Amanhã há de ser um novo dia

Porque não passa de um momento a sua ira; o seu favor dura a vida inteira. Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã.
Na transição do século XX para o XXI, o Jornal do Brasil teve uma excelente ideia: como você sabe, foram publicados vários números do chamado Jornal do Século, um bem cuidado levantamento dos fatos mais importantes que povoaram os últimos cem anos, no Brasil e no mundo. 

Coisas interessantes, como o sucesso de Santos Dumont em Paris, primeiro com um dirigível, mas depois com o seu 14-Bis, o primeiro aparelho mais pesado que o ar a sair do solo por seus próprios recursos. Mas também muitas desgraças traumatizaram a humanidade, como a ascensão do nazismo e o genocídio de judeus e ciganos na Segunda Guerra Mundial. E o absurdo das bombas atômicas, em Hiroshima e Nagasaki, levando o Japão a reconhecer sua derrota.

Eu gostaria, entretanto, de chamar a sua atenção para o fato de que, por maiores que tenham sido os fantasmas do século findo, quase todos eles desapareceram. E ficou apenas a luminosidade das gran­des e definitivas conquistas. Ainda bem.

A superação, em seus dias, de dificuldades semelhantes levou o rei Davi a celebrar suas vitórias com este salmo que deveria ser canta­do com júbilo: eu te exaltarei, ó Senhor, porque tu me livraste... salmodiem ao Senhor, vocês que são os seus santos... pois o choro pode durar uma noite inteira, mas a alegria vem pela manhã...

Em outro poema de autoria desconhecida, a certeza do poeta do Eterno, na mesma linha de Davi, tem a claridade e o toque da grata memória que caracteriza os que amam e seguem ao Senhor: quem sai andando e chorando enquanto semeia, voltará com júbilo trazendo os seus feixes.

Não se trata de alimentar um otimismo sem consistência, mas de termos a firme certeza daquilo que esperamos e a antecipada prova do que não podemos ver, como o escritor da carta aos hebreus entende o ato de fé. Santo Agostinho caminha na mesma direção: crer, ainda que seja absurdo. E diz mais o bispo de Hipona: há coisas que conhecemos primeiro, para depois crermos. Mas há coisas que só conhecemos depois de crermos nelas.

Pela fé, não duvidamos, como aconteceu com Davi: o choro noturno termina com a alegria que chega quando nasce o sol.

No auge do golpe de 1964 foram muitos os exilados, os perseguidos e mesmo os mortos pela ditadura militar brasileira. Parecia a definitiva vitória da truculência sobre o sonho e da força bruta sobre o ideal. Tínhamos a impressão de que a justiça e o amor estavam para sempre esmagados pelo arbítrio. E a alegria desaparecera para sempre no soluço indignado de Zuzu Angel.

Nessa hora escura da Nação, um compositor popular musicou a sua esperança:... amanhã há de ser outro dia. Tanto Chico Buarque como muitos de nós vivemos para celebrar esse dia conquistado, que já ficou para trás em nossa História.

Sabe? Quero ver você não chorar, como pede, com graça, uma velha canção publicitária. Mas às vezes o choro é inevitável. Até Jesus chorou. E disse que, em determinadas circunstâncias, são bem- aventurados os que choram.

O mais importante é então não se esquecer de que 
a sua alegria pode ser devolvida de manhã.

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