O que é ESPERANÇA?

Esperança, George Frederic Watts
No Primeiro Testamento
Na língua grega a palavra èXjcíç pode indicar a expectação tanto de um mal como de um bem; mas no Primeiro Testamento a esperança, no hebraico tiqwãh, é sempre a expectativa de um bem futuro. A esperança desempenha um papel importante tanto na vida religiosa do povo de Israel, como na do indivíduo, pelo fato de que a religião do Primeiro Testamento se fundava numa aliança que continha promessas. Daí que no Primeiro Testamento, a esperança é geralmente a expectativa confiante da proteção e da bênção de Javé, como cumprimento das promessas da aliança. Está, portanto, intimamente ligada com a fé, com a qual é posta em paralelo.

Até a conquista de Canaã, o principal objeto da esperança era a terra prometida. Em seguida, aumentando-se os perigos que ameaçavam a existência de Israel, a esperança da proteção de Javé foi ficando mais viva. Do Dia de Javé esperava-se a libertação definitiva de todo o mal e o início de uma era de felicidade e prosperidade. Os profetas condenaram tal esperança como temerária, porquanto Israel, pelos seus pecados, não mereceria a bênção, mas a maldição de Javé. Embora ameaçassem com a punição divina, não deixaram de alimentar a esperança na redenção e na restauração de Israel, ou pelo menos de um Resto de Israel. E, quando o castigo predito se tomou um fato, pela destruição do duplo reino de Israel, a esperança da salvação chegou ao seu auge, sobretudo nas profecias de Jeremias e Isaías. Anunciaram a restauração de Israel na forma de uma nova aliança e de uma entronização definitiva de Javé como rei de Israel e do mundo. Assim a esperança ganhou, em Israel, um caráter escatológico.

Enquanto vive, o homem tem esperança; quando desaparece a esperança, tudo está perdido; um homem sem esperança é como morto. Para o homem piedoso há um futuro, há uma esperança, e essa não será frustrada, porque se apoia em Deus; o homem piedoso pode chamar a Deus de sua esperança. A esperança exclui a angústia, mas caminha a par com o temor de Deus. O homem piedoso, quando pobre ou oprimido, espera cheio de confiança a proteção e a ajuda de Deus e a restituição dos seus direitos. O pecador arrepen­dido espera o perdão dos seus pecados. Às vezes, a sua esperança toma um matiz escatológico. Isso se acentua mais no judaísmo posterior; o sábio, isto é, o piedoso, espera a imortalidade, a ressurreição de seu corpo, a salvação junto de Deus, enquanto que para o pecador não há esperança, ou apenas uma esperança vã e enganadora.

Segundo Testamento
No Segundo Testamento a palavra êtatíç, com sentido religioso, encontra-se muitas vezes em Paulo, em Hebreus e em I Pedro, algumas vezes em Atos e l João, nunca, porém, nos Evangelhos ou no Apocalipse. O verbo êXitctsw (esperar) encontra-se, tanto em sentido profano como em sentido religioso, frequentemente em S. Paulo, com menos fre­quência em Atos, raramente nos Evangelhos, nunca no Apocalipse.

Os Evangelhos sinóticos não contêm dou­trina alguma explícita sobre a esperança, tampouco exortação para praticá-la. No entanto, a boa-nova de Jesus é uma mensagem de esperança Pois o evangelho, a boa-nova da salvação, que Jesus trouxe e realizou, é a pregação do futuro Reino de Deus, que sem deixar de ser essencialmente escatológica, já opera e está presente na pessoa de Jesus. Aos pobres, aos humildes, aos oprimidos, que colo­cavam a sua esperança unicamente em Deus, Jesus promete a posse dos bens soteriológicos do Reino de Deus; as Bem-aventuranças anunciam-lhes a futura realização da sua esperança.

Rm 8,24 descreve a esperança como o ato de aguardar, com confiança e paciência, o que não se vê, as coisas que são invisíveis, não apenas porque pertencem ao futuro, mas também porque transcendem os sentidos. A esperança portanto abrange expectativa, confiança e paciência. Estas três são inseparáveis, embora se acentue, às vezes mais a confiança, às vezes mais a expectativa e a paciência. Na nova aliança, não da letra, mas do espírito, a esperança não é mais a mesma que a esperança daqueles que viviam na antiga aliança, visto que se funda na redenção já operada por Cristo. O cristão que “vive no espírito”, ou que “possui o espírito”, já possui os bens da salvação: a redenção da escravidão da carne e do pecado, a filiação divina e o direito à herança, a justificação que dá a vida e a glória, o espírito que produz a vida eterna e garante a ressurreição do corpo e é o penhor da herança divina. A esperança do cristão, portanto, baseia-se na posse de bens que pertencem ao Reino de Deus, e que são, como este, ao mesmo tempo presentes e futuros. Pois o cristão “foi salvo em esperança”, e espera para o futuro a plena revelação de sua filiação divina e da glória. Pelo que são ainda objetos da esperança do cristão: o Reino de Deus, a vinda de Cristo, a ressurreição, a vida eterna, a participação na glória de Cristo e em todos os bens que foram anunciados pela boa-nova, e que lhe estão prepa­ados no céu.

Quem inspira a esperança é Deus, que é fiel às suas promessas, e Cristo lhe dá firmeza. Ele que é a esperança do cristão, sua esperança da glória eterna. Por isso a esperança não decepciona, mas se torna uma fonte de alegria, de segurança e de honra. Junto com a fé e o amor, com os quais ela está intimamente ligada, a esperança constitui toda a vida interior do cristão, ela é a marca que o distingue daqueles que não têm esperança, os pagãos.

Os escritos joaninos usam a palavra esperança uma única vez; acentuam mais a posse atual da vida eterna, que é suscitada no crente pela fé, que o faz passar da morte à vida. Como, porém, o homem todo é destinado para a vida eterna, aguarda-o ainda a ressurreição no último dia, e não obstante o crente seja efetivamente filho de Deus, deve ainda se manifestar o que ele será; porque então será semelhante a Deus, contemplando-o tal qual Ele é. A esperança, portanto, não está ausente dos escritos joaninos; pelo contrário, condiciona aquela purificação da qual o crente precisa, para se tornar puro diante de Deus. O Apocalipse tem por finalidade consolar e confortar os cristãos da Ásia Menor, pela esperança na vitória final da Igreja de Cristo sobre todos os seus inimigos. 


Fonte:
Dicionário Enciclopédico da Bíblia, A Van Den Born - Vozes 1985

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