Amós: O Profeta Boiadeiro

Amós, Naomi Friend
Texto do rev. Haroldo Reimer

A Justiça e o Juízo.
Tomando-se as composições mais antigas de Amós como ponto de partida para esboçar a mensagem ou projeto de Amós percebe-se claramente que nestes textos há uma contundente crítica aos agentes e aos mecanismos de exploração e opressão dos camponeses empobrecidos sob o governo expansionista de Jeroboão II e sob as condições de um incremento de relações de empréstimos e dívidas entre pessoas do próprio povo no séc. 8 aC. Os desmandos na área pública e as perversões nas relações entre israelitas particulares estão contempladas na profecia crítico-analítica das composições de Amós.

Na mensagem destes textos proféticos, além das denúncias sociais, sobressai o anúncio de um juízo iminente de YHWH na história do seu povo. Amós é o profeta que inverte as expectativas por um esperado “dia de YHWH” (Am 5.18-20). Se a tradição-esperança por um glorioso com YHWH funcionava como “ideologia de segurança político-religiosa”, Amós inverte essa expectativa e introduz de forma massiva na teologia de Israel a tese de que YHWH virá para uma “guerra santa” contra o próprio povo de Israel por causa das injustiças Amós - profeta de juízo e justiça reinantes na sociedade. A perversão da justiça para os pobres, a opressão dos empobrecidos e a exploração das pessoas mais fracas clama pelo juízo divino. E YHWH, aquele que é “forte como um carvalho” fará vir o “dia mau” sobre os fortes de Israel.

Em resumo podemos dizer que o juízo iminente anunciado pela profecia de Amós sobre abaterá, por um lado, sobre o estado tributário, suas instituições e seus agentes, e, por outro lado, sobre os fortes na sociedade civil de Israel.

A crítica ao exército e suas atrocidades nas ações expansionistas nesse período tem como correspondência o anúncio de um desmantelamento das forças militares de dos estados vizinhos (Am 1.5-8; Am 1.14; Am 2.2) e sobretudo de Israel (Am 2.13-16; Am 3.11; Am 5.2-3; Am 6.13-14).

A crítica à religião oficial e sua instrumentalização no processo de extorsão de tributos da população camponesa (Am 4.4-5; Am 5.21-23) trazem como consequência o anúncio da dizimação dessas instituições religiosas (templos) e seus agentes (Am 5.27; Am 7.9; Am 9.1). Na crítica à corte aparecem as formulações mais flagrantes e marcantes da crítica social de Amós (Am 2.8. Am 3.9-10; Am 4.1; Am 6.1-7). O conjunto e a sequência dessas críticas permitem reconstruir que os mecanismos de exploração para garantir a “dolce vita” e para eternizar a opressão sobre os camponeses são a tributação em espécie, o trabalho forçado temporário (corveia), a coação religiosa e a coerção pela força das armas. Porém, ai dos que estão seguros em Samaria (Am 6.1), porque YHWH dará um fim a tudo isso; terminará com a “dolce vita” dos “boas vidas” (Am 6.7). A cidade e a corte como polo aglutinador da exploração e do consumo, com seus muros, seus castelos, será devastada e destruída no juízo anunciado (Am 3.11; Am 4.2-3; Am 6.7-11).

A crítica à perversão dos direito nas relações econômicas privadas (Am 2.6; Am 5.10-12; Am 8.4-6) traz consigo o anúncio de um juízo divino também sobre os “cidadãos normais”, que dolosamente se utilizam da jurisprudência popular para enriquecimento próprio. Somente para este âmbito a profecia exprime um apelo positivo para que na instituição da jurisprudência popular, isto é no “portão” ou “praça pública” seja restituído o direito (Am 5.15): “Odeiem o mal e amem o bem: re-estabeleçam no portão a justiça!”. Aqui está a exigência positiva por excelência na profecia de Amós. Os israelitas são conclamados a re-construir as relações sociais baseadas na justiça e no direito (mishpat / sedaqah ). Só assim será possível escapar do juízo vindouro anunciado. O futuro de um “resto” passa pela prática de justiça.

Olhando o todo da mensagem profética de Amós sobressai o anúncio do juízo iminente de YHWH sobre o seu próprio povo. Em termos sociais, isso significa o desmantelamento da estrutura do estado tributário em Israel. Pode-se dizer que Amós articula um projeto de “re-tribalização”, isto é, após a anunciada-esperada derrocada do estado tributário, as famílias e os clãs de Israel poderão reconstruir a sua vida sobre novas bases de justiça e direito. É interessante observar que no imaginário das composições de Amós o futuro é expresso em categorias familiar-clânicas. Em Am 5.6 fala-se da “casa de José”; em Am 5.15, a expressão “resto de José” indica a grandeza social que, talvez, sobreviverá ao juízo de YHWH. Em Am 6.6 critica-se a postura despreocupada da elite que não “fica doente” por causa da “ruína de José”, isto é, a desintegração da nação israelita. No ciclo das visões, a expressão “pequeno Jacó” (Am 7.2-5) indica para os camponeses depauperados. Em Amós, a crítica social e o anúncio do juízo divino articulam a visão de um Deus que toma partido pelas pessoas pobres e oprimidas na sociedade do próprio povo de Israel e também nos povos vizinhos (Am 1,3; Am 1.6; Am 1.13; Am 9.7).

Em Amós verifica-se uma profunda defesa dos fracos e empobrecidos e uma luta pelos seus direitos. A profecia articula o movimento e a esperança por um Deus que através de um “dia mau” (Am 5.18-20; Am 5.8-9; Am 6,3) fará com que na terra reine a justiça, a paz e a dignidade humana. O juízo faz caminho para a justiça.

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