A mulher samaritana

Águas vivas, Simon Dewey (1962-)
Trecho do livro Mulher, grande é a tua fé escrito por João Wesley Dornellas em 2006.
Estamos falando do surpreendente encontro de Jesus com a mulher samaritana à beira do poço de Jacó, em Samaria. Jesus e seus discípulos estavam caminhando da Judéia, ao Sul, para a Galiléia, ao Norte. Passaram por Samaria, território historicamente hostil aos judeus, apenas para ganharem tempo. Se a tivessem evitado, gastariam seis dias e não três. Preferiam, portanto, o caminho mais curto. Numa bifurcação da estrada, perto de Sicar, está o que se conhece pelo nome de poço de Jacó. O local, que não lhes pertencia, tinha, contudo, muita importância histórica para os judeus. Ali havia terras que foram compradas por Jacó (Gn 33:18-19). Em seu leito de morte, Jacó deixou aquelas terras para José (Gn 48:22). Depois de sua morte, o corpo de José foi levado para ser enterrado ali (Js 24:32). O poço tinha cerca de 30 metros de profundidade. O calor era forte e era meio dia, a hora sexta dos judeus.

Enquanto os discípulos foram ao centro da cidade para comprar alimentos, Jesus para à beira do poço para descansar. Uma mulher samaritana aproximou-se do poço. Por que teria ela vindo àquele poço? Provavelmente haveria um outro poço perto de sua casa. Talvez sua má reputação fizesse com que fosse discriminada por outras mulheres. O fato é que ela chega a um poço distante e na pior hora, a mais quente do dia, para apanhar água. Trazia certamente algo com que apanhar a água no fundo, possivelmente um saco feito de couro ao qual se amarrava uma corda. A água assim extraída era transportada num cântaro para casa.

Jesus, com sede (e é possível que os discípulos tivessem levado consigo o saco de couro que certamente possuíam), pede à mulher que lhe desse de beber. A resposta da mulher foi muito clara: “Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim que sou mulher samaritana?”. Porque os judeus e os samaritanos não se davam bem. E nos costumes dos dois povos, nenhum homem dirigia a palavra a uma mulher. A resposta de Jesus aprofundou a conversa: “Se conheceras o dom de Deus e quem é que te pede “dá-me de beber”, tu lhe pedirias e ele te daria água viva”.

Coisa curiosa é que essa conversação de Jesus com a samaritana segue exatamente o mesmo esquema da conversa que ele tivera, algum tempo atrás, com Nicodemos. Jesus faz uma afirmação, que não é entendida e sim tomada num sentido incorreto. Jesus repete a afirmação de maneira mais clara, mas não consegue ser interpretado corretamente. Jesus então obriga a pessoa com quem está falando a descobrir e enfrentar a verdade por si mesma. Tal como Nicodemos, a mulher tomou as palavras de Jesus num sentido literal, sem conseguir compreendê-las no plano espiritual. Água viva, para as pessoas comuns, significava simplesmente água corrente, de um rio ou de uma fonte, não a água de um poço ou de um pântano. É claro, a água viva era sempre melhor. E a mulher lhe pergunta como lhe daria essa água se não tinha com que tirá-la do poço que era bem fundo. “Onde, pois, tens a água viva?”

Ela agora lhe fala do patriarca Jacó e pergunta se o viajante era maior do que ele. A resposta de Jesus não foi exatamente sobre o que ela perguntou. Ele lhe disse: “Quem beber desta água, tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede, para sempre; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar pela vida eterna”. E ela, ainda sem entender exatamente o que Jesus lhe queria dizer, pede que ele lhe dê dessa água, para nunca mais ter que vir buscá-la do poço. Os samaritanos só aceitavam os cinco primeiros livros da Bíblia, os chamados livros da Lei. Por isto, ela desconhecia todo o significado espiritual da expressão água viva. A promessa era que o povo escolhido tiraria com alegria as águas das fontes da salvação (Is 12:3); o salmista falava de sua alma sedenta de Deus, do Deus vivo (Sl 42:1). A promessa de Deus era: “E eu derramarei águas sobre o sedento” (Is 44:3). O chamado dizia que todo aquele que estivesse sedento devia ir às águas e bebê-las gratuitamente (Is 55:1). Jeremias se queixava de que o povo havia abandonado a Deus, fonte de água viva, e cavara cisternas rotas, que não contêm as águas (Jr 2:13); Ezequiel teve a visão das águas purificadoras, o rio da vida (Ez 47: 1-12); Zacarias, por sua vez, dizia que o novo mundo abriria uma fonte para remover o pecado e a impureza (Zc 13:1) e que as águas vivas brotariam de Jerusalém (Zc 14:8). “Não terão fome nem sede”, proclamava Isaías (Is 49:10); “Contigo está o manancial da vida”, exclamava o salmista (Sl 36:9); e Isaías profetizava: “a areia em brasa se transformará em lagos, e a terra sedenta em mananciais de água (Is 35:7). Os rabinos antigos identificavam essa água viva com a sabedoria de Deus. Outras vezes, a identificavam com o Espírito Santo de Deus.

