Tu me amas?

Pedro recebe as chaves do céu, Pietro Perugino (1450-1523)
Leia todo o capítulo 21 do evangelho de João.

Contava o meu amigo João Wesley a história de um casal que num certo domingo o marido foi sozinho à igreja, ficando sua mulher em casa preparando o almoço para uma comemoração especial. Quando ele chegou em casa de volta, foi recebido com uma enxurrada de perguntas. Sua mulher queria saber, e com detalhes, tudo o que tinha acontecido durante a sua ausência. Quem foi à igreja, quem não foi. Se a igreja estava cheia ou vazia. Como estava ornamentada. Aqueles detalhes minuciosos que toda mulher faz questão de conferir. E no final ela perguntou: e o pastor, pregou sobre o quê? Ele pregou sobre o pecado, disse o marido. E o que ele disse sobre o pecado? Ele disse que é contra.

Pode parecer engraçado, mas serve muito bem para ilustrar o encerramento daquilo que venho ao longo desta semana tentando mostrar a vocês, caríssimos inspiradores da madrugada: a minha interpretação do chamado pastoral através daquilo que eu entendo como a grande diferença entre o primeiro e o segundo chamados de Jesus a seus discípulos. Venho tentando, da mesma forma, mostrar a minha visão dos desafios e responsabilidades que o ministro do evangelho deve assumir diante do mandamento expresso e claro de Jesus de buscar, antes de tudo, ser um apascentador de ovelhas. E encerrando agora este ciclo de meditações sobre o capítulo 21 do evangelho de João, eu gostaria imensamente de poder expor uma visão, ainda que breve, do futuro do ministério pastoral, ao qual, destituído de qualquer mérito, aprouve Deus permitir o meu ingresso.

Infelizmente eu nunca fui bom aluno em escatologia, nunca soube interpretar as visões futuristas do Apocalipse, e nem fazer análises, ainda que superficiais, das situações que, segundo muitos, estão prestes a acontecer. Jamais preguei sobre a segunda vinda de Cristo, Armagedon ou juízo final. Confesso que sou tão ruim em escatologia que nem da minha própria escatologia sou capaz de dizer alguma coisa. Não faço a menor ideia de como será o dia do juízo, e nem mesmo tenho certeza se acontecerá de fato esse dia. E é aqui que entra a história do marido que foi à igreja sozinho. Por mais que assista este tipo de sermão, por mais que tentem me colocar a par do que Deus tem reservado para os que o amam. Eu chego em casa sempre como ele: sem entender nada do que foi dito.

Não tenho certeza se Deus já tem montado esse tão anunciado tribunal do final dos tempos. Se esse tribunal organizadamente constituído interrogará as pessoas na intimidade de um encontro pessoal ou numa assembleia lotada. Embora eu não saiba muito, tenho a mais plena convicção de que um dia estaremos frente a frente com Deus. Naquele dia não vai importar se eu fui um pastor ou um leigo, porque o que vai se contar é basicamente a minha história de erros e acertos, de fracassos e bênçãos, de sucessos e frustrações, de tentativas e falhas. Por causa disso é que eu espero que naquele dia não me perguntem a que denominação eu pertenci, nem que tipo de cristão eu fui. Para o bem da verdade, espero que ninguém me pergunte se eu fui ou não cristão.

A minha preocupação maior não é tanto pelo que eu fiz, mas sim pelo que deixei de fazer. Com essa minha negligência eu sei bem que destruí mundos de sonhos, deixei corações decepados por expectativas frustradas e não fui ao encontro daquilo que mais esperavam de mim. O que fazer com esta minha culpa? Estamos sempre dizendo que não podemos nos perdoar por isso ou por aquilo, e não podemos mesmo. Sob esse aspecto eu não tenho qualquer chance nesse juízo final. Mas se não tenho certeza, tenho uma esperança. A esperança de que naquele dia apenas uma pergunta se fará. Uma pergunta cuja resposta resumirá tudo aquilo fomos e fizemos. Uma pergunta que colocará em segundo plano todas as grandes questões da vida. Tenho essa esperança de que somente uma pergunta se fará aos nossos corações.  A mesma pergunta que Jesus fez a Simão Pedro e que: Tu me amas?

Que Deus me permita responder a essa pergunta segundo a expectativa que ela encerra: Sim Senhor, eu te amo, e tanto quanto me foi possível apascentei as tuas ovelhas.

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