O que é melhor, certezas ou dúvidas?

Quebrando o silêncio, Ronnie Queenan
Texto do rev. Jonas Rezende.

Com tremendos feitos nos respondes em tua justiça, ó Deus, Salvador nosso, esperança de todos os confins da terra.  Leia Salmos 65

Martinho Lutero, ao rejeitar a tendência para o ceticismo de Erasmo de Rotterdam e nos humanistas do Renascimento, fez uma crítica radical: haverá algo, pergunta Lutero, mais miserável que a incerteza? Para o reformador do século XVI, eliminar esta certeza última é abolir, com ela, o cristianismo.

Nosso filósofo Antônio Cícero, em contexto diverso, parece caminhar para uma conclusão semelhante: se tudo é relativo, reflete o filósofo, não há certo nem errado; se tudo é relativo, não há verdade absoluta.

No salmo presente, Davi também não cria um contraste nem inova sobre o problema da certeza, como você pode ver ela frase de abertura: firme está o meu coração, ó Deus.

Como homem de fé, não apenas compreendo essa posição, mas também compartilho da inabalável certeza que a fé pode gerar em nosso coração. Mas deixem-me dizer que me assustam as pessoas que são movidas por certezas absolutas. Afinal, o próprio Davi diz no salmo 55: terrores de morte me sobrevêm e o horror se apodera de mim.

Os argumentos usados pelo apóstolo Paulo, Santo Agostinho ou Lutero me ajudam, porque frutos da sua comunhão com Deus. Mas há uma distância enorme entre os testemunhos da fé e certas práticas de intolerância religiosa. Quero então repetir que tenho medo daqueles que são movimentados por certezas absolutas e agridem dogmaticamente a certeza dos outros, quando não desprezam e perseguem os divergentes, os chamados hereges.

Você sabia que a palavra herege significa escolher? Neste sentido, quero sempre ser herege e poder fazer escolhas. Começo por parodiar Lutero: haverá algo mais miserável do que um homem sem dúvidas, alguém que se sinta o dono absoluto da verdade? São esses homens que alimentam todas as inquisições e as diferentes manifestações de intolerância. São eles que ousam sufocar dúvidas honestas e o pluralismo que não se esgota em nenhum modelo único consagrado.

Embora aceite uma verdade última, que se confunde com Deus, reconheço que ninguém e capaz de interpretá-lo de maneira perfeita e, portanto, definitiva. A dúvida cumpre papel na vida humana, como Descarte torna evidente. Cabe aqui, portanto, um elogio a São Tomé, você não concorda?

Reflita comigo. A arrogância de nos colocarmos como intérpretes exclusivos de Deus – posição que o saltério jamais adotou – não pode nos levar a repetir os equívocos dos fariseus de todos os tempos.

O amor divino, presente neste salmo, como em todos os demais, não combina com a realidade chamada inferno. Veja o que Davi diz para Deus: a tua misericórdia se eleva até os céus, e a tua fidelidade até às nuvens.

Mas se, apesar do amor divino, o inferno existisse mesmo, com seu fogo e enxofre, acredito que os seus inquilinos preferenciais se contam entre os fariseus, justamente os homens das certezas sem dúvidas.

Mas veja bem.
Se também os fariseus forem aceitos por Deus,
como acredito, ao chegarmos ao céu temos de
tomar cuidado e falar bem baixinho, porque eles
certamente pensam que estão ali sozinhos.

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