Essa ideia de que a sede da alma que só se poderia satisfazer com a água viva que era o dom de Deus não fazia parte da cultura e da experiência daquela mulher. Jesus incompreendido, muda o tom da conversa: “vai, chama o teu marido e vem cá”. Isto foi um choque para a mulher porque, de repente, Jesus a estava chamando à realidade do seu dia-a-dia. Ela foi obrigada a confessar que não tinha marido. E Jesus, ainda incisivo, lhe diz que isto era verdade, mas que ela tinha tido cinco maridos. Só aí a mulher percebeu que não estava falando com qualquer um e lhe disse: “Senhor, vejo que és profeta”. Pega no seu pecado, ela muda de assunto e pergunta a Jesus se Deus deve ser adorado no Monte Gerizim, onde Abraão esteve perto de sacrificar Isaque, e era um local sagrado para os samaritanos, ou no monte Sião, em Jerusalém, lugar sagrado pelos judeus.

A conversa vai chegando ao ponto que Jesus planejara. Dizendo-lhe que os verdadeiros adoradores adoram em espírito e em verdade – e isto nada tem a haver com o local da adoração – porque são estes que o Pai procura para seus adoradores, a mulher, começando a compreender as coisas, lhe diz: “eu sei que há de vir o Messias, chamado Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas”.

Finalmente, Jesus faz-lhe a declaração: “eu o sou, eu que falo contigo”. A mulher descobriu, atônita, que a declaração de Jesus não era um mero sonho mas a verdade mesma. E dali para a frente, tudo iria ser diferente. Nesse ponto, os discípulos chegam de volta e se surpreendem, mesmo sem fazer nenhum comentário, de vê-lo conversando com uma mulher. Ela, deixando o seu cântaro, foi à cidade e anunciou aos homens com quem se encontrou: “Vinde comigo, e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cristo?”. Os homens foram ter com Jesus e creram nele, em virtude do testemunho daquela mulher. Pediram e Jesus permaneceu com eles dois dias. Muitos creram nele por causa de sua palavra e diziam à mulher: “já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do Mundo”.

A mulher samaritana, cujo nome será sempre desconhecido, se transformou, ao conhecer Jesus, numa verdadeira evangelista. Não só entregou a sua vida a Cristo, mudou de vida, mas imediatamente levou outros a conhecê-lo. O primeiro instinto da mulher samaritana foi repartir a sua experiência. Barclay nos diz que a vida cristã se baseia em dois pilares gêmeos, o descobrimento e a comunicação. “Nenhum descobrimento é completo até que nossos corações se encham do desejo de reparti-lo, mas não podemos comunicar Cristo aos outros até que o tenhamos descoberto para nós mesmos. Os dois grandes passos da vida cristã são, em primeiro lugar, encontrar a Cristo e, em segundo, falar dele”.

Como a samaritana, um homem pode esconder o seu pecado, mas quando encontra a Jesus Cristo e o reconhece como seu Salvador, seu primeiro instinto è dizer aos outros: “Vede o que eu era e olhai para o que sou agora: é isto o que Cristo tem feito por mim”. Assim era Jesus, um homem sem preconceitos, nem contra as mulheres e nem para com os estrangeiros, quaisquer que fossem os seus erros, que ele estava sempre disposto a perdoar e conceder a chance de um novo nascimento. Essa história nos mostra que a mulher samaritana, uma das grandes mulheres da Bíblia, é um exemplo de cristã. Precisamos todos, homens e mulheres, ser evangelistas como ela foi.

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