De boa fé até Herodes estava tomado

O culto ao bezerro de ouro, François Perrier
Arão construiu um altar diante do bezerro de ouro e anunciou ao povo: — Amanhã haverá uma festa em honra de Deus, o Senhor. No dia seguinte, de manhã cedo, eles trouxeram alguns animais para serem queimados como sacrifício e outros para serem comidos como ofertas de paz. Depois o povo sentou-se para comer e beber e se levantou para se divertir. Êxodo 32.5-6

A heresia do bezerro de ouro, que já foi tratada aqui neste blog sob a ótica da negação da fé como foi proposta, deve ser abordada também levando em conta alguns aspectos dos cultos atuais que têm frequentado assiduamente nossas postagens. Um deles é a falsa ideia de que se pode prestar culto a Deus segundo a nossa consciência e autodeterminação.

Não faz muito tempo travamos uma verdadeira batalha campal contra os admiradores ferrenhos e dois pastores cuja “inocente” prática da confirmação do batismo no Rio Jordão foi estampada em uma foto no Facebook. Devo dizer que travei esta luta com pessoas que tinha na mais alta conta e com outras que conhecia a índole há bastante tempo. Tudo isso porque vi naquela celebração semelhante forma de culto a Deus, como a que foi prestada diante do bezerro de ouro promovida por Arão, irmão de Moisés.

O que temos no texto é um sacerdote sem determinação, que se tornou o queridinho do povo, justamente porque fazia tão somente o que o povo queria, e dizia apenas o que o povo gostava de ouvir, e isso tudo em honra a Deus, o Senhor. Se nos detivermos na leitura de todo esse capítulo vamos nos deparar com o dramático contraste entre o que um pastor faz para ser popular e o que o outro faz para ser servo de Deus, e o desenrolar trágico desta prática que é tão comum em nossas igrejas atuais.

Não tenho a menor dúvida que em ambos os casos, ou seja, tanto o de Arão quanto o dos pastores do rebatismo, que as pessoas envolvidas estavam ali de boa fé, e que a intensão última era realmente prestar um culto tão agradável a Deus, quanto era agradável ao seu coração. Os pastores só se esqueceram de dizer a essas pessoas que isso não é o culto que Deus reivindicou para si, e sim um culto que aplaca a consciência dos bodes e não o culto que pastoreia as ovelhas.

Notem que a ordem do culto de Arão é rigorosamente litúrgica, pois os elementos do culto antigo estavam todos presentes. O problema estava na inclinação do povo em realizá-lo de boa consciência, mas da maneira que melhor lhe aprouve. Notem também a conotação sexual que tem por trás das palavras do narrador bíblico ao descrever a forma clara os cultos pagãos em que eram praticadas a orgia e a prostituição religiosa: Depois o povo sentou-se para comer e beber e se levantou para se divertir. Notem ainda a sua preocupação em detalhar as consequências imediatas deste culto equivocado: Eles já deixaram o caminho que eu mandei que seguissem; fizeram um bezerro de ouro fundido, e o adoraram, e lhe ofereceram sacrifícios. Agora não tente me impedir, pois vou descarregar a minha ira sobre esta gente e vou acabar com eles. Ainda não chegamos tão longe, mas o contato físico exagerado e as declarações extáticas de amor já são um bom começo.

Eu confesso que nunca antes tinha visto uma veneração tão consensual por pastores, como as que vejo nas igrejas evangélicas de hoje. A veneração aos santos levada a cabo pelos seguidores do Catolicismo Romano está engatinhando, perto do que se tem notícia. Pessoas que têm os seus pastores em uma relevância tamanha que faz com que se esqueçam até de suas formações profissionais e habilidades pessoais quando a palavra do pastor conflita com o que as experiências vividas lhe provou ser verdadeira. Pessoas que perdem a noção do ridículo ao fazerem o que lhes é proposto.

O pastor de hoje está longe de ser a tenda de pano, o vaso de barro ou o remador inferior, postura enfatizada pelo apóstolo Paulo. O pastor atual não é somente o bibelô mais intocável ou a peça mais rara da coleção, ele é também o maior patrimônio da igreja, a ponto de muitos membros dizerem que não saberiam o que fazer se um dia o seu pastor lhes faltasse.

Felizmente ainda existem aqueles que não dobraram seus joelhos diante de Baal. Ouvi de um pregador no último domingo: quando eu acabo de pregar a mensagem que Deus colocou no meu coração não sei se vou receber salário no final do mês ou se estarei desempregado.


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