O caminho do céu à ressurreição

Talitha cumi, cena do filme Jesus de Nazaré
O Calendário Litúrgico da Igreja Católica sugere, para hoje, três leituras que individualmente já serviram de base para algumas meditações longas e bem interessantes postadas neste blog. Mas eu pergunto: qual seria o motivo que as faria, em conjunto, ilustrar um mesmo tema, tal como este que o Calendário Litúrgico nos apresenta para este dia? Com muito custo me vem a ideia de três estágios em que a fé se revela progressivamente.

O primeiro fala da fé incipiente e supersticiosa de Jacó, que ameaçado pelo seu irmão, a quem fraudou, encontra refúgio no isolamento de uma terra árida e até então muito misteriosa. A experiência vivida e não integralmente absorvida por Jacó naquele local, descreve uma revelação de Deus que contraria toda a expectativa humana da sua geração. Jacó era de um povo que erguia construções com a finalidade de alcançar os céus, para assim tentar entrar em contato com as divindades a quem adoravam.

Nesta revelação, Deus mostra a Jacó que caminho para o relacionamento estreito é o próprio Deus quem estabelece, independente de qualquer ação ou cooperação humana: uma escada que apoiada na terra toca o céu. É bem certo que o termo não designa propriamente uma escada, como apresentam as ilustrações, mas sim um caminho em um plano elevado. Um caminho que mais tarde Jesus se apresentaria como tal. Mas ainda que não entendesse o sonho como uma possibilidade de se aproximar de Deus, sua fé o leva a intuição de que Deus se aproximou dele, e é com espanto que revela: Em verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia!

O segundo texto é o salmo 91. Uma incrível e inspirada mensagem em que o salmista reduz a nada o poder de uma avassaladora superstição que assolava indistintamente todos os povos daquela região. Superstição a qual chamamos na meditação de Quarteto Sinistro. O espanto noturno, a seta que voa de dia, a peste que se propaga na escuridão e mortandade que assola o meio-dia são devidamente ridicularizados pelo salmista, principalmente quando diz: cairão mil ao teu lado, dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido. O salmista conclama o seu povo para consolidar a sua fé no Deus de Israel, porque somente a fé que é depositada nele pode libertar o povo da superstição que aterroriza o mundo à sua volta.

Reparem na intrepidez do poeta da Bíblia em relativizar uma ameaça que era consensual entre os mais poderosos monarcas, como também entre os mais humildes plebeus. Ele é uma voz única de esperança e salvação em meio a uma multidão aterrorizada. Este é o estágio de fé que ressalta o poder de Deus acima de qualquer outro poder estabelecido entre nós.

Finalmente temos o texto da ressurreição da filha de Jairo, em que a fé é demonstrada em duas situações não mais fictícias, mas de perigos reais. Uma mulher que sofria há doze anos de uma hemorragia crônica, e uma menina de 12 anos que sucumbira a uma doença, que diante de todos os recursos disponíveis, se mostrou incurável.

Interessante notar que à anônima sem procedência que trazia consigo apenas a convicção extrema e muito pouco provável de ser curada ao mais singelo toque, Jesus enaltece-lhe a fé firme e inabalável, dando a ela todo o crédito pela cura: minha filha, a tua fé te salvou. Mas ao religioso, de quem se podia esperar uma atitude no mínimo semelhante, Jesus questiona a fé, desafiando-o a crer acima da razão e da circunstância. Para todos a menina já estava morta e mestre nada podia fazer, a não ser deixado em paz.

É aí que Jesus conclama o sacerdote a ficar possuído de uma fé verdadeira e sem barreiras: não temas, crê somente. Decisivamente Jesus mostra o estágio mais elevado da fé: a fé que desafia não somente as superficiais crendices, mas que vai fundo até transgredir a mais iminente realidade da enfermidade e a absolutização da morte.

Como é bom começar a semana sendo desafiados a elevar o estágio de fé em que nos encontramos. Como é bom saber que podemos nos apropriar de fé que transgride qualquer prognóstico que nos apresente a realidade caótica.

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