O novo Arão e seus bezerros de ouro II

Ouro para o bezerro, Tintoretto
Então os israelitas tiraram das orelhas os brincos de ouro e os trouxeram a Arão. Ele pegou os brincos, derreteu-os, derramou o ouro dentro de um molde e fez um bezerro de ouro. Então disseram: — Povo de Israel, estes são os nossos deuses, que nos tiraram do Egito! Êxodo 32.3-4

Uma das providências mais imediatas dos líderes religiosos que costumam ceder às exigências de sua comunidade é fazer com que ela pague pelos seus desejos de alguma forma. Por outro lado, é sempre por meio de sacrifícios ou mesmo pela oferta de bens materiais que o povo consegue persuadir tanto as lideranças que não têm convicção da responsabilidade do seu chamado, quanto as que declaradamente se propõem a prestar exatamente este tipo de serviço.

Arão é o clássico exemplo de líder que não tem a proposição firme de se colocar a serviço de Deus, e assim consente com que o povo lhe induza a trilhar o caminho de volta à idolatria. Devemos atentar para o fato de que o bezerro não era um substituto de Deus, e sim de Moisés. Eles sabiam bem que não era uma escultura recém fundida que os havia tirado do Egito. Mas a falta de uma referência visível e de uma liderança firme fez com que o povo se voltasse novamente para a adoração de um ídolo.

A atitude de Arão deveria fazer toda a diferença neste episódio, uma vez que ele havia sido consagrado sacerdote justamente para conter antigas paixões que ainda estavam bem presentes no cotidiano dos hebreus. Na ordenação de Arão um touro, que é a representação de um conhecido deus egípcio, foi sacrificado na sua presença e na presença dos seus filhos, aqueles a quem Deus havia separado para o seu serviço. O que na realidade representava o sacrifício do touro senão o rompimento definitivo com esta antiga prática de adoração.

Outro detalhe importante é que esse ouro usado para a fabricação do bezerro não era fruto do trabalho do povo. Os hebreus não saíram do Egito com uma mão na frente e outra atrás, como se costuma dizer. As mulheres hebreias, em nome de Deus, espoliaram as esposas dos egípcios despojando das mãos delas alguma joia ou objeto de ouro. Ou seja, o ouro era uma dádiva de Deus e não lhes havia custado trabalho algum. Esse mesmo ouro que foi dado como sinal de bênção, nas mãos de Arão se tornou uma maldição.

Parece que conceito não mudou muito, pois o dinheiro que hoje é consagrado a Deus em forma de dízimos e ofertas, nas mãos de algumas lideranças religiosas, está se transformando em mansões, iates, jatinhos particulares e carrões importados em nome de jesus.com. O que era para ser uma bênção nas mãos desses sacerdotes é a sua declaração de improbidade para administrar os bens ofertados à igreja, tornando-se assim uma confissão de culpa assinada pelo próprio punho. 

O que restava a Moisés fazer quando retornou para junto do povo e presenciou todo esse mal enjambrado culto a Deus? Culto a Deus sim. Vejam em Ex 32.5 - Arão construiu um altar diante do bezerro de ouro e anunciou ao povo: — Amanhã haverá uma festa em honra de Deus, o Senhor. Tudo parecia ser um culto de adoração a Deus tradicional. Arão pecou apenas por um detalhe fez expressamente o que Deus havia dito que não fosse feito.

Moisés quebrou as Tábuas da Lei, pois o acordo que ele havia tratado com Deus no alto do monte se tornara inválido. Moisés não tinha como intermediar uma aliança de um povo com seu Deus quando este povo descarta as prescrições exigidas pelo próprio Deus para a sua adoração e serviço, e toma para si práticas que lhe agrada e que lhe convém ao coração. (continua)

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