A culpa é da minha lógica

Paulo e Silas, açoitados e presos, autor não identificado
O providencial comentário de um amigo de mocidade sobre a postagem de anteontem me fez refletir diante de um fato que tem se repetido com certa frequência: existem coisas que só têm lógica para mim mesmo. Esta não é a primeira vez em que eu precisarei retroagir no tempo para tentar ser claro o suficiente para que as minhas palavras estejam no mesmo patamar daquilo que a minha lógica pretende apresentar.

Uma outra postagem, desta vez do rev. Luiz Carlos Ramos citando o nosso mestre comum, Ruben Alves, me colocou ainda mais de frente com a minha triste realidade, pois eu não possuo a habilidade que o Rubão tinha, para me atrever a dizer: faço fotografia com palavras.

Dito isso, passo a tentar consertar a ideia original do texto que se intitula “Evidências de um passado glorioso” em que, com duvidoso sucesso, pretendi traçar um paralelo entre a igreja de hoje e os seus primórdios dos primeiros séculos

O princípio em que se baseou a meditação era bastante simples quando afirmava que quando a igreja busca as glorias que são próprias deste mundo, ela se afasta do ideal para o qual foi estabelecida, dos parâmetros de vida e prática ditados por Jesus e se afasta também do próprio mundo, objeto da sua existência. É de uma forma bizarra, porém gratificante, que reconhecemos que a perseguição imposta pelo Império Romano à igreja nos primeiros séculos da nossa era foi o principal motivo do seu crescimento avassalador. Isso pode ser constatado em várias situações. A primeira delas na admiração que o rei Herodes nutria em segredo pela mensagem de João Batista. Nesta mesma linha de pensamento temos o depoimento pessoal do rei Agripa, quando se rendeu a eloquência do apóstolo Paulo, dizendo: por pouco não me persuades a ser um cristão.

A história registra também a morte do irmão do imperador Cláudio e o desterro de sua esposa pelo fato de ambos terem se convertido à fé cristã. Ou seja, em menos de cinquenta anos o Cristianismo já tinha adeptos dentro dos palácios de Roma, e este privilégio alcançava desde de os servidores escravos até o mais alto escalão da sua hierarquia. Não era segredo algum a simpatia que o modo de vida dos cristãos primitivos havia granjeado entre a população local. O livro dos Atos dos Apóstolos descreve com rara felicidade: Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos. Parte deste ponto a minha lógica em ressaltar os contrastes entre a igreja de hoje.

As situações há muito se inverteram. O mundo nos vê como meros oportunistas que tentam gozar de privilégios que são negados ao povo. Os escândalos sobre os pastores eletrônicos se avolumam. As falcatruas da nossa bancada evangélica estão dada vez mais expostas. Os nossos templos agridem com vergonhosa opulência o status da população onde estão inseridos, e as suas arquiteturas não se alinham com as construções locais.  

Por esses e tantos outros motivos, já não contamos mais com a simpatia do povo e muito menos com o seu respeito como instituição que leva a cabo um propósito sério. Nossas alegrias já não estão mais nos açoites, nas perseguições e nas injúrias que sofremos. Quem açoita os outros credos são cristãos livres. Quem persegue as seitas minoritárias são as igrejas que detêm poder para tal. E o mais triste de tudo: a maioria das injúrias tem procedência.

Quero pedir desculpas pelo retardo, embora ainda não tenha a certeza de que fui suficientemente claro desta vez. Se não consegui, uma reprimenda do meu amigo e xará ou de outro leitor serão muito bem-vindas.

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