O que é SATÃ?

Satã, o Pecado e a Morte, William Hogarth
No Primeiro Testamento a palavra satã (hebraico sãtãn; o verbo sãtan = incomodar, Sl 38.21; Sl 71.13) significa adversário em geral, e mais em particular aquele que diante do tribunal desempenha o papel de acusador (ministério público, promotor) (Sl 109.6), e pode, por isso, ser aplicada a qualquer um que em determinada ocasião se opõe a outrem (I Sm 29.4; II Sm 19.23; I Rs 5.18; I Rs 11.14; Mt 16.23); até o anjo de Javé que impediu a passagem a Balaão e sua jumenta, é chamado assim (Nm 22.22; Mt 16,.23).

Mas satã por excelência é um ser sobre-humano ao qual compete acusar e contrariar, impiedosamente, os homens diante do tribunal de Deus (“o” satã, com artigo; os LXX traduzem então, menos em Eclesiástico 21.27, por ó oaTavãç). Em Job 1.6 o satã comparece, como um dos “filhos de Deus” perante Javé, nos dias em que esses se reúnem diante de Deus. Voltou de uma exploração pela terra, fala com Deus, duvida da autenticidade da virtude de Job, desafia Javé e obtém licença para experimentar a piedade de Job por toda espécie de calamidades.

Papel semelhante compete ao satã na visão de Zc 3.l; denuncia o sumo sacerdote Josué, mas o anjo de Javé refuta a sua acusação. Em I Cr 21.1 Satã (aqui a palavra é pela primeira vez nome próprio, sem artigo) age como tentador: excita Davi a fazer o recenseamento. É curioso que no lugar paralelo (II Sm 24,1) a mesma coisa é atribuída à ira de Javé. Está claro que o Primeiro Testamento chegou só paulatinamente à noção de Satã, como nós a conhecemos. Nos textos mais antigos, que não fazem distinção entre o que Deus causa diretamente e o que Ele permite, é atribuído ainda à ira de Deus o que Ele mesmo propriamente não opera, mas apenas tolera.

Um passo mais adiante é a visão de Miquéias (I Rs 22.19), onde Javé emprega, como instrumento para perder Acab, um espírito que se toma um espírito mentiroso na boca dos profetas de Acab; mas esse espírito ainda faz simplesmente parte do “exército do céu”. Também em Job 1, Satã fala livremente com Javé e age com a sua permissão. Em Zc 3 ele já aparece mais como o adversário continuo da teocracia, e em I Cr 21 transformou-se completamente e ficou o pai de todo o mal, que se opõe a Deus em hostilidade irreconciliável. No fim da revelação do Primeiro Testamento, Satã é identificado com a serpente de Gn 3. A figura de Satã não vem, portanto, do dualismo persa Ahriman, o principio mau, como independente do deus da luz, Ahura Mazda o rabínico distinguia
no princípio entre Satã (nome próprio) e os anjos caídos, sendo ele relacionado com os anjos punidores (Henoc 53.3). Recebe outros nomes, como Belial e, sobretudo, Sammael (veneno de Deus). É ele quem tenta perturbar a relação entre Deus e o seu povo pela tentação para o pecado (que para os rabinos muitas vezes é um ato puramente externo), por acusações diante de Deus e por oposição contra o plano salvífico de Deus. Alguns apócrifos identificam Satã também com a serpente de Gn 3 (cf. a denominação “serpente antiga” no Targum e no Midraxe). (continua)


Fonte: Dicionário Enciclopédico da Bíblia. A. Van Den Born

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