Evidências de um passado glorioso

Consagração de Estevão, Vittore Carpaccio
A despeito de todo descalabro que se pode observar no cenário religioso do Brasil de hoje, quando sacerdotes são condenados por estupro pela justiça comum à pena máxima; quando a mais vergonhosa de todas as faces do Congresso Nacional se autodenomina Bancada Evangélica; quando denominações inteiras são investigadas por uso criminoso das contribuições e dízimos que arrecadam, de repente nos deparamos com algumas vozes de outrora que revelam o nosso verdadeiro passado de glórias.

Não falo dos relatos da Bíblia, pois, segundo a totalidade das organizações de grupos ateus e agnósticos, é considerada suspeita. Mas de uma literatura tão distante da impactante reação que se instalou nas igrejas primitivas pela novidade do evangelho, quanto da cristianização do Império Romano imposta por Constantino.

Quero me referir especificamente à Carta a Diogneto, escrita por autor anônimo no final do segundo século da nossa era, muito provavelmente um cristão de influência joanina, pois se refere a Jesus apenas como Cristo, e que foi supostamente endereçada a um romano a quem chamou de Diogneto, que se imagina ter sido Cláudio Diógenes, tutor do futuro imperador Marco Aurélio.

Sem mais delongas passo a transcrever trecho desta carta:

Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida especial e admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, e cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos, e desse modo, é lhes dada a vida; são pobres, e enriquecem a muitos; carecem de tudo, e têm abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida. Carta a Diogneto 5.1-17.

Gostaria de destacar nesta hora apenas as palavras finais deste trecho, quando o autor declara como viviam os cristãos dos anos 190 d.C.: fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida. O autor fez questão de ressaltar o quanto foi promissor para a fé cristã as injúrias e injustas condenações pelas quais os nossos irmãos do passado foram submetidos. Ele, muito sabiamente, potencializa este fenômeno com pouquíssimas palavras: no desprezo, tornam-se glorificados.

A relação desprezo x glória foi incansavelmente pregada por Jesus em várias situações. A sua mensagem registrada nos evangelhos e nas cartas paulinas já havia deixado claro que o inverso seria igualmente inevitável, ou seja: o futuro prestigioso de qualquer pessoa ou instituição cristã é invariavelmente desprezível.

Alguém me diga se não é exatamente isso que está acontecendo.

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