Tu me vês como eu te vejo

O cego de Jericó, Nicolas Poussim
Você está vendo alguma coisa? O homem olhou e disse: Vejo pessoas; elas parecem árvores, mas estão andando. Jesus pôs outra vez as mãos sobre os olhos dele. Dessa vez o cego olhou firme e ficou curado; aí começou a ver tudo muito bem. Marcos 8.24-25

A grande questão entre a igreja e o mundo nunca foi dogmática ou mesmo doutrinária. Sempre foi uma questão de pontos de vista. Não propriamente a visão que cada um tem de si, mas como da um enxerga o outro e vice-versa. Não digo com isso que um olhar diferente derrubaria a diferença que há entre eles e os aproximaria de vez, mas penso que muitas das diferenças que hoje se acentuam como cruciais, estas, sim, seriam derrubadas.

Não há como acreditar que enquanto a igreja enxergar o mundo como uma horda maldita que caminha a passos largos para o inferno e o mundo enxergar a igreja como uma trupe de iludidos por uma fé irracional e absurda, possa haver realmente qualquer possibilidade de diálogo. De um lado só se pode esperar zombaria e desprezo, enquanto de outro, apenas uma falsa piedade disfarçada por campanhas proselitistas. É bem certo que ambos se encontram em situação muito parecida com a do primeiro estágio de cura a que o cego do texto do evangelho de Marcos foi submetido. Tanto um quanto outro enxergava as pessoas como simples objetos que se movem sem um propósito válido e em direção aos caos absoluto.

Muito embora a definição de herege seja a pessoa que é contrária aos dogmas de uma determinada religião ou seita, na prática prevalece a máxima de que herege é aquele que não acredita na minha religião, seja ela até mesmo o ateísmo. É exatamente por causa dessa incompatibilidade de ideias que o evangelista acentua essa cura em dois estágios distintos, ou seja, quando se faz necessária uma segunda intervenção de Cristo. Um segundo toque que colocaria as coisas nos lugares, onde elas pudessem ser enxergadas como realmente são.

Não sei como deixei de lado este texto por tanto tempo, posto que ele sempre foi um dos meus favoritos. Vale a pena lê-lo, pois é absolutamente fantástico em todos os seus detalhes. Veremos que Jesus pega o cego pela mão, com a intenção nítida de guiá-lo para fora de uma cidade incrédula que se mostrara indigna de presenciar o milagre. Apesar da igreja mostrar um mórbido prazer na perdição do pecador, Jesus sempre tratou do assunto com profundo pesar, declarando de todas as formas qual era a sua verdadeira vontade.

Este cuspir nos olhos, embora nos pareça estranho e até nojento, é totalmente diferente da narrativa de João 9.6, quando Jesus faz um lodo com saliva e pó. Este ato visava remover a secreção que impediria a visão do cego, mesmo que organicamente este já tivesse sido curado da sua cegueira. Serviu para mostrar que o milagre da restauração da vista veio acompanhado de uma atitude natural, concreta e nada sobrenatural em favor da vítima, como poderíamos pensar. Uma atitude para a qual a igreja está sempre sendo desafiada a tomar: retirar o cisco dos olhos do mundo, mas apenas e tão somente após retirarmos a trave que está impedindo a nossa visão.

O texto também é uma sentença condenatória à onda de milagres que estão sendo anunciados de cima dos nossos púlpitos. Enquanto que estes falsos milagres são forjados pelos meios mais estapafúrdios e não apresentam qualquer finalidade específica, os verdadeiros milagres insistem em se anunciar pela simplicidade e pela objetividade, e, para o nosso desapontamento, nos lugares e situações inimagináveis.

Precisamos urgentemente desse segundo toque e de recebermos essa nova visão. Enquanto isso não acontecer estaremos sujeitos a ver as pessoas e sermos vistos por elas como ovelhas sem pastor, árvores que andam ou massa de manobra para objetivos, o que distancia cada vez mais, tanto a nós quanto ao mundo, do verdadeiro propósito para o qual fomos criados.

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