Começa o messianismo

A Crucificação de Cristo, Vassili Golinsky  
Responderam-lhe: “Porventura és também tu galileu? Informa-te bem e verás que da Galileia não saiu profeta. João 7.52

Na língua hebraica antiga, Messias é uma palavra comum que significa ungido, e que no Grego foi traduzida por Cristo. Indica, apenas, que a pessoa foi untada com óleo ou unguento com um fim específico, em um ritual religioso. Por se tratar de título conferido exclusivamente a seres humanos, o Antigo Testamento nunca concebeu um ser celestial sequer que o tenha recebido. Na história antiga de Israel somente os sacerdotes eram ungidos, por serem eles os escolhidos para a sagrada função de intermediação entre o povo e Deus. Com o surgimento da monarquia, a unção foi concedida, também, a Saul, que embora fosse escolhido pelo povo por método usualmente empregado pelos pagãos, que privilegiava estatura e força física, ainda assim teve a sua unção confirmada por Deus como primeiro rei de Israel. E assim se procedeu com todos os que subiram ao trono deste reino.

Diante de tantas cerimônias protocolares e de rituais públicos, como imaginar que este Messias, com o passar do tempo, deixaria de lado a linhagem sacerdotal e a realeza para ter seu nome associado à resistência, à revolução, à guerra, à libertação, e na expectativa judaica, mais tardiamente, à única esperança para toda a humanidade? A verdade é que, passando por cima de todos os legalismos e formalidades, a palavra evoluiu e obteve um significado de importância tal, que sobrepujava em autoridade a do sumo-sacerdote e a da mais nobre realeza, relegando a esta última a incumbência de servir, apenas, como instrumento para a chegada de um ungido em especial, cuja simples presença seria o sinal que marcaria a chegada de um novo tempo.

Depois da decepção causada pelo desastroso governo de Saul, um outro rei foi escolhido, desta vez por indicação do próprio Deus. Por todos os padrões conhecidos para escolha de um monarca, esta foi uma escolha que até hoje causa controvérsias. Como explicar que um chefe de quadrilha, adúltero, ladrão e assassino seria a opção preferencial de Deus para ser o maior rei do povo que se chamava pelo seu nome? Por razões que jamais alguém entenderá, Davi, a despeito de todas as suas falhas, era amado por Deus com um amor tão particular, que fez com que esta escolha não ficasse restrita ao período de duração do seu reinado, mas que consolidasse a sua figura como o protótipo ideal de um rei para Israel e fundador da linhagem na qual surgiria o grande e esperado Messias.

Davi foi sem dúvidas, o grande herói de Israel: derrotou os históricos inimigos filisteus, unificou os estados de Judá e Israel, fixou a capital em Jerusalém e livrou a Terra Prometida de todos os invasores. Por instaurar, pela primeira e única vez, a dinastia sob a qual Israel se viu uma nação livre e soberana, passou a personificar não mais a imagem de um simples rei, mas a fonte inspiradora do libertador prometido que iria trazer novamente a paz e a prosperidade; em resumo, o Messias. Por vinte gerações, os descendentes de Davi reinaram absolutos, até que, em 586 a.C., o ideal sucumbe perante um inimigo inexorável, os babilônicos. O orgulho de nação livre e soberana é perdido para sempre e um sem número de nações opressoras se sucedem subjugando o povo que outrora se julgava escolhido, mas que agora sente a vergonha de ter se reduzido a apenas um punhado de sobreviventes; na linguagem dos profetas, a um pequeno resto, o resto de Israel.

É neste cenário de desespero que nasce a esperança da chegada de um novo rei, que à semelhança de Davi, viria para restaurar a liberdade e a hegemonia de Israel, a partir do resto, sobre todos os seus inimigos. Peculiarmente acontecia que nos momentos de maior opressão, quando o povo se encontrava mais submisso, era justamente a hora em que mais crescia a esperança neste ungido de Deus. Aproveitando-se desta expectativa, vários “Messias” despontaram como libertadores de Israel, e para tanto não somente se apresentaram com características intrinsecamente guerreiras, a exemplo de Davi, como também se faziam ligados a ele por herança de sangue. Judas Macabeus, que, em 164 a.C., libertou o povo que estava sob domínio selêucida, e Bar-Kokeba, que se insurgiu contra os romanos em 135 d.C., foram os que mais se aproximaram da idealização de um Messias, mas que ao final, se mostraram autênticas fraudes, pois o que de fato conseguiram foi atrair mais escravidão, mais morte e mais sofrimento para o povo. Estes e outros, se auto-proclamaram Messias reivindicando serem descendentes diretos de Davi, atraindo, desta forma, uma legião de seguidores disposta a se sacrificar em nome e por dedicação ao ungido que, mais do que esperado, se fazia necessário.

Em meio a esta sucessão de pretensos Messias, nasce no século um de nossa era, alguém sobre quem recaem grandes questionamentos. Se por um lado preenchia as expectativas proféticas que iam desde o local do seu nascimento até a um sinal inconfundível na entrada triunfal que fez em Jerusalém, por outro, não preconizou de imediato o tempo de glória, paz e prosperidade prometido ao povo judeu, o que seria a marca indelével da chegada do Messias. Os judeus olhavam as profecias que anunciavam mudanças radicais na vida do povo e na própria natureza e diziam: este não pode ser o Messias. De fato, Jesus não seguiu o trâmite regular de alguém que postulava o cargo: não atraiu para sua causa um número suficiente de seguidores; não despertou temor entre os romanos de um levante armado; nunca se envolveu diretamente em questões político-partidárias; enfim, jamais executou publicamente qualquer movimento que pudesse atrair para si a evidência de um Messias.

Em se tratando de situações domésticas, mesmo entre seus poucos seguidores, havia quem não aceitasse esta sua postura como definitiva, e persistiam em acreditar que, de uma hora para outra, a sua face guerreira iria despontar e que ele pegaria nas armas para destruir os inimigos, o que nunca aconteceu. Então, que Messias é esse que vem para subverter uma expectativa secular? O que ele possuía de tão especial que justificaria transtornar um ideal que já perdurava por quase seis séculos? No entendimento e na esperança do povo, o Messias é um rei guerreiro que vem conclamar o povo para uma vitória avassaladora e inquestionável, ou simplesmente, não é o Messias.

Para se entender Jesus como sendo este Messias prometido, uma mudança radical na abordagem a respeito do Plano de Deus se faz necessária, fato que não se daria durante a sua existência terrena nem no momento imediatamente seguinte. Somente após muita reflexão, é que alguns passaram a aceitar e a acreditar que a vinda deste Messias não causaria apenas a simples inversão no cenário mundial, onde os opressores trocariam de lugar com os oprimidos, mas anunciaria a erradicação de qualquer tipo de opressão e de sectarismo. Uma ideia muito à frente da mentalidade do Período Clássico, quando a preservação do sistema que se baseava exclusivamente na relação entre classes dominantes e dominadas era vital. Além disso, imaginar o poder das armas cedendo lugar à força do amor, que é a marca deste novo tempo messiânico, é algo que não se assimila de imediato. Sobretudo, um aspecto é de capital importância: ter, como Jesus, a fé inabalável em que, enquanto este novo tempo não se faz presente, vale a pena sofrer e morrer apenas por esta esperança, sendo ou não o Messias.

Leitura João 7.40-53

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