mulher cananeia e a mulher samaritana com quem se encontrou junto ao poço de Jacó, as duas heroínas sem nome. A mais tempestuosa conversa, em que Jesus se mostrou ríspido, até mesmo grosseiro, preconceituoso e um pouco mal educado, foi justamente com a mulher cananeia. Ele a tratou de uma forma cruel, parecida com a maneira com que tratava, nos limites de sua terra, os escribas e fariseus. Uma teóloga americana, ao comentar esse texto, diz que “parece que Jesus deixou sua condição de Messias no lado palestino da fronteira e, também, sua compaixão e sensibilidade”.

Apesar de saber de todas as questões dessa centenária incompatibilidade ente os judeus e os cananeus, aquela mulher, cujo único desejo na vida era a cura de sua filha, e cuja única certeza era de que só Jesus poderia curá-la, assumiu todos os riscos desse encontro. Ela estava disposta a não sair dali sem beneficiar-se do poder de Jesus. Ela percebeu, também, que chamar a atenção de Jesus, exigiria uma atitude toda especial para sobrepujar a barreira que os discípulos dele faziam para protegê-lo. Ela clamou, isto é, falou alto, gritou, “Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim!”. O texto de Mateus diz que Jesus ficou indiferente aos seus apelos, “não lhe respondeu palavra”. Incomodados com a insistência da mulher, os próprios discípulos rogaram a Jesus para que a despedisse, isto é, que atendesse os seus apelos, curasse a menina para que ela fosse embora. Nesse momento, começou o diálogo de Jesus com ela, mas foi uma conversa muito hostil, apesar de que ela clamava respeitosamente, usando para Jesus os títulos corretos, como Senhor e Filho de Davi. Disse-lhe Jesus, como a desculpar-se por não poder curar sua filha: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Face à face com uma grande necessidade humana, a resposta de Jesus não foi realmente uma resposta. Jesus não tinha argumentos para convencê-la. Porque, ao levar esse fora, ela veio e o adorou dizendo e pediu a sua compaixão: “Senhor, socorre-me!”.

Jesus, para espanto dela, não só não a socorre, mas usa agora um argumento injurioso e ofensivo: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-los aos cachorrinhos”. Os judeus chamavam os estrangeiros, os gentios, de cachorros. Num certo sentido, essa ofensa estava sendo repetida por Jesus àquela mulher. Ela tinha três coisas que eram normalmente desprezíveis para os judeus: era uma estrangeira, ou seja, pagã, sendo vista como impura; por isto, os judeus guardavam uma distância segura dos gentios. Era mulher, e as mulheres não mereciam nenhuma consideração por parte dos judeus. Os judeus eram proibidos de falar com elas a não ser na presença dos seus maridos. Se o pai da menina é que fosse pedir o milagre a Jesus, talvez fosse diferente. Havia uma terceira coisa a desgastar a imagem da mulher, ela era a mãe de uma menina endemoninhada, uma louca. Os judeus gostavam de atribuir as desgraças da saúde a pecados cometidos por pais ou outros antecessores. Quem sabe aquela mulher cananéia não teria alguma culpa no cartório?

Era o momento decisivo da conversa. Mesmo ofendida, percebendo muito bem aonde Jesus queria chegar, ela foi muito inteligente em sua fala, na qual começa concordando com Jesus: “Sim, Senhor!”. Mas, em seguida, para usar uma linguagem do jogo de xadrez, ela dá o cheque-mate em Jesus, a jogada definitiva: “porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos”. É exatamente isto. Ela tinha a convicção que mesmo ínfimas parcelas da graça seriam suficientes para que sua filha fosse curada. Então, é Mateus quem narra, Jesus lhe disse: “Ó mulher, grande é a tua fé. Faça-se contigo como queres”. E desde aquele momento, sua filha ficou sã.

A partir dali, ninguém mais teve barrado o seu acesso a Deus, às bênçãos de Deus, em virtude de seus antepassados, da religião que herdou ou de sua cultura. Com sua atitude, a mulher Cananéia verdadeiramente estendeu a mesa do Senhor e, desde então, há pão em abundância para todos, gentios, judeus, gregos, escravos, livres, homens, mulheres e crianças. E na grande comissão, texto de Mateus 28:18-20, a ordem de Jesus é: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos em todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século”.

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