O que é ESTRANGEIRO?

Hebreus no Egito, st.takla.org
Entre os estrangeiros, distingue a Bíblia os que pertencem às outras nações e que, até a vinda de Cristo ordinariamente são inimigos. O estrangeiro de pas­sagem nokrim, tido como inassimilável, como é também o caso da mulher estrangeira e mais particularmente o da prostituta, que muitas vezes leva o homem para a idolatria. O estrangeiro residente gerim que não é proveniente das raças que já habitavam o local, mas cuja existência está associada à da gente do país, como os metekois nas cidades gregas. O presente verbete trata exclusivamente dos estrangeiros residentes.

Israel e os estrangeiros residentes
A progressiva assimilação dos gerim por Israel muito contribuiu para quebrar o círculo racial em que ele estava espontaneamente inclinado a se fechar; ele preparava assim o universalismo cristão.

Lembrando-se de que um dia foi estrangeiro no Egito, Israel não deve se contentar em exercer para com os residentes a hospitalidade que ele concede aos nokrim, mas amá-los como a si mesmo, pois Deus vela pelo estrangeiro assim como estende a sua proteção sobre os indigentes e os pobres. Ele estabelece para eles um estatuto jurídico análogo ao seu próprio; autoriza mais especialmente os circuncisos a participarem da Páscoa, a observarem o sábado, a jejuarem no dia da Expiação; a não blasfemarem o nome de Javé. Sua assimilação é tanta, que no Israel do fim dos tempos, Ezequiel lhes dá o país em partilha juntamente com os cidadãos de nascimento.

Na volta do exílio, nota-se um movimento de separação. O gerim é obrigado a abraçar o judaísmo sob pena de ser excluído da comunidade. Com efeito, a assimilação deve ser sempre mais estreita. Se um filho de estrangeiro se liga a Javé e observa fielmente a sua Lei, Deus o recebe com agrado no seu templo, ao mesmo título que aos israelitas. Realmente, na dispersão, procuram os judeus difundir a sua fé, como o atesta a tradução grega da Bíblia. Esta muitas vezes traduz gerim por prosélito, termo que designa todo estrangeiro que adere plenamente ao judaísmo; ela dá a certos textos um alcance universal. O movimento missionário que uma tal adaptação dos textos supõe é lembrado por Jesus: os fariseus sulcam mares para fazer um prosélito.

No dia de Pentecostes estão presentes os prosélitos; inúmeros são os que abraçam a fé em Cristo. Mas o terreno preferido para a atividade missionária de Paulo são os tementes a Deus, pagãos simpatizantes da religião judaica, mas sem chegar a circuncidar-se, por exemplo, Cornélio. Rapidamente todas essas distinções desaparecem com a supressão da barreira entre judeus e pagãos pela fé cristã: todos são irmãos em Cristo.

Israel, estrangeiro na terra
Por outro lado, uma transposição da condição de gerim sobrevive dentro da fé cristã. A terra de Canaã foi prometida a Abraão e aos seus descendentes, mas Deus continua sendo o seu real proprietário. Israel, gerim de Deus, é apenas o locatário. Esta ideia contém em germe uma atitude espiritual que se encontra nos salmos. O israelita sabe que não tem direito algum diante de Deus, deseja apenas ser seu hóspede; reconhece que é um estrangeiro em sua própria casa, um passante como todos os seus ancestrais. Passante, também no outro sentido de que a sua vida aqui na terra é breve; ele roga a Deus que o socorra prontamente.

No Segundo Testamento essa compreensão da condição humana ainda se aprofunda. O cristão não tem aqui na terra morada permanente; é estrangeiro na terra, não só porque ela pertence só a Deus, mas porque ele é cidadão da pátria celeste; lá ele não é mais hóspede nem estrangeiro, mas um concidadão dos santos. Enquanto ele não atingiu essa meta, a sua vida é uma vida viandante à imitação dos patriarcas, que outrora se arrancaram do seu ambiente para se porem a caminho de uma pátria melhor. João acentua ainda mais esse contraste entre o mundo em que é preciso viver e a verdadeira vida em que já fomos introduzidos. Nascido do alto, o cristão só pode ser um estrangeiro ou peregrino nesta terra, porque entre ele e o mundo não há acordo possível: o mundo efetivamente jaz sob o poder do Malvado. Mas o cristão, se bem que não seja mais deste mundo, sabe, como Cristo, de onde vem e para onde vai, segue a Cristo que plantou a sua tenda em nosso meio e que, tendo voltado para o Pai, prepara um lugar para os seus, a fim de que onde ele está esteja também o seu servo, morando na casa do Pai. 

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