Para isto existem os desertos: para serem atravessados

Ventos noite a agitar as vestes de um Tuareg caminhando pela Argélia
Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do rio Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto. Ali ele foi tentado pelo Diabo durante quarenta dias. Nesse tempo todo ele não comeu nada e depois sentiu fome. Lucas 4.1-14

Texto do Reverendo Luiz Carlos Ramos† extraído do blog Textos & Texturas.

Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
(Álvaro de Campos, in “Poemas”, heterónimo de Fernando Pessoa)

O Vento levou Jesus para o deserto. Coisa estranha que só os místicos compreendem… ou quase. Por quarenta dias, Jesus tenta ser um discípulo de João, mas em lugar de clamar e gritar, preferiu ouvir o deserto. Foram dias de escuta nos quais o número humano, demasiado humano (40), repercutia sua densidade: dilúvio, escravidão, libertação, peregrinação, conversão, arrependimento…

Diz-se que, lá no deserto, Jesus encontrou-se com o advogado daquela patológica e esquizofrênica dissociação entre a ação e o pensamento. Esse diabo, supondo estar Jesus fragilizado no corpo, tentou seduzi-lo a separar a Palavra do Pão; julgando-o fragilizado de alma, a dissociar o poder do serviço; e suspeitando que Jesus estivesse fragilizado no espírito, tentou seduzi-lo a separar o divino do humano.

Ao final dessa travessia de 40 dias, agitado entre o  Vento da Unidade e o turbilhão da desintegração, Jesus se decide definitivamente pelo Vento da Unidade, mesmo que isso implique no rompimento com seus egoísmos.

A ruptura com João também é evidente. Deixa a Voz do que Clama no Deserto, e se dirige para as gentes, para ser a Palavra que se Fez Corpo. O grito de condenação dá lugar à boa nova de salvação. Os rituais legalistas de purificação são substituídos por gestos de pura graça, perdão e solidariedade.

Há místicos que gostam dos desertos, mas muitos não conseguem entendê-los. Pensam que desertos são pra se morar neles. Não sabem que se o povoarem ele deixará de ser deserto. Desertos são, antes, lugar de travessia, de peregrinação…

Para sair do deserto há que se ouvir o Vento Sagrado da Unidade, e não separar o que Deus uniu: Pão e Palavra, Poder e Serviço, Deus e o ser Humano.

Daqui até a Páscoa, temos diante de nós um árido deserto a atravessar.

Para isso, ouçamos o Vento Sagrado da Unidade.

ventos noite agitar as vestes de um Tuareg caminhando pela Argélia Tassili-n'Ajjer.

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