Tempo de Gandalf

Gandalf e Balrog. Noe-Leyva
Reina o Senhor. Revestiu-se de majestade; de poder se revestiu o Senhor e se cingiu. Firmou o mundo, que não vacila. Salmos 93.1

Um dos episódios da trilogia O Senhor dos Anéis narra o momento decisivo para a missão da qual Gandalf estava empenhado. O mago se põe em uma pedra, que embora estreita servia de ponte sobre o abismo, de espada na mão diz para Balrog, o demônio do mundo antigo: Daqui você não passa. O reverendo Ken Esaú faz uso dessa cena para dizer que a igreja vive hoje o Tempo de Galdalf, para dizer que alegações pseudocientíficas que querem por um véu de suspeição sobre a origem bíblica da raça humana não daqui não podem passar.

Mas antes que saiamos em uma cruzada fundamentalista em favor da Bíblia, temos que comprovar se o que pensamos ser verdades incontestáveis são realmente extraídas das Escrituras na sua forma original. Ou seja, será que é isso mesmo que a Bíblia quer dizer, ou isso é o que nós gostaríamos que ela estivesse dizendo? Por muito tempo a igreja se valeu de versículos como este que é o nosso texto base para afirmar que a Terra era o centro do universo e que tudo mais girava me torno dela. Vem o astrônomo Galileu, depõe a nossa prepotência em querer fazer a Bíblia dizer o que nós queremos e aqui ficamos nós com cara de bobos diante de um mundo que está de prontidão para nos achincalhar e nos chamar de crédulos inocentes. O pior de tudo é que depois ninguém fica sabendo que a Bíblia nunca quis dizer isso.

Não quero trazer para essa discussão a canalhice daqueles que fazem uso da Bíblia para explorar a crendice alheia, que por sinal está cada vez mais escabrosa. Quero falar de doutrinas que se estabeleceram no senso comum e que não encontram fundamento algum entre as doutrinas que a Bíblia quer nos ensinar. Quero falar da questão do tempo que a Bíblia como medida, que mal interpretado causou confusão, que custou a vida de muitos e que ainda hoje funciona como argumento para refutar o que pela verdadeira ciência já está mais do que provado.

Isso não é de forma alguma heroísmo cristão, e sim uma forma covarde de se esconder atrás do texto bíblico e a melhor maneira de mostrarmos o nosso descaso com o estudo dessa palavra. Citando novamente o reverendo Ken, quando a Bíblia afirma que há um tempo para todo propósito debaixo do sol, temos que determinar de este é o tempo de abraçar certas ideias relacionadas à ciência ou o tempo de abster-se de abraçá-las? Poderíamos perguntar em outras palavras, é Tempo de Galileu ou o tempo de Gandalf?

O tempo na Bíblia entrou numa discussão polarizada entre os teólogos que defendem a leitura literal e os outros que o consideram meramente uma alegoria. O fato é que existe um tipo de verdade na Bíblia que não é necessariamente verdade histórica e sim verdade teológica. Narrativas que expressam conceitos verdadeiros de amor e justiça, mas que não aconteceram de fato. Algumas parábolas que Jesus contou servem bem para ilustrar o que estou dizendo. Ninguém acredita que existiu uma família como a do filho pródigo, mas ninguém duvida da validade daquele ensinamento.

Os primeiros capítulos do Gênesis estão situados nesta categoria. Não há mais como acreditar que o mundo foi criado em sete dias, pelo que conhecemos do espaço de tempo chamado dia. Mas isso não poderá jamais ofuscar em nós a verdade que foi Deus quem o criou. Entrar em defesa do Tempo de Galileu nos fará perder de vez a importância do Tempo de Gandalf. E isso é tudo que os céticos querem para mais uma vez nos achincalhar e nos fazer de crédulos inocentes.

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