Comoção desproporcional

Chade, o país mais pobre do mundo, segundo a ONU
Quero aproveitar essa nova infração nas regras do futebol, a que é chamada de uso desproporcional da força, para titular essa meditação, visto que tem se observado que o uso desproporcional dos nossos sentimentos em relação aos fatos do nosso cotidiano é público e notório. Já havia pensado em abordar esse tema anteriormente, mas a reação à morte trágica do jovem ator me fez apressar a divulgação.
Quero dizer que nada tenho contra a pessoa deste rapaz, a respeito de quem nunca antes ouvira falar, pois não assisto TV há 20 anos, não sintonizo a Globo por 30 anos e não acompanho novelas há 200 anos. O curioso é que a primeira manifestação de comoção que observei partiu de uma pessoa profundamente integrada nos projetos de sua igreja, cujo trabalho, especialmente com crianças, é do mais digno louvor. Depois dessa, uma multidão de indignados, para o bem da verdade, indignadas, tomou de assalto as páginas do Facebook, fazendo com que o incidente se sobressaísse a qualquer outro fato, fazendo com que a cassação do Cunha, os Jogos Paraolímpicos ou as atrocidades do EI ficassem em segundo plano.
Há pouco tempo ouvi um sermão do rev. Alan Kleber em que ele relativizava a falta de atitude das feministas brasileiras, “as mulheres de sovaco cabeludo”, como chamou, diante da mutilação genital feminina na Somália, como também da inércia do deputado Jean Wyllys face o extermínio de gays pelo Estado Islâmico. É disso que estou falando, a nossa desproporcionalidade de reações diante dos desafios que o mundo nos impõe. Paulo há muito já nos alertava que a nossa luta não é contra carne e sangue, não é contra pessoas, mas contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais. (Ef 6.12) 
Perdoem-me, mas não sei em que a morte do ator pode ser mais chocante do que a de milhares de pessoas que morrem por expressar sua opinião ou sua fé. Por que a morte do menino sírio por afogamento foi mais dolorida do que a morte por inanição de milhões de crianças ao redor do mundo? Por que caça às baleias é proibida e a pena de morte em quase toda a Ásia é tolerada? Não pode morrer é gente, declarou Chico Anysio em uma entrevista que vi recentemente no Youtube.
O evangelho nos ensina que a vida é preciosa em todas as suas fases; seja da menina, filha do influente Jairo; seja de um desconhecido rapaz na insignificante vila de Naim; seja do amigo antigo, como era o caso de Lázaro.
Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram. Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos. Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. (Rm 12.15-19) 
A Bíblia não tem como ser mais clara.

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