Pastores ou pescadores?

Pedro e André, mosaico do século V em Ravena, Itália 
Seria bom que você lesse João 21.1-17

Se há um detalhe intrigante nessa narrativa do evangelho de João é a decisão inesperada que alguns discípulos de Jesus tomaram de retornar às suas antigas atividades, que para a maioria era a pesca. Pelo que o texto deixa transparecer, não foi uma decisão impensada ou mesmo repentina, foi uma decisão tomada com consenso porque era isso que realmente eles sabiam fazer, era essa profissão deles. Mas, não é esse o motivo que a faz estranha, mas sim o momento da vida desses discípulos que ela é tomada. Foi justamente naquele intervalo entre a crucificação  e o Pentecostes, ou seja, o final do ministério terreno de Jesus e o que marcou o início do ministério da igreja.


Por ser um momento crucial na história da igreja, caberiam bem algumas perguntas: O que representaria o “vou pescar” para um grupo que fazia três anos que não pescava? O que seria voltar a pescar profissionalmente para quem havia trocado essa atividade pelo chamado para ser pescador de homens? O que significa o “vou pescar” na vida de alguém que havia largado tudo para inaugurar um novo projeto, uma nova proposta de vida? Poderia ser entendido como uma desistência? Um retrocesso? O sinal de arrependimento por ter seguido o Messias errado?

A história de Israel está pontilhada de narrativas sobre falsos Messias.  Até João Batista foi e ainda é considerado um Messias. É bem certo que havia no ar um clima de desilusão com a morte de Jesus. Não se pode negar que a experiência do fracasso na cruz era latente. Os discípulos de Emaús foram enfáticos em demonstrá-la na sua inteireza: Nós pensávamos que era ele quem ia redimir Israel. Aquele ideal do escolhido de Deus, do soberano e poderoso Messias, não fazia muito tempo que havia acabado na cruz, e a ressurreição ainda era um vislumbre, um acontecimento ainda não totalmente assimilado. Então, como aceitar que a era messiânica havia chegado se o poder opressor dos romanos continuava real, os corruptos sacerdotes e o tirânico farisaísmo ainda pesavam sobre o povo, as injustiças dos ricos contra os pobres insistiam em permanecer? Fica difícil não pensar em um retrocesso, fica difícil imaginar que aquelas pessoas não tiveram saudades de um estado anterior de felicidade, quando ainda viviam na rotina de sempre. O momento que estavam passando era de incertezas, de apreensão. Seu líder morrera na cruz e o único caminho que se apresentava além da cruz era o caminho de volta.




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