O que é RENASCER?

O peso da História, Fabianni Belemuski
O simbolismo do nascer-de-novo é um tema bastante comum das religiões da humanidade. Assim é que as práticas, tão difundidas entre os povos primitivos, que fazem da criança um adulto e do profano um iniciado, incluem frequentemente ritos que fazem o recém-convertido passar outra vez pelas etapas da primeira infância. Também a entronização real pode aparecer como um novo. Mas na revelação judaico-cristã este simbolismo exprime realidades de ordem toda singular. O que nasceu da carne é carne; o que nasceu do Espírito é espírito (Jo 3,6).

Ao nascimento natural do homem contrapõe o Segundo Testamento um nascimento sobrenatural, cujo princípio é ou a Palavra, ou o Espírito de Deus, e que se realiza pela fé e pelo batismo.

As preparações
O Primeiro Testamento jamais fala de novo nascimento para o homem: por sua nascença natural, o israelita pertencia de pleno direito ao povo de Deus; não tinha, pois, precisão de nascer de novo. Esse tema tem, não obstante, profundas raízes no Primeiro Testamento.

A constituição de Israel como povo de Deus é bastas vezes representada no Primeiro Testamento como um verdadeiro parto. Israel é o primogênito de Deus. Deus o gerou quando o fez sair do Egito, e a vida no deserto foi como que sua primeira infância. A tradição judaica ligou esse nascimento de modo mais es­pecial com o dom da Lei: Porque se chama Renascer, e ao monte Sinai Casa de minha mãe? Porque lá os israelitas se tornaram: crianças recém-nascidas (Midraxe sobre Ct 8.2).

Na nova Aliança anunciada pelos profetas, Deus não se contentará com dar ao povo sua Lei, gravá-la-á no coração de cada homem, no mais fundo íntimo do próprio ser (Jr 31.31-34; Dt 30.10-14). Ou então, é o Espírito que deve vir renovar o coração do homem. É ainda nascimento novo, e fonte de uma alegria inaudita, aquele que abre o seio de Jerusalém e a cumula de filhos (Is 66.7-14).

No primeiro século de nossa era, o judaísmo não desconhecia o tema do nascer-de-novo. Quando um pagão se convertia e recebia o batismo dos prosélitos, todos os laços anteriores se consideravam rompidos. Para expressar esse rompimento dizia-se que ele era como um recém-nascido. Tratava-se de mera metáfora, entendida, sobretudo, no plano jurídico; no Segundo Testamento ela vai se tornar realidade.

Palavras de Jesus
Nos evangelhos sinóticos Cristo não fala em nascer-de-novo. Contudo, com base em Jr 31 e Dt 30 ele compara a Palavra de Deus com uma semente colocada no coração do homem para ali ser princípio de vida moral nova (Mt 13.18-23 p). Por outro lado, ele ensina que é necessário voltar ao estado das crianças para entrar no reino dos céus: como a criança, deve o homem receber tudo de Deus. Verdade esta que se explicita no IV evangelho: É preciso nascer de novo para entrar no reino dos céus (Jo 3,3-5).

A reflexão apostólica
No princípio divino, todo nascimento se realiza a partir dum germe de vida que determina a natureza do ser engendrado. Para renascer sobrenaturalmente, o homem deve receber em si um princípio de vida vindo do alto, de Deus. A tradição apostólica o identificou ora com a Palavra, ora com o Espírito de Deus.

A Palavra
Segundo Tg 1.18.21, Deus nos gerou pela sua palavra de verdade, que devemos receber para sermos salvos. Numa perspectiva judeu-cristã, a Palavra ainda aqui se identifica com a Lei mosaica (1,22-25), e é difícil determinar se o parto em causa se refere à constituição do povo santo por Deus, ou ao novo nascimento do cristão. Segundo I Pe 1.22-25, Deus nos gerou do novo por sua Palavra (a pregação evangélica) que ele depositou em nós como semente de vida e à qual devemos obedecer. Como crianças recém-nascidas desejamos o leite da Palavra que nos deve fazer crescer até à salvação (IP 2,2). Assim também João: nosso novo nascimento é o efeito duma semente de Deus depositada em nós (1J 3,9), Cristo, Palavra de Deus, que se deve receber pela fé.

O Espírito
Em Jo 3.3ss não é mais a Palavra, e sim o Espírito que é dado como tal princípio de nosso novo nascimento, em conexão com a água batismal, como em Tt 3.5.

Para Paulo, é o Espírito que faz de nós filhos de Deus. Nascimento pela Palavra que se recebe graças à fé, ou pelo Espírito que é dado mediante o batismo, temos nisto os dois aspectos complementares duma mesma realidade, pois que Palavra e Espírito são inseparáveis: o Espírito dá eficácia à Palavra. Como a criação, assim a obra da nossa regeneração não se conceberia sem o concurso da Palavra e do Espírito.

Vida nova
No Segundo Testamento o novo nascimento não é mais uma metáfora e sim uma realidade profunda. Recriado pela Palavra e pelo Espírito, o homem se tornou um ser-novo cujo comportamento moral é radicalmente transformado. Ele abandonou o mal, já não segue suas paixões, mas obedece à Palavra que lhe prescreve o amor aos irmãos; não pode mais pecar contra as exigências do amor fraternal. Ele vive doravante sob a moção do Espírito, enxertado na vida do próprio Cristo.

Frutos escatológicos
Tendo-se tornado filho, ele pode ter pretensão à herança do Reino. A semente nele depositada é um germe de incorrupção, por ser a Palavra que permanece eternamente. Para subir ao céu é preciso de lá ter descido; esse princípio, válido em primeiro lugar para o Pilho do Homem, tem um alcance universal; portanto só poderá subir ao céu aquele que tiver recebido em si esse princípio, vindo do alto, o Espírito de Deus, penhor de nossa ressurreição gloriosa.

